
Quando soube que Alexandre Ottoni (Jovem Nerd) e Deive Pazos (Azaghal), responsáveis e conhecidos pelo portal Jovem Nerd (site e canal do Youtube que falam sobre entretenimento no geral, incluindo cinema, séries, cultura pop e RPG) se juntaram com o diretor Ian SBF (conhecido majoritariamente por ser fundador e diretor do canal Porta dos Fundos no YouTube) para fazer um filme de terror nacional de forma independente, eu fiquei empolgada. Depois de ouvir alguns Nerdcasts RPGs (os role-playing games do Jovem Nerd) e principalmente França e o Labirinto (um audiodrama protagonizado por Selton Mello), eu tinha a certeza que eles sabiam criar histórias cativantes e bem escritas.
Com uma história que mistura Call of Cthullu, um RPG de horror mundialmente famoso inspirado nos contos de H.P. Lovecraft, e um roteiro de Ian SBF que já existia, nasceu A Própria Carne (2025), um filme ambientado durante a Guerra do Paraguai. Na trama, três desertores do conflito, encontram uma cabana onde vivem um fazendeiro e uma garota. E é basicamente isso o que eu posso te dizer sobre a história principal sem dar muitos spoilers.

Primeiro ponto que eu gostaria de abordar é que é um TERROR NACIONAL feito de forma INDEPENDENTE. Cinema de guerrilha. É sobre isso. Nada mais cinema brasileiro do que isso. E que alegria ver que o filme não só entrega tudo o que promete, como entrega isso de forma muito bonita na tela.
A fotografia primorosa de Vinicius Brum contribui para a imersão completa na história. Uma fotografia bonita de verdade (mesmo quando o que está em tela não é tão bonito assim de se ver), onde a luz é extremamente bem explorada, com uma iluminação que é bem difícil de se trabalhar, afinal a maior parte do filme se passa dentro de um galpão escuro iluminado por velas. O que seria o pesadelo de qualquer Diretor de Fotografia, Vinicius se aproveita das sombras, espaços mal iluminados e a cor amarela pra conversar com o espectador e extrair ainda mais da história e dos personagens. A cena do personagem Anselmo (George Sauma) batendo a cabeça na cabana é absurdamente linda e tecnicamente interessante, além de levemente perturbadora.
Outro ponto extremamente positivo é a Direção de Arte como um todo: cenário e figurino contribuem muito aqui, criando uma atmosfera sufocante (junto com a fotografia repleta de closes e uma trilha sonora altíssima – que vou falar em breve). Os objetos históricos REAIS (sim, tem espingardas, armas e até uma espada REAL que foi usada na época da Guerra do Paraguai), além de outros objetos, complementam um cenário já bem estabelecido e que é historicamente correto. A cereja do bolo fica por conta do departamento de maquiagem, que faz uma caracterização realista, configurando aos atores um aspecto de “sujeira” necessário e que ressalta todo o cuidado que a produção recebeu, mesmo com um orçamento limitado e sendo filmado em apenas 15 dias. Os efeitos de computação gráfica, que contaram inclusive com nomes renomados da indústria mundial, como Delcio Gomes (Vingadores, Star Wars e Wicked), Jack Malone (Homem-Formiga e a Vespa, Alice in Borderland), Eduardo Schaal (As Boas Maneiras e 3%) e Mariano Steiner (Doutor Estranho no Multiverso da Loucura), são surreais, embora a maioria seja sutil (para olhos não treinados) ao longo do filme, mas se mostra mais na literal última cena do filme. É impressionante o que os Departamentos de Arte e Efeitos Visuais atingiram juntos aqui. Impossível passar por esse tópico sem mencionar os incríveis efeitos práticos de ferimentos, feridas e cicatrizes (e olha que são MUITOS durante o filme, viu?) que a Direção de Arte/Maquiagem criou, atingindo um nível de realismo brutal. Uma combinação de técnicas práticas, computação gráfica, maquiagem e fotografia que pode embrulhar alguns estômagos por aí.

