Antiviral – Até onde pode ir a idolatria?

Escrito e dirigido por Brandon Cronenberg – filho do aclamado diretor David Cronenberg –, Antiviral (2012) é um longa-metragem de terror e ficção científica que, apesar de ter competido no Festival de Cannes de 2012, acabou passando despercebido por muitos fãs de cinema de horror daquele ano. O filme, que é uma parceria entre Canadá e França, dividiu opiniões do público e da crítica, mas ainda assim levou o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Estreia Canadense no Festival Internacional de Cinema de Toronto, também em 2012. 

A trama distópica de Antiviral acompanha Syd March (Caleb Landry Jones), um jovem funcionário de uma clínica que ganha dinheiro comprando vírus e outros tipos de patógenos de celebridades quando estas adoecem, e “revendendo-os”, de modo a aplicá-los em fãs desesperados para se sentirem mais próximos de seus ídolos. Syd, a fim de conseguir uma renda extra, injeta alguns desses patógenos em si e os vende no mercado clandestino da indústria da carne de celebridades, cultivadas em laboratório a partir de células de pessoas famosas para o consumo. 

Não é surpresa que a obra de Brandon Cronenberg é uma crítica à obsessão das pessoas por celebridades, de modo a deixarem de lado suas próprias vidas ou dedicá-las exclusivamente a essas pessoas famosas. A ideia de injetar, por exemplo, o mesmo vírus de herpes em si que estivera presente no organismo de uma celebridade pode parecer absurda, mas lembrar de casos como o de John Lennon ou de Christina Grimmie – ambos assassinados por fãs obcecados – leva o espectador a pensar no quão longe o que é apresentado no filme pode estar de acontecer e gera uma reflexão sobre até onde é capaz de ir por seu ídolo.

Além da crítica social, Antiviral acerta em aspectos como trilha sonora – sombria e repleta de melancolia que, por sua vez, prefere surgir apenas em momentos chave, deixando o silêncio reinar pela maior parte do tempo – e atuação – o filme conta com o protagonismo do ator Caleb Landry Jones, que interpreta um personagem misterioso e sorumbático que aos poucos vai definhando devido à uma doença viral. No entanto, o aspecto mais notório da obra é a mise-en-scène. De acordo com David Bordwell e Kristin Thompson no livro “A Arte do Cinema: Uma Introdução”, mise-en-scène é o que aparece no quadro fílmico, incluindo figurino, cenário, iluminação e comportamento dos personagens. No longa de Brandon Cronenberg, o que se destaca é o cenário e o enquadramento. 

Sobre o cenário de Antiviral, a cor predominante é o branco. As paredes são brancas, o piso é branco, os objetos de cena são brancos. É indubitável o objetivo dos realizadores com essa escolha um tanto quanto peculiar. Ora, esse é um filme que tem como um dos elementos principais as doenças infecciosas e virais, e o branco – uma cor que geralmente é associada a limpeza – acaba contrastando com esses elementos, sendo quase que impossível não relacionar a mesma lógica dos hospitais. 

Com isso, quando os personagens do filme são acometidos a alguma doença, à exemplo, o sangue – que, por Antiviral ter um “pézinho” no gore, aparece com bastante frequência –, ao surgir em cena, puxa a atenção dos espectadores para si, com um pop-up de cor macabro no meio de toda a imensidão branca que a mise-en-scène dispõe para os olhos de quem assiste à obra. O vermelho “quebra” todo o ar de limpeza e pureza dos cenários em que aparece, os quais até então se encontravam esterilizados, descontaminados. Tendo assim o sangue derramado e sujado o chão, as paredes, os travesseiros e os lençóis, tudo se torna intocável, fontes de vírus a serem evitados. 

Outro ponto interessante a se comentar sobre o cenário do filme é o minimalismo. Tudo o que está em tela tem uma função. A disposição dos objetos de cena é feita de acordo com a necessidade narrativa da trama e essa escolha possui uma função dramática. Em uma determinada cena na cozinha da casa de Syd, por exemplo, é possível ver apenas uma geladeira, um fogão e uma bancada com a pia – todos de cor branca. A vida do protagonista é monótona. Apesar de tentar fazer um dinheiro extra com a venda de patógenos para o mercado da carne de celebridades, Syd aparenta não ter qualquer tipo de ambição, ele vive para o trabalho. 

Esse minimalismo é sempre estampado nos enquadramentos. Na tela, nada do que é mostrado está sobrando. À exemplo, a cena em que Syd acorda e se vê aprisionado em um quarto para sua morte ser exibida na televisão. No cômodo, apenas o necessário: uma cama, a porta e vários pôsteres de Hannah Geist que vão do chão até o teto, cobrindo grande parte das paredes brancas – esses últimos a fim de ilustrar a razão pela qual o protagonista foi parar ali e a relevância de Hannah na vida de todos ao seu redor e de quem (no caso os fãs e admiradores) assistirá o rapaz definhar até a morte na TV. 

Antiviral, portanto, é um filme simples, sem muitas pretensões, mas extremamente autoral. É uma distopia intrigante e visual, um mergulho em um futuro supostamente absurdo que busca trazer reflexões. Propondo costurar sua trama com as escolhas bem pensadas de cenário e enquadramento, a fotografia fala por si só e diz para quê veio. Uma obra de embrulhar o estômago, porém um prato cheio para os fãs de horror que curtem filmes mais “fora da caixa” do gênero.


Dominik Angel
Escritore, estudante de Cinema e Audiovisual e co-criadore do coletivo independente Decolonial Filmes. Para o desespero da sociedade, não-binárie e, pior, terrivelmente canceriane. Apreciadore de punk rock e música eletrônica duvidosa, dedica seu tempo a tentar terminar as leituras iniciadas, assistir filmes e séries splatter, ouvir podcasts sobre crimes reais e cuidar de um papagaio possivelmente homofóbico.

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