Apocalypto – 20 anos do quase esquecido épico pré-colonial de Mel Gibson

É difícil explicar o conflito de sensações e emoções que senti ao rever Apocalypto 20 anos depois de seu lançamento em 2006. O filme marcou minha adolescência como poucos, me impressionando ao ponto de eu revê-lo incontáveis vezes entre meus 16 e 18 anos. À época eu não tinha tanto acesso à internet como hoje, o que me deixava fora das notícias de Hollywood que cercavam seu diretor Mel Gibson e suas falas antissemitas, machistas e homofóficas. Para mim ele ainda era o astro das franquias Máquina Mortífera e Mad Max, e que havia dirigido e protagonizado o grandioso Coração Valente (Braveheart, 1995). Sua mais recente empreitada na direção havia sido o polêmico A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004), tão polêmico que mesmo sem internet eu soube, ao menos por cima, das discussões que o cercavam. Ainda assim, lembro de ter achado a visão de Gibson dos últimos dias de Cristo bastante honesta e real, ainda que não tenha chegado a me impressionar. Nunca voltei para rever o filme, quem sabe um dia o faça.

Mas com Apocalypto foi diferente. Lembro de começar a assisti-lo sem ter visto trailer ou qualquer outra divulgação (tempos mais divertidos pra se ser fã de filmes, me perdoe o tom nostálgico), e cada cena me impressionou de tal maneira que me recordo de não ter pausado uma vez sequer o DVD alugado – e quem me conhece sabe o quanto isso é raro comigo. Desde os bem humorados momentos iniciais à crescente tensão que acompanha o protagonista após sua captura e o terceiro ato com a perseguição desenfreada pela floresta, era um filme de ação como eu jamais havia visto igual e dificilmente verei novamente.

Em resumo, o filme fala sobre uma pequena comunidade nativa da América Central (provavelmente de origem Maia no século XVI) que após ser atacada por um grupo de guerreiros tem uma grande parte de seus membros assassinada e os sobreviventes levados como prisioneiros para o centro do que parece ser um poderoso, porém caótico, império. O protagonista é o filho do chefe da comunidade, Jaguar Paw ou Pata de Jaguar (Rudy Youngblood), que antes de ser levado consegue esconder sua companheiro grávida e seu filho pequeno em um buraco fundo, e agora precisa sobreviver aos captores para resgatá-los do esconderijo.

Tudo neste filme me impressionou quando o vi pela primeira vez e nas vezes seguintes ficava cada vez mais impressionado. O elenco, em sua maioria formado por atores nativos do México e de países mesoamericanos (alguns sem nenhuma experiência com atuação), a língua Yucatec (um idioma com raiz maia que ainda é falado por pequenos povoados na Península de Yucatán), a composição visual tanto dos personagens quanto da enorme cidade, suas pirâmides em constante construção e aglomerado de vendedores e cidadãos de variadas castas, a violência dos rituais e o trabalho dos escravizados ao construírem as edificações com calcário, e a adrenalina da perseguição final, com efeitos práticos que ainda hoje me parecem bem efetivos. 20 anos se passaram e ainda continuo me impressionando com tudo isso. Não há um aprofundamento muito complexo na narrativa, os personagens são arquétipos clássicos de heróis e vilões, mas há ainda um subtexto sobre a decadência daquela civilização que, mesmo que possa passar desapercebido (e provavelmente passou nas minhas primeiras visitas ao filme) demonstra um vontade de levar a obra além da simples e pura ação.

Hoje, como historiador de formação e professor de História, eu poderia me ver incomodado com os aspectos de falta de veracidade que o filme apresenta, mas não é o caso. Além de ser um defensor de que a arte não precisa ter vínculos tão firmes com a realidade, pesquisando um pouco e tendo uma experiência hoje muitíssimo maior do que há 20 anos, percebo que houve sim uma pesquisa relativamente minuciosa para a escrita do roteiro de Gibson em parceria com o iraniano Farhad Safinia (os dois se conheceram durante a pós-produção de A Paixão de Cristo). Uma das maiores fontes para o filme é o manuscrito conhecido como Popol Vuh, o mais importante registro documental escrito sobre a civilização maia, produzido por volta do século XVI, além de fontes de navegadores espanhóis que tiveram algum contato com aquele povo. O motivo do declínio da civilização maia (que era formada por inúmeros grupos tribais) ainda é uma incógnita para os pesquisadores, já que quando os invasores europeus chegaram à Península do Yucatán a mesma já estava praticamente aniquilada e dividida, e é neste ponto que a narrativa de Apocalypto transcorre.

Entretanto, hoje também é impossível desvincular a imagem de Mel Gibson do filme. O ator sempre foi figura controversa em Hollywood e suas falas preconceituosas e problemas com álcool foram os fatores que mais atrapalharam a aceitação do filme e acabou repercutindo negativamente para seu futuro quase esquecimento do público em geral. Assim, vendo o filme agora me vem à cabeça o quanto da mente deturpada de Gibson, homem estadunidense branco cristão  e abertamente reacionário,  acaba transparecendo em sua visão dos povos originários da América que tentou retratar no longa, o quanto da violência explícita e desumanidade que acompanhamos não é parte de uma perspectiva conservadora que acaba fetichizando uma cultura ancestral dos ameríndios daquela região.

A verdade é que achei ótimo que esse misto de sentimentos e reflexões tenha me pego de assalto ao ver o filme tantos anos depois. Sou da ideia de que a obra não pode ser separada de seu autor, e muito menos do contexto em que foi produzida, mas ao mesmo tempo é quase impossível se desvincular de um sentimento tão forte e presente em mim como a nostalgia. Por isso não deixo de renovar um certo apresso e admiração pelo filme, e não tenho nenhum pudor em admitir isto, mas certamente, além da euforia que senti ao assisti-lo aos 17 anos e que me recordo com saudosismo, agora sou maduro o bastante para criticá-lo como se deve.


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