Percy Jackson e o Mar de Monstros – Foi quase!

É aquela época do ano de novo, época de falar de Percy Jackson!

Contrariando as expectativas de muitas pessoas, Percy Jackson e o Ladrão de Raios (Percy Jackson & the Olympians: The Lightning Thief, 2010) rendeu uma continuação que por mais incrível e improvável que pareça, consegue ser mais esquecível do que o primeiro filme. Eu literalmente só descobri que esse filme existia quando em um dia no passado distante quando as Lojas Americanas vendiam DVDs, eu encontrei e comprei o deste filme. Hora de falar sobre Percy Jackson e o Mar de Monstros (Percy Jackson: Sea of Monsters, 2013).

Primeiro, algumas coisas.

Para reassistir a esse filme e me preparar para a segunda temporada da série eu reli o segundo livro de Percy Jackson e os Olimpianos, então fica aqui o aviso de que alguns leves spoilers sobre o mesmo, logo, também sobre a segunda temporada da série podem aparecer daqui para frente, caso você ainda não tenha assistido, tenha cuidado.

E mais uma vez, já peço perdão a quem possa causar gatilhos às menções a Harry Potter, mas acaba sendo inevitável em alguns pontos.

Tentando consertar um carro construído todo errado

Percy Jackson e o Mar de Monstros continua a história de nosso semideus Percy (Logan Lerman) e seus amigos Annabeth (Alexandra Daddario) e Grover (Brandon T. Jackson), agora em busca do Velocino de Ouro, um objeto mágico com poder de curar tudo para restaurar o pinheiro de Thalia, a árvore mágica que protege o Acampamento Meio-Sangue.

Falando a verdade, provável é que a 20th Century Fox, não estava muito empolgada para essa sequência. Dá para perceber isso só de ver os nomes que foram chamados para encabeçar o filme.

O filme é dirigido por Thor Freudenthal, que até então tinha dirigido Um Hotel Bom pra Cachorro (Hotel for Dogs, 2009) e Diário de um Banana (Diary of a Wimpy Kid, 2010), o roteiro é de Marc Guggenheim, que anteriormente tinha escrito roteiros para um videogame baseado em X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, 2009) e Lanterna Verde (Green Lantern, 2011). Depois desse filme ambos caíram de cabeça no universo de séries da CW antes de começarem a tomar melhores decisões de carreira. A fotografia é de Shelly Johnson responsável pela direção de fotografia de Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, 2011) e de Os Mercenários 2 (The Expendables 2, 2012) e a trilha sonora de Andrew Lockington, que trabalhou nas trilhas de Viagem ao Centro da Terra: O Filme (Journey to the Center of the Earth, 2008) e Viagem 2: A Ilha Misteriosa (Journey 2: The Mysterious Island, 2012).

A batata quente caiu na mão dessas pessoas e admito que elas conseguiram dar um certo molho ao filme, entenderam melhor a energia que Rick Riordan colocou em seus livros, mas estavam em desvantagem desde o início. Precisavam aproximar esse filme o máximo possível dos livros para tentar atrair leitores de volta e manter o que deu certo para continuar agradando quem gostou do primeiro filme.

Basicamente todo o universo de Percy Jackson e os Olimpianos precisa ser devidamente apresentado além da história deste filme, sendo que muitos elementos necessários para isso não foram nem mencionados no primeiro filme. O início é promissor, um flashback contando a história de Thalia (Paloma Kwiatkowski), que influencia diretamente a de Annabeth e Luke (Jake Abel), depois uma sequência na parede de escalada para entendermos quem é Clarisse (Leven Rambin).

De um modo geral até que se saem bem procurando novas saídas para o roteiro, como a busca por Pã não é mencionada no primeiro filme, Grover não pode começar a história desaparecido e ele tem que ser jogado na caverna de Polifemo (Ron Perlman) de uma nova maneira e encontram um jeito bem plausível de fazer isso. Até o detalhe de Annabeth andar com um ramo do pinheiro para acompanhar sua saúde é bem pensado.

Mas em seguida muita informação é jogada para o espectador e saímos de um filme onde muita coisa não era explicada para um em que uma nova coisa surge e é explicada a cada segundo.

Temos sim agora um mundo onde a mitologia grega existe disfarçada, mas sim junto do mundo real, onde deuses vestem roupas comuns, existe um comercio a parte onde só se usa dracmas e toda uma cultura paralela, muitas vezes bizarra, mas espantosamente normal, porém, apesar de uma boa construção de mundo, a construção de personagens segue superficial e mal trabalhada.

Apatia e alegria

O filme tem bons momentos, boas tiradas e boas ideias, com a intenção de agradar fãs, as melhores delas relacionadas ao novo elenco. Colocar Stanley Tucci como Sr. D, o deus Dionísio até nos faz perdoar o fato de ele não ter aparecido no primeiro filme, com sua implicância com Percy sendo exacerbada para uma implicância com qualquer um que ele não goste, errando o nome inclusive de Annabeth e Grover, seu timing para comédia é sem igual e sua interpretação impecável, tal qual Jeremy Irons como Brom em Eragon (2006) é uma atuação que fica na memória, apesar do filme não. Hermes sendo interpretado por Nathan Fillion e dono da UPS (uma transportadora dos Estados Unidos), fazendo até mesmo uma piada extremamente específica sobre uma ótima série que foi cancelada cedo demais.

Apesar de Pierce Brosnam ter abandonado o barco e agora Quíron ser interpretado por Anthony Head foi uma perda, mas agora pelo menos temos um centauro com altura de centauro. Finalmente temos também os objetos ao mesmo tempo mundanos e mágicos, mesmo o clássico boné de Annabeth e a lança de Clarisse ficando de fora.

A ação é boa, manter os poderes de água de Percy e fazê-lo surfar fugindo do iate foi muito bom, assim como a cena dos três cavalgando o hipocampo, momentos que fazem esse filme quase chegar lá.

Mas também temos probleminhas, é claro, senão um terceiro filme talvez tivesse visto a luz do dia.

Foi curioso perceber que o tempo de tela de Grover diminui drasticamente. Tudo bem que na história ele de fato fica desaparecido e agora temos Tyson, personagem nova a ser apresentado, no entanto a impressão que fica é que ficaram com medo de mais uma vez o carisma de Brandom se sobressair e ofuscar o resto do elenco. Só que fazem isso e tornam Percy e Annabeth duas estátuas sem carisma, o fofo Tyson de Douglas Smith é quem carrega o encanto deste filme.

O mais triste é saber que o elenco é capaz de entregar muito mais, estamos falando de um protagonista feito por um rapaz que no ano anterior se destacou em premiações por seu papel em As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012) e segue até hoje recebendo indicações de vez em quando. Enquanto Alexandra ficou reduzida a gritar “Percy” a cada 5 minutos, sua Annabeth perde importância e é possível imaginar esse filme acontecendo sem ela sem esforço.

E não vamos nem falar sobre Luke, o vilão que não desperta nada em quem assiste, e Clarisse, a rival que basicamente não oferece ameaça e nem briga com o protagonista, na verdade até simpatiza fácil demais com ele.

A direção basicamente acabou com o destaque do primeiro filme, deixando o elenco apático e indiferente.

Enquanto isso no roteiro, são tramas demais para um filme que não parece saber qual delas é mais necessária do que a outra, então, por exemplo, traições que deveriam ser um choque ficam de lado rapidamente. Muito do livro é preservado, relações e questões que estão presentes na obra como um todo, mas não tem seu devido tempo de desenvolvimento.

Toda a questão de o que diferencia monstros e semideuses que é uma das principais nos livros, sobre como os deuses negligenciam seus filhes, sejam seres humanos ou não, apenas fazem suas merdas e não assumem responsabilidade é desperdiçada sem dó. Tyson é menos infantilizado como nos livros e é mais um cara doce e gentil, mas também perde seu lado de ferreiro habilidoso, se perdendo no estereótipo do brutamontes fofo.

Os diálogos até tem seus momentos, como o icônico e atemporal “não andem no meu teto”, mas no geral são extremamente expositivos e chatos de se ouvir.

A preparação para o final estraga a experiência toda

No terceiro ato do filme, finalmente descobrimos porque tanta coisa foi suprimida ou deixada de lado, era de fato por tempo e dinheiro, mas era por tempo e dinheiro economizado para ser usado na sequência final do filme, onde uma “batalha épica acontece”. A preparação para ela prejudica o filme todo.

Com Cronos como um tipo estúpido de monstro gigante, revivido instantaneamente pelo Velocino de Ouro (que até para curar crianças feriadas leva algum tempo) para ser rapidamente derrotado e dando a Percy uma falsa sensação de que contornou a Grande Profecia, sendo que em tese ela diz que ele chegaria aos 20 anos.

Quem é o grande vilão dessa palhaçada?

É o estúdio. Brincadeira. Ou não.

É esse questionamento que me faz desgostar mais dessa sequência final. Tirando todo o lado manipulador de Cronos, seu grande plano para voltar, fica só uma promessa de um grande vilão que pode vir aí. A realidade que temos é Luke como o grande vilão, que decidiu reconstruir Cronos porque sim, para ter uma arma forte que se revela um gigantão que quer devorar semideuses. A sensação é que em cada filme Luke vai surgir com uma nova ideia, uma nova arma ou um novo aliado para destruir o Olimpo.

Cronos parece como o vilão desse filme, não o antagonista principal de uma franquia, tanto que existe um plano no epílogo para mostrar seus pedaços novamente no sarcófago para esclarecer que ele ainda pode voltar. Seria fácil demais colocar na trama como no primeiro filme que foi ele quem influenciou Luke a roubar o Raio-Mestre, mas é como se o próprio roteiro não acreditasse que o Senhor dos Titãs é realmente alguém a se temer.

Um suspense quando se cria esse tipo de antagonista para uma franquia toda é essencial, não é a toa que Voldemort só volta de verdade para valer agora vai no quarto livro/filme, Cronos também só se ergue de verdade no quarto e penúltimo livro.

Essa escolha apressada, de quem quer que tenha vindo, compromete a obra inteira.

Percy Jackson e o Mar de Monstros é a queda final do grande tropeço que foi Percy Jackson e o Ladrão de Raios e a pá de cal nessa quase franquia de quase sucesso, mas que acabou deixando uma marca para bem ou para mal no coração dos fãs.

Agora uma nova adaptação do segundo livro chega com a segunda temporada da série Percy Jackson e os Olimpianos (Percy Jackson and the Olympians, 2023 -) no Disney+ que no momento da escrita deste texto já está completinha.

Claro, logo menos nosso texto sobre a temporada sai!


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