Predador: Terras Selvagens – Uma nova caçada, velhas fórmulas e um toque de humanidade

Três anos atrás, em 2022, os fãs de um dos alienígenas mais populares do cinema tiveram uma maravilhosa surpresa: o filme O Predador: A Caçada (Prey, 2022). Lançado diretamente para streaming, com um diretor ainda sem muita experiência e apostando em uma narrativa minimalista, o filme acabou se mostrando uma ótima forma de voltamos à franquia após o fiasco vergonhoso que havia sido O Predador (The Predator, 2018). O jovem diretor Dan Trachtenberg ganhou então a confiança dos produtores e dos fãs para dar continuidade à franquia, agora com uma responsabilidade ainda maior, já que outra franquia de um famoso alienígena do cinema também vem sendo retomada com bastante fôlego nos últimos anos com Alien: Romulus (2024) e com a série Alien: Earth (2025 -).

Demonstrando bastante sagacidade, Trachtenberg prepara o terreno antes de mais um movimento arriscado lançando outro filme para streaming, mas dessa vez uma animação antológica com três histórias de incursões de predadores à Terra para realizar suas famosas caças a habilidosos guerreiros em momentos diferentes da história humana. Predador: Assassino de Assassinos (Predator: Killer of Killers, 2025) – dirigido em parceria com Joshua Wassung, chefe do departamento de efeitos especiais nos filmes live action – teve uma excelente recepção tanto de crítica quanto de público, e nos preparou bem para a expansão deste universo.

Agora, com Predador: Terras Selvagens (Predator: Badlands, 2025), Dan Trachtenberg dá o seu terceiro e mais ousado salto até então, um salto que por muito pouco não acaba em um escorregão.

Pela primeira vez temos um Yautja (nome pelo qual as criaturas referem-se a si mesmas) não mais como um antagonista caçando guerreiros por quem os espectadores torcem pela sobrevivência, mas como personagem principal da narrativa. Dek (Dimitrius Schuster-Koloamatangi) é o mais jovem de seu clã e também o menor e mais fraco, o que na lógica hierárquica daquela raça de guerreiros o torna um pária, merecendo não mais do que o desprezo de seus pares. O único que acredita parcialmente em seu potencial é seu irmão mais velho, a quem Dek demonstra claro respeito. Após algumas circunstâncias que prefiro não revelar de antemão aqui, Dek acaba sendo mandado para um planeta conhecido por ser perigoso e selvagem, e onde se encontra uma fera lendária que nenhum outro Yautja jamais conseguiu caçar. No caminho de seu objetivo Dek encontra Thia (Elle Fanning) (ou ao menos metade dela), uma tagarela androide sintética que negocia com ele a promessa de servir de grande ajuda para alcançar seu objetivo em troca de ser levada junto e eventualmente protegida.

Não é uma narrativa das mais primorosas e muito menos criativa, em termos de roteiro já conseguimos deduzir boa parte da jornada dos personagens até sua conclusão. Porém, não é interesse do roteiro criar nenhuma expectativa quanto a surpresas (ainda que tente algumas), e sim pontuar os momentos de tenção e ação que desafia a dupla a cada passo que dão naquele inóspito planeta. E aqui o filme acerta em parte. Essas sequências são bastante empolgantes e dão o tom de aventura que o filme busca, e ainda que inicialmente o protagonista não demonstre tanto carisma a ponto de criarmos com ele alguma empatia, a sintética Thia é exatamente o contrário de Dek, e Elle Fanning e seu carisma magnético foi a escolha certa para interpretá-la (provavelmente alguns irão achá-la irritante, e eu não os julgo). Assim, temos a clássica dupla de protagonistas onde um deles é ranzinza e frio e o outro um falastrão engraçadinho, relação que por si só, consegue segurar o filme em sua maior parte.

Visualmente o filme é muito competente, mas também sem nada muito inovador: Yautja Prime, o planeta dos Predadores, lembra bastante o Wasteland de Mad Max, desértico e com pouquíssima vegetação, enquanto o Planeta Mortal é quase todo coberto de plantas e com uma enorme variedade de biomas, que são percorridos pelos protagonistas. As criaturas e perigos do planeta também não trazem nenhuma novidade, dando a impressão de que já as conhecemos de outros filmes ou séries de alienígenas e exploração espacial, mas nada que atrapalhe o andamento do filme ou a diversão. A trilha sonora segue o padrão mediano e é competente na maior parte do filme, com destaque para a cenas iniciais em Yautja Prime.

Deste forma, mesmo que não tenha superado as expectativas como um grande filme que desse continuidade à franquia, Predador: Terras Selvagens é interessante de se assistir e empolga na maior parte do tempo. Traz uma lição sobre laços familiares que, apesar de rasa, é genuína, demonstrando que mesmo quando vivemos em uma sociedade tão marcada por obrigações e tradições pré-estabelecidas somos capazes de subvertê-las e não deixar a afetividade de lado, demonstrando sentimentos essencialmente humanos, mesmo quando não há um ser humano sequer na relação.

Agora alguns SPOILERS mais pesados para quem não se importa ou já tenha visto o filme:

Finalmente temos uma confirmação do que todos tínhamos esperança: as franquias Alien e Predador fazem parte do mesmo universo. E não, os dois filmes (se é que podemos chamar aquilo de filmes) de Alien vs Predador não são canônicos. A única vez que tivemos uma referência de Alien no universo de Predador foi em Predador 2: A Caçada Continua (Predator 2, 1990), quando vemos um crânio de xenomorfo na nave em que o Tenente Mike Harrigan (Danny Glover) entra ao final do filme. Aqui em Predador: Terras Selvagens a confirmação vem com o fato de que Thia e outros são sintéticos construídos e controlados pela megacorporação Weyland-Yutani, com o objetivo de capturar espécies alienígenas para experimentos e uso como armas.


VEJA TABÉM

O Predador: A Caçada – Sorrateiro e eficaz como nunca

Alien: Romulus – Um frescor para a franquia