Infinitas vezes já se discutiu sobre a não necessidade de uma continuação para a franquia Toy Story, e não é nem algo recente. Quando anunciaram 0 quarto filme, me lembro da algazarra que foi entre os fãs, que acusavam (justamente) a Disney de tentar lucrar mais milhões ao espremer mais uma continuação para as aventuras de Woody e companhia, ainda mais quando o terceiro filme havia sido aclamado por público e crítica e tido como um encerramento perfeito para a franquia em uma trilogia. Obviamente que é muita inocência esperar que uma empresa gigantesca como a Disney priorizasse a arte e a decência ao invés dos lucros. E no fim das contas, apesar da recepção morna, Toy Story 4 (2019) até consegue contar uma história interessante e de fato mover a narrativa daqueles personagens que tanto aprendemos a amar por tantos anos, além de funcionar como um novo degrau para as novas gerações, com novos problemas e questões a serem tratadas.
Dito isto, creio que quando uma quinta sequência foi anunciada, as reclamações foram bem menos barulhentas, com exceção de um ou outro mais conservador. Minha percepção foi a de que a maioria de nós fãs se manteve relativamente mais resiliente com a notícia. Pode até ter sido uma percepção equivocada de minha parte, mas, ao menos comigo, acho que a maturidade que vem com o tempo falou mais alto do que a nostalgia.
A direção e o roteiro deste Toy Story 5 (2026) ficaram a cargo do experiente Andrew Stanton, veterano da Pixar desde Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003) e WALL-E (2008), em parceria com a novata McKenna Harris, que já havia estado na equipe de animação responsável pelos mais recentes Raya e o Último Dragão (Raya and the Last Dragon, 2021) e Luca (2021), ou seja, uma dupla que une uma longa vivência produzindo premiadas e amadas animações dos estúdios e um espírito novo que traz um ar de atualidade para a história. E acredito que essa união foi a maior responsável por nos entregar uma nova história capaz de agradar os fãs da franquia, desde os mais antigos aos mais jovens.
A história segue pouco tempo depois dos acontecimentos do quarto filme. Bonnie ainda é uma menininha que adora brincar com seus brinquedos, mas começa a sentir falta de amigos para compartilhar esses momentos de diversão, o que logo é percebido tanto por seus pais quanto por Buzz, Jessie e os outros brinquedos. Ao tentar arquitetar um encontro entre Bonnie e os gêmeos que moram na casa ao lado, Jessie descobre que praticamente todas as crianças da vizinhança têm trocado os brinquedos por aparelhos eletrônicos e jogos de videogame e computador, sendo Bonnie uma exceção entre as crianças de sua idade. Logo, o inevitável acontece e a garotinha acaba ganhando dos pais um desses aparelhos, que rapidamente encanta Bonnie e a faz esquecer de seus antigos amigos de aventuras.
Parece um caminho óbvio que Lilypad, o tablet em forma de sapinho de Bonnie, se torne a grande vilã deste novo capítulo da franquia. Mas não poderia ter sido de outra forma, vide o contexto atual e as notícias, pesquisas e previsões cada vez mais devastadoras sobre os efeitos das telas sob as gerações atuais de jovens. Assim, tendo tão inadiável assunto a tratar, o filme abraça essa obviedade e traz, sem muitos rodeios, a discussão à tona. Além da própria dependência, outras consequências nocivas, como o cyberbullying e uma involução da sociabilidade, são discutidos, bem como seus efeitos na saúde mental e no emocional das crianças. Só isso, já é o bastante como uma mostra de que, para além da história daqueles personagens em si, a continuidade da franquia tem uma razão de existir ao se atualizar em relação às gerações de quando o primeiro filme foi lançado mais de trinta anos atrás.
Mas não é por levantar questões tão sérias que Toy Story 5 abre mão da diversão. Temos novamente aqui o tom de aventura, urgência e missões a serem cumpridas que marcam todos os filmes da franquia desde o início. Desta vez temos Buzz novamente como co-protagonista, ao mesmo tempo tentando resolver o problema, encontrar coragem para se declarar a seu grande amor, e ainda disputando o papel de grande herói com Woody. O nosso cowboy também ganha destaque em sua nova fase, mais livre e rebelde após os acontecimentos do filme anterior, mas ainda disposto a passar por qualquer coisa para salvar seus velhos companheiros de quarto. Porém, uma das melhores surpresas desta sequência, talvez foi termos finalmente o papel de protagonista para uma personagem feminina que já havia ganhado o carinho dos fãs desde sua primeira aparição em Toy Story 2 (1999), a querida e intrépida Jessie.
E como cabe bem o papel de heroína para nossa vaqueira! Jessie toma como missão de vida encontrar uma amiga para Bonnie que goste de brincar à moda antiga, e acaba encontrando a criança perfeita em Blaze, que vive numa fazenda e ama cavalos, tendo uma estante cheia de brinquedos equinos em seu quarto. Com a ajuda de antigos brinquedos da garota, Amigo Rolinho (um dispositivo móvel com rodas criado para ensinar as crianças a usarem o vaso sanitário), Atlas (uma espécie de celular com GPS) e Clica (uma câmera fotográfica digital antiga), Jessie faz de tudo para promover o encontro entre as duas garotinhas, mesmo que para isso tenha que se entregar à tecnologia. E é aí que entram os três novos personagens que mencionei antes, já que são brinquedos que representam bem uma era de transição entre um passado analógico e novos recursos, como o acesso à internet, por exemplo.
Toy Story 5 acaba sendo uma bem-vinda adição à franquia, mantendo o espírito de seus predecessores e respirando ares de atualidade que se tornam cada vez mais inevitáveis. Além de colocar foco em Jessie, uma personagem que sempre mereceu atenção por seu carisma e que agora ganha um amplo background sobre suas origens. E finaliza de forma bastante coerente ao dar uma reviravolta no papel de vilã antes colocado em Lilypad, mostrando que é muito mais eficaz aprendermos a lidar da melhor forma possível com as novas tecnologias do que tentar combatê-las como o grande mal da atualidade. Se devemos concordar ou não com esta conclusão, eu não saberia dizer, mas ao menos o filme nos faz refletir e dialogar sobre ela junto às novas gerações.
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Cineasta e Historiador. Membro da ACECCINE (Associação Cearense de Críticos de Cinema). É viciado em listas, roer as unhas e em assistir mais filmes e séries do que parece ser possível. Tem mais projetos do que tem tempo para concretizá-los. Não curte filmes de dança, mas ama Dirty Dancing. Apaixonado por faroestes, filmes de gângster e distopias.