Não Se Preocupe, Querida – Tenta satirizar a superficialidade, mas se perde no próprio vazio

O thriller Não se preocupe, Querida (Don’t Worry Darling, 2022) chega aos cinemas brasileiros em 22 de setembro de 2022, mas já tem dado o que falar. As controvérsias vão desde diversos relatos de problemas no set a atores abandonando a produção. As confusões não se restringiram aos bastidores e afetaram diretamente a qualidade do filme em si, que não tem sido bem recebido pela crítica. 

O longa se passa em uma comunidade experimental chamada Victory que emula, estética e socialmente, o modo de vida do subúrbio norte americano nos anos 50. Os homens trabalham para o secreto Projeto Vitória e as mulheres desempenham um inquietante papel de esposa submissa. Quando Alice Chambers, a protagonista interpretada por Florence Pugh, quebra as regras e vai para uma região proibida, ela encontra algo que a fará questionar toda aquela estrutura utópica e ter a própria sanidade colocada em pauta pela comunidade. 

O início do filme é bastante instigante, a atmosfera extremamente plástica e dissimulada causa angústia. Há algo errado com toda aquela plenitude, mas ainda não é possível identificar o quê. Isso instiga o público a criar uma série de possibilidades com o material oferecido. A expectativa tão bem criada no início vai se esvaindo, deixando quem está assistindo com uma história massante que gira em círculos por duas horas sem chegar a destino algum e que, ainda assim, é previsível e não surpreende em nada no amontoado de plot twists no ato final. Existem diversas obras ao longo das décadas que trabalharam essa proposta e ainda há muito material a ser explorado, mas Não Se Preocupe, Querida decidiu tomar o mesmo caminho das demais obras, criando uma colcha de retalho com Matrix (The Matrix, 1999), As Esposas de Stepford/Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives, 1975/2004) / , Suspiria: A Dança do Medo (Suspiria, 2018) e O Show de Truman: O Show da Vida (The Truman Show, 1998), mimetizando suas estéticas e narrativas, esquecendo de trabalhar sua própria mitologia e deixando de construir uma peça marcante. Olivia Wilde tenta trazer assuntos como a sociedade do espetáculo, misoginia, gaslight e relacionamentos abusivos como sátira, mas não há a pitada de seriedade necessária e por muitas vezes acaba por fortalecer essas problemáticas que buscou criticar. A falta de uma boa construção de alguns personagens essenciais, especialmente Jack e Bunny, deixam uma sensação de romanização dos absurdