
O ser humano é um animal complexo, que adquire conhecimento com tempo, ganha senso crítico, especialidades e habilidades. É desta forma que muitos de nós mudamos o mundo ou até mesmo o meio em que vivemos, seja para o bem ou para o mal. O livre-arbítrio é apenas uma forma de entendermos que a liberdade que adquirimos muitas vezes é fruto das nossas próprias escolhas e mesmo influenciados por ecos familiares, no final, quando traçamos o caminho nesta jornada que nos levará a morte, é que entendemos a busca por um objetivo maior as vezes não é exatamente o que nos trará uma satisfação, mas uma compreensão de nós mesmos em uma verdadeira autorreflexão sobre nosso lugar no mundo.
Este resumo acima nada mais é do que a aura da nova mega produção da Netflix dirigida pelo aclamado Guillermo Del Toro, Frankenstein (2025), baseado no clássico livro homônimo de Mary Shelley publicado em 1818, conta a história de um jovem cientista, Victor Frankenstein (Oscar Isaac), que cria uma criatura monstruosa a partir de partes de cadáveres e posteriormente, a rejeita.
Eu tive o privilégio de assistir ao filme durante a Mostra de São Paulo, numa sala de cinema lotada, antes da estreia oficial no streaming pela Netflix no dia 7 de novembro. Uma coisa precisa ficar clara sobre este filme, assistir no cinema causa um impacto completamente diferente do que assistir em casa, neste caso pela questão da escala e escopo implementados por Del Toro. Se você tiver a oportunidade assistir no cinema, não tenha dúvidas, vá.

Pois a verdade é que Frankenstein é um projeto ambicioso, daqueles que você sente em cada frame não só a personalidade do diretor, mas a dedicação de entregar algo muito bem produzido conseguindo te fazer imergir dentro de uma atmosfera gótica que Del Toro já havia entregado antes no subestimado A Colina Escarlate (Crimson Peak, 2015) e que aqui encontra o equilíbrio perfeito entre o clássico e o moderno.
O longa é divido em três partes, sem revelar muito para não estragar a experiência, os primeiros minutos são simplesmente de tirar o fôlego e dão o tom da trama que, apesar de amenizar os elementos de terror no seu texto, consegue trazer drama, suspense e tensão de uma forma bastante eficaz, salpicado com mistério e violência quando encontramos Victor no meio do nada, resgatado por marinheiros, sendo perseguido por uma criatura até então desconhecida.
Neste contexto, Del Toro segue os moldes da narrativa clássica e não abandona de forma alguma a essência do livro de Shelley, porém o cineasta não se restringe e tem personalidade suficiente para fazer da sua versão algo único, explorando a vida do jovem cientista num estudo de personagem que mostra as influências e decisões que levaram Victor a ficar obcecado em trazer pessoas de volta a vida.
O roteiro escrito por Guillermo Del Toro explora de forma assertiva caminhos opostos da perda de humanidade do criador em contraponto com o ganho da humanidade da criatura, dividindo o filme em duas visões diferentes que se complementam e que só funcionariam se os atores estivessem à altura de tais papéis.

O ator Oscar Isaac entrega uma atuação correta, capaz de simpatizar e ao mesmo tempo nos fazer odiar com a mesma intensidade um Victor que soa brilhante, mas sucumbe à própria ambição na sua jornada de entender a anatomia humana e usar a eletricidade como fio condutor (literalmente) para realizar o seu projeto mais ambicioso até então. Isaac absorve aura de Deus em meio aos humanos e entrega uma atuação odiosa e maravilhosa na medida.
Do lado oposto, temos a maior surpresa do filme, Jacob Elordi no papel da criatura entregando um trabalho nada menos que brilhante. O ator está totalmente imerso num papel que traz mistério, dor, raiva, fúria, ternura, curiosidade e humanidade para uma criatura repudiada pelo seu criador e que na sua jornada de autodescobrimento entende o que é ser humano para o bem ou para o mal. Elordi entrega a atuação da carreira num papel que com certeza será lembrado por muito tempo.
Com estes talentos totalmente dedicados em entregarem seu melhor, Del Toro conduz sua obra com uma paixão intensa que vai desde a concepção dos ambiciosos cenários com um design de produção que dá ao filme um ar de ficção científica gótica e ao mesmo tempo de um clássico moderno anacrônico. A trilha sonora de Alexandre Desplat é assombrosa e conduz de forma harmoniosa acordes dilacerantes da jornada de Victor e sua criatura.

O longa pode até ter em alguns momentos efeitos visuais um pouco duvidosos, principalmente em cenas de ação com criaturas digitais em movimento, mas no geral não quebram tanto a imersão, afinal os efeitos práticos com um certo grau de sangue e gore, amplificado por uma maquiagem impecável são um espetáculo a parte que vai fazer o cinéfilo mais exigente aplaudir de pé tamanha riqueza de detalhes.
A fotografia de Dan Laustsen é um complemento perfeito à direção de Del Toro, com enquadramentos e frames principalmente em sequências no gelo ou no castelo de Victor que poderiam facilmente se enquadrar em pinturas pós-renascentismo do século XIX, de tão lindas que são.
A verdade é que Frankenstein acerta quando explora bem os dois lados da índole humana e cresce em ritmo e urgência quando a criatura está em cena. Claramente a narrativa se beneficia do escopo que Del Toro impõe em cada cena, mas sem se perder na sua própria ambição, aproveitando os momentos de calmaria em cenas dramáticas mais intimistas para mostrar a força do texto de Shelley e como o cineasta consegue capturar a essência da obra da escritora.

Ainda que alguns personagens como William Frankenstein (Feliz Kammerer), Henrich Lavenza (Chistoph Waltz) e a bela Elizabeth Lavenza interpretado por Mia Goth (neta da atriz brasileira Maria Gladys), careçam de um melhor desenvolvimento, servem como peças fundamentais para mostrar como Victor usa todos a sua volta, indo além da ética moral e senso de humanidade para conseguir atingir seus objetivos deixando sequelas que no final são usados de forma catárticas em momentos chaves da narrativa que provavelmente irão dar o público múltiplas reações e emoções.
Por tudo que foi falado, Frankenstein é daqueles longas imperdíveis, que apesar de possuir uma aura mainstream (popular) demais para premiações como Oscars (espere um domínio amplo nas categorias técnicas), deve sim causar um impacto por ser uma obra muito bem dirigida e executada por Guillermo Del Toro, com uma produção que se beneficia de efeitos práticos para entregar uma história que narrativamente é envolvente e que se eleva através de uma atuação em estado de graça de Jacob Elordi, mostrando uma criatura que foi criada e abusada por uma pessoa de má índole, entendeu melhor a humanidade e ainda ensinou lições de empatia e perdão em demonstrações capazes de aquecer os corações mais frios. Absolutamente cinema!
VEJA TAMBÉM
Pinóquio de Guillermo del Toro – Ainda é possível reconstruir clássicos
A Forma da Água – a fábula de Del Toro

Engenheiro Eletricista de profissão, amante de cinema e séries em tempo integral, escrevendo criticas e resenhas por gosto. Fã de Star Wars, Senhor dos Anéis, Homem Aranha, Pantera Negra e tudo que seja bom envolvendo cultura pop. As vezes positivista demais, isso pode irritar iniciantes os que não o conhecem.