Sem Coração – O palpitar da descoberta

No verão de 1996, Tamara (Maya de Vicq), uma adolescente de 15 anos, se vê diante de uma decisão inevitável imposta por sua família: deixar sua cidade natal para morar e estudar em Brasília. A partir dessa premissa, acompanhamos os últimos meses de convivência de um grupo de amigos prestes a perder uma de suas integrantes mais queridas. Entre anseios e euforias, testemunhamos a jornada de amadurecimento desses jovens. Nesse percurso, surge a figura da “Sem Coração” (Eduarda Samara), uma garota da mesma idade de Tamara, que desperta nela questionamentos mais profundos sobre seus desejos, vontades e inseguranças.

De forma geral, Sem Coração (2023) se apresenta como uma viagem pela memória, uma história de fim anunciado, ou melhor, uma lembrança de uma época já vivida. Desde o início, entendemos que não haverá uma reviravolta milagrosa que impeça Tamara de se despedir de tudo o que conhece e ama. Assim, ao longo da trama, ainda que haja otimismo e pureza nos personagens, paira sempre a consciência de uma realidade inevitável, que ora representa apenas o fim de uma fase da vida, ora uma ameaça maior. Por isso, mais do que a magnífica ambientação, o filme nos conquista pela delicadeza em cada aspecto visível, e audível, que podemos contemplar. Afinal, diferente de Tamara, sabemos pessoalmente que aquelas sensações que fazem o coração daqueles personagens palpitar jamais voltará a ser as mesmas depois de passada as suas adolescências.

Sem pudores ou amarras, o roteiro de Nara Normande e Tião se dedica a revelar a intimidade de cada personagem, permitindo uma entrega genuína do elenco juvenil. Estrelas como Maya de Vicq, Eduarda Samara, Alaylson Emanuel e Kaique Brito dão corpo às curiosidades, imprudências e perdas de inocência de seus papéis, transmitindo autenticidade e fortalecendo o conjunto do longa. Através da criação de personalidades singulares, rimos, vibramos e nos emocionamos com cada experiência, seja na exploração da afetividade e sexualidade, seja no enfrentamento da violência e das injustiças de uma sociedade desigual. Essa conexão imediata com os personagens, além de ser mérito da direção e atuação, nasce também do espelhamento de nossas próprias lembranças. Afinal, o que pode ser mais universal que a descoberta?

Na relação entre Tamara e a garota “Sem Coração”, o filme encontra um contraste essencial. Enquanto Tamara está cercada por amigos e familiares, vive a efervescência juvenil e encara um destino aberto a possibilidades, “Sem Coração” carrega a marca da reserva, da maturidade precoce e de um futuro mais linear, talvez até desesperançoso. Esse contraste aproxima as duas em um elo de curiosidade e fascínio, algo que só poderia existir naquele momento, antes da partida da protagonista. Impulsionadas pelo desejo de se conhecerem, o filme investe em paralelos que vão dos acontecimentos concretos ao senso de fantástico, e até espiritual,  que conecta ambas as personagens. Há algo que elas só podem descobrir compartilhando suas maiores intimidades entre si e, felizmente, estamos ali para testemunhar.

O longa-metragem escrito e dirigido pela dupla Nara Normande e Tião tem êxito em nos transportar no tempo, não só para a adolescência de Tamara como também para nossas memórias mais pessoais. Talvez, para além da intimidade posta no roteiro que foi inspirado na sua própria vida, Nara e sua dupla Tião se empenharam para tornar aquela nostalgia em um sentimento genuinamente compartilhado entre equipe, elenco e espectadores. Ao fim de tudo, me pergunto apenas se toda a magia envolvida na criação desse universo não poderia ser mais resiliente ao ser impactada pela realidade violenta e desesperançosa. Se eu pudesse reescrever minha própria história para exibí-la, certamente buscaria inspirar e confortar todos que a vissem, isso é fato.

Ao fim daquele verão, já nos sentimos tão íntimos dos personagens que sua despedida também nos fragiliza. Mesmo que não houvesse resoluções amargas, ainda assim compreenderíamos que nada poderia ser tão mágico quanto as primeiras descobertas que temos, mudamos consideravelmente em nossa fase adulta. Contudo, diante das imagens e da trilha musical que antecedem os créditos finais, escolho interpretar que não será a última vez que o coração daqueles personagens vai palpitar. Afinal, a descoberta é tão inerente à vida quanto o próprio viver.


Mauro Salu

Estudante de Cinema e Audiovisual com amor infinito em mundos fictícios e suas ramificações e na arquitetura da psiquê de personagens odiados (tipo a Abby de The Last of Us). Sonha em viver em uma realidade em que o nosso país vai investir pesado nos curtas e longas de animação para que haja uma diversidade de técnicas, gêneros e narrativas que só o Brasil é capaz de ter. Sempre disposto a falar por horas e horas sobre a qualidade duvidosa de franquias longas, desde Pânico até Raízes do Sertão.


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