
Não é segredo para ninguém que a maioria das produções da Marvel nos últimos dois anos pelo menos, tanto para o cinema, quanto para a TV, têm deixado bastante a desejar, quando muito merecendo um aceno de que talvez o estúdio esteja a ponto de retomar o gás de sua primeira década. Mas infelizmente esta retomada ainda está apenas na promessa. Ou talvez o problema esteja na expectativa de nós, fãs, que nos acostumamos com a famosa fórmula e, tal qual bebês birrentos, não aceitamos nada que fuja minimamente daquele modelo já tão conhecido e que deu tão certo durante algum tempo. Tanto que alguns dos maiores fracassos em questão de bilheteria sejam, com uma ou outra exceção, as produções que mais ousaram arriscar algo novo ou que minimamente fuja do comum, como foi o caso, em minha opinião, do injustiçado Eternos (Eternals, 2021) no cinema, ou de séries como Mulher-Hulk: Defensora de Heróis (She-Hulk: Attorney at Law, 2022) que, ao contrário de verdadeiras porcarias de qualidade lamentável, como Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania (Ant-Man and the Wasp: Quantumania, 2023) e Invasão Secreta (Secret Invasion, 2023), foram afetados por uma dificuldade conservadora em aceitar ideias fora de uma linha mais “aceitável” da Marvel. Talvez a quantidade megalomaníaca de produções durante um único ano tenha afetado a qualidade das entregas, o que parece ter sido percebido pelo estúdio que acabou desacelerando a fábrica em alguns passos atrás e focado um pouco mais nesta qualidade.
Ainda não sabemos o quanto essas últimas viradas e recepções irão repercutir nas próximas produções da Marvel, mas o fato é que eles estão desesperadamente buscando um novo norte para sua bilionária franquia. Em meio a isso tudo, eis que, sem muito barulho (literalmente tivemos pouquíssimo marketing sendo entregue), no início deste ano tivemos a estreia no Disney+ da mais nova produção seriada do universo Marvel, a minissérie de oito episódios Magnum (Wonder Man, 2026). Inspirada em um personagem pouco conhecido dos quadrinhos, a série veio de uma ideia de Destin Daniel Cretton, diretor e roteirista do excelente Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings, 2021), que juntamente com o roteirista de séries de comédia Andrew Guest, decide reinterpretar o personagem Magnum dos quadrinhos em uma trama inesperadamente criativa e profunda para o audiovisual.

Não irei me aprofundar na versão original do personagem, até porque praticamente não sei nada sobre ele, mas nesta nova versão Simon Williams (Yahya Abdul-Mateen II) é um ator iniciante na competitiva Los Angeles, onde busca realizar seu sonho tentando aos poucos se erguer em pequenos papéis. E este sonho nem passa muito por se tornar uma grande estrela hollywoodiana, digna da famosa Calçada da Fama, mas de se destacar como o talentoso artista que é, contribuindo em produções de renome e deixando sim sua marca entre os grandes nomes de sua área. Porém seu perfeccionismo acaba sendo um empecilho, já que seu objetivo de grandiosidade acaba esbarrando na lentidão de uma carreira tão complicada. Mas ao conhecer um outro ator já bem mais veterano e experiente que convenientemente o mostra uma oportunidade única, Simon se agarra àquela chance de colocar seu nome no panteão de Hollywood. Com os conselhos de seu novo amigo Trevor Slattery (Ben Kingsley), Simon irá se esforçar ao máximo para conseguir o papel no remake do antigo herói da TV Magnum (Wonder Man).
Porém, os mais atentos ao MCU irão se recordar do nome “Trevor Slattery” de outros tempos. Ele apareceu pela primeira vez no famigerado Homem de Ferro 3 (Iron Man Three, 2013) e mais recentemente foi resgatado por Daniel Cretton em Shang-Chi, onde recebeu uma repaginada enorme e ainda uma explicação lógica por trás de seu papel no filme de 2013. As consequências de ter interpretado o terrorista conhecido com Mandarim tantos anos antes ainda o perseguem, e é através disso que o caminho do ator se cruza deliberadamente com o de Simon Williams, desencadeando o fatos que veremos na série.

Magnum não é uma história de origem de um herói, sequer temos personagens heróis aparecendo na história, os eventos acontecidos nas outras produções do MCU são mencionados muito por cima ou aparecem como um plano de fundo bem distante, quase invisível. O foco aqui é principalmente a jornada pessoal e profissional de um aspirante a grande ator, só que aos poucos, enquanto vamos descobrindo mais sobre Simon, é que o foco vai se expandindo e acaba criando mais e mais camadas. Mas ainda assim, esta é provavelmente a produção da Marvel com os pés mais firmes no chão. Não traz uma história que vai causar uma grande mudança aparente naquele status quo do MCU, nem mesmo apresenta nenhum novo herói ou vilão da franquia, os objetivos de Simon são puramente pessoais e individuais, e talvez este seja o maior mérito da série.
Yahya Abdul-Mateen II brilha interpretando um homem solitário e cheio de traumas que busca seguir um sonho que remete à sua infância e à perda precoce de seu pai. Mas o grande destaque na minha opinião é do co-protagonista da série interpretado por Ben Kingsley. Seu Trevor Slattery passou de um dos meus personagens mais odiados de todo o Universo Marvel para um dos mais interessantes deste enorme arsenal. As nuances que Kingsley consegue dar a um personagem que inicialmente nada mais era do que uma piada de mal gosto em um filme de um grande herói, transformando-o em um homem misterioso e amedrontado, e a forma como parece ser caricato casa perfeitamente com sua personalidade que se mistura inevitavelmente com sua profissão de ator, muitas vezes dando um tom dramático extremamente teatral a suas falas e gestos. Tudo isso sem colocá-lo em nenhum momento como antagonista, mas como uma vítima, usado em um plano que o chantageia e o coloca em uma situação de risco. A dupla de atores demonstra uma afinidade palpável, e é divertidíssimo acompanhar os diálogos e desventuras de duas personalidades tão diferentes.

Mas ainda que traga um peso dramático nos momentos certos, Magnum tem também seu lado de comédia e nos entrega alguns dos momentos mais engraçados da Marvel na TV. Não um humor escrachado e exagerado, mas sim com raízes em situações cotidianas, como na festa de aniversário da mãe de Simon, no episódio 3, ou na perseguição para tomar posse de uma gravação indesejada no episódio 5. Mas é impossível não destacar o episódio 4, intitulado “Doorman”, onde a série faz uma pausa necessária para dar uma explicação bizarra por trás de um dos maiores medos de Simon como ator.
Magnum é a prova de que a Marvel/Disney deve de vez em quando apostar no “menos é mais” e aceitar que suas possibilidades de produções são tão vastas que é inevitável que alguns grupos de fãs se agradem mais de uma produção do que outros, se permitindo dar mais liberdade para ideias criativas e nem tão megalomaníacas de seus roteiristas e diretores. Não sei se a recepção desta minissérie irá trazer algum lucro para o gigantesco estúdio, mas é caso de se perguntar se a busca ensandecida por este lucro não acaba mais atrapalhando as possibilidades de expansão criativa deste MCU do que o contrário. Creio que já temos essa resposta há tempos.
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Cineasta e Historiador. Membro da ACECCINE (Associação Cearense de Críticos de Cinema). É viciado em listas, roer as unhas e em assistir mais filmes e séries do que parece ser possível. Tem mais projetos do que tem tempo para concretizá-los. Não curte filmes de dança, mas ama Dirty Dancing. Apaixonado por faroestes, filmes de gângster e distopias.