O Departamento de Som é outro ponto fortíssimo do filme. Não só por terem gravado todos os diálogos de forma tão notável no próprio set e que não foi necessário fazer overdubs, mas pelo brilhante Design de Som, que se destaca pela excelente mescla entre sons, ruídos, diálogos e trilha sonora. Apesar da Trilha Sonora Original lindíssima, repleta de violinos e instrumentos de corda, que condizem com o clima sufocante que o filme de terror psicológico precisa, ela foi excessiva em certos momentos, onde, por diversas vezes, seu uso quebra a imersão e desconcentra o espectador. A falta de silêncios em certas cenas incomoda, mas talvez essa tenha sido a intenção dos criadores. Esse pequeno detalhe em relação ao Som, entretanto, de forma alguma diminui o excelente trabalho do Departamento, sendo possivelmente uma das melhores mixagens de sons que eu já ouvi em um filme, me lembrou muito o excelente Duna (Dune, 2021), de Denis Villeneuve.
O roteiro é ótimo, especialmente para uma primeira tentativa de Jovem Nerd e Azaghal, junto com Ian SBF, criando uma história única e que fala muito sobre o Brasil. Entretanto, sinto que por conta de orçamento, o filme teve que ser cortado ou reduzido, até mesmo pela complexidade da história. O que não atrapalha, mas certamente dá um tom levemente apressado a um roteiro que pedia um pouco mais de calma e paciência. Contudo, Histórias em Quadrinhos estão sendo produzidas sobre os personagens para contar mais sobre seus respectivos passados, o que é maravilhoso, porque eu definitivamente fiquei curiosa para saber mais sobre como esses personagens chegaram ali.

O que me leva a falar sobre as atuações. E que atuações! O trio protagonista, Gabriel (Pierre Baitelli), Gustavo (Jorge Guerreiro) e Anselmo (George Sauma), carrega o peso dramático necessário que a história precisa, além de uma dinâmica maravilhosa desde o começo do filme. E cada um brilha à sua maneira: seja Pierre Baitelli e seus olhos extremamente expressivos, Jorge Guerreiro entregando diálogos com perfeição e que, mesmo em pequenas falas e atitudes, demonstra entender perfeitamente o peso de ser o único protagonista negro e ex-escravo (especialmente no monólogo do fazendeiro sobre pessoas negras em uma mesa de jantar) ou George Sauma e sua incrível habilidade de transmitir medo sem dizer uma palavra, fazendo os protagonistas serem extremamemente amáveis mesmo quando tomam atitudes duvidosas. Jade Mascarenhas interpreta “a garota”, que não tem nome mesmo, mas sua presença é sempre notada. Jade tem cenas muito difíceis, visto que a personagem tem um mistério e portanto, não exatamente demonstra tudo o que está sentindo de uma vez, ou suas intenções verdadeiras logo de cara, o que torna as cenas com Jade em tela um tanto desconfortáveis (o que é exatamente o que os criadores gostariam). Camillo Borges faz uma participação pequena, porém marcante em tela, como o ator extremamente versado que é. Porém, o destaque mesmo é de Luiz Carlos Persy. O experiente dublador, que também participou de França e o Labirinto, simplesmente rouba todas as cenas em que participa, criando o personagem “Fazendeiro” (outro que não possui nome) complexo, cheio de camadas, que tem muitos segredos, mas que também é firme e tem plena certeza do que está fazendo. Persy despejou todo seu talento na tela e conseguiu fazer um personagem memorável e aterrorizante, que causa pânico até no espectador. O ator, que possui um controle absoluto de sua voz, a utiliza de maneira sábia e interessante, fazendo com que o ambiente de uma pequena casa no meio do mato se torne um espaço menor e mais sufocante do que já é, trazendo um desconforto geral para os personagens e para a sala de cinema, um talento que poucos possuem, onde sua presença nas cenas é arrebatadora.
A Própria Carne é um filme de terror psicológico sufocante, que utiliza da potência de cada um dos membros da sua equipe para criar uma obra marcante, diferenciada, visceral e intensa. Quando chamo o filme de “terror psicológico” é só porque me salta mais aos olhos, porém a produção possui sua cota considerável de cenas violentas, sangrentas e brutais, motivo da classificação indicativa de +18 que a película recebeu. E essa brutalidade era necessária para que essa história fosse contada. O roteiro implora por essa brutalidade. E que maravilha perceber que a condução de Ian SBF na direção é a cola que o filme precisava. Unindo dois mundos que pareciam distantes, Ian conduz uma Direção suave, que concede aos atores a permissão de criarem em cena. A montagem, também feita por Ian, une todas essas ideias aparentemente soltas num excelente primeiro filme do Jovem Nerd, que eu tenho certeza que não vai parar por aqui em termos de criações cinematográficas.
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Cineasta finalmente formada, nascida e criada em São Paulo, infelizmente. Quando empregada, atua como fotógrafa. Prefere maratonar séries do que dormir, cai muito fácil em provocações, mas tem o riso frouxo e gosta de abraços.