Ingresso para o Paraíso – Um respiro de leveza em meio a tantos lançamentos pretensiosos

Ingresso Para o Paraíso (Ticket to Paradise, 2022) nos apresenta Georgia (Julia Roberts) e David Cotton (George Clooney), um casal divorciado e sua filha Lily (Kaitlyn Dever), uma jovem advogada recém formada que viaja para Bali com sua melhor amiga, Wren (Billie Lourd). Com a notícia de que sua filha irá se casar com Gede (Maxime Bouttier), um balinês que ela conheceu em sua viagem de formatura. Georgia e David resolvem unir forças para impedir que sua filha cometa o mesmo erro que eles e se case jovem demais. Contudo, esta jornada toma rumos inesperados, fazendo o casal questionar não só o relacionamento da filha, como também o próprio.

O longa não se preocupa em oferecer ao espectador uma narrativa complicada, na realidade Ingresso Para o Paraíso nada contra essa maré que tem ditado a maneira de produzir que, por muitas vezes, resulta em filmes poluídos com excessos de informação. Em uma clara missão de reacender a paixão do público por comédias românticas, ele nos envolve com um ar de leveza em sua trama orgânica. Seus cenários tropicais nos convidam a aproveitar a experiência de maneira descontraída enquanto, sutilmente, debate questões como maternidade/paternidade, expectativas e sonhos. O diretor Ol Parker tem como fonte de referências não apenas os seus trabalhos, em especial a sequência de Mamma Mia (Mamma Mia! Here We Go Again, 2018), como também usa de obras como O Pai da Noiva (Father of the Bride, 1991) e Casamento Grego (My Big Fat Greek Wedding, 2002) para criar uma atmosfera nostálgica e encantadora.

A fotografia é um dos pontos fortes, a explosão de cores vivas e contrastantes na ilha onde maior parte da narrativa acontece consegue captar a atenção de quem assiste, instigando a continuar a acompanhar a aventura dos personagens. Ole Bratt Birkeland assina a direção de fotografia, mas ao meu ver falhou em imprimir sua identidade, assumindo um papel muito mais de execução da visão do diretor do que de idealização. Impossível não traçar um paralelo comparativo com a fotografia de Mamma Mia: Lá Vamos Nós De Novo!.

Como foi apontado até aqui, é notável que um grande trabalho de pesquisa do gênero foi feito para chegar na fórmula presente em Ingresso para o Paraíso. Além de todos os elementos já citados há uma atenção especial em entender as problemáticas que seus clichês carregavam e, apesar de ainda pecar em fazer piadas batidas com contato com culturas que não são norte-americanas e que por pouco não caem em um lugar de xenofobia, há um cuidado em atualizar as narrativas de comédias românticas. 

Lily não é apenas uma garota boba que está largando toda sua vida por um amor. Ela é decidida e madura, e durante sua viagem se dá conta do quanto viveu dentro das expectativas dos pais. Através de falas e ações dela e de sua melhor amiga vamos compreendendo como a faculdade de direito nunca foi sua escolha e o abandono do que seria uma carreira promissora não acontece por conta de um romance. A transformação da personagem vem do amor, mas não apenas dele. Também vem um espaço de acolhimento e companheirismo. O estereótipo da mulher bem sucedida que encontra um homem que menospreza sua ambição é deixado de lado para construir um casal onde ambos se apoiam e incentivam a crescer e construir algo juntos.

O rompimento de clichês não acontece apenas no âmbito da quebra da misoginia presente no gênero, mas também busca fugir de recursos narrativos que já estão batidos ou usam estes para questionar e fazer piada deles. Georgia e David são construídos nos moldes de “enemies to lovers”, mas tomam um rumo diferente. Eles estabelecem uma conexão linda de companheirismo ao decorrer de suas jornadas e isso não acontece de uma maneira romântica. O filme até brinca com o clichê da dupla que se odeia, mas ficam juntos ao fim do filme, mas a conexão é de amizade e surge da compreensão da beleza de tudo que compartilharam em mais de 20 anos. Por baixo das provocações e farpas trocadas sempre houve muita admiração e amor, amor esse que não deixou de existir após o divorcio, apenas se transformou.

Ol Parker, responsável por Imagine Eu & Você (Imagine Me & You, 2005), O Exótico Hotel Marigold (The Best Exotic Marigold Hotel, 2011) e Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo!, assina a direção e roteiro deste filme. Julia Roberts, que protagonizou grandes clássicos da comédia romântica como Uma Linda Mulher (Pretty Woman, 1990), O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend’s Wedding, 1997), Um Lugar Chamado Nothing Hill (Notting Hill, 1999) e Noivas em Fuga (Runaway Bride, 1999), retorna ao gênero ao lado de seu amigo de longa data e colega de trabalho, George Clooney. A dupla abre o filme em uma divertida cena que conta a história do casal e desde esse primeiro contato fica clara a forte conexão de Julia e Clooney. A química entre eles é tão poderosa, orgânica e divertida que define todo o tom e ritmo do filme. 

Kaitlyn Dever, que já trabalhou com nomes como Brie Larson, Rami Malek e Ben Platt, tem a tarefa de contracenar com duas lendas do cinema enquanto desempenha o papel central da narrativa e faz um trabalho notável. A atriz dá vida a uma personagem cativante e complexa, conseguindo passar muita verdade nos momentos mais dramáticos. Maxime Bouttier, que carrega um grande currículo como protagonista em diversos romances indonésios, estreia em seu primeiro longa norte americano fazendo um trabalho apaixonante e rendendo ótimas cenas ao lado de Clooney. Infelizmente Billie Lourd foi bastante subaproveitada. Sua personagem é reduzida a um alívio cômico com poucos momentos de profundidade, especialmente ao lado de Kaitlyn, que juntas entregaram cenas divertidíssimas em Fora de Série (Booksmart, 2019) e aqui poderiam ter formado uma boa dupla dinâmica de melhores amigas. Paul, o personagem do francês Lucas Bravo é, sem dúvida, um dos pontos mais fracos do filme. Sua atuação é caricata da pior forma (e vejam bem, eu amo uma boa “caricatisse”) e o personagem é completamente dispensável para a narrativa.

Entre erros e acertos, Ingresso Para o Paraíso entrega uma experiência bastante divertida e rascunha uma fórmula a ser seguida (e aprimorada) nesta onda de renascimento das comédias românticas. Uma ótima indicação para os entusiastas do gênero, especialmente pela oportunidade de ver Julia Roberts e George Clooney nas telonas mais uma vez.


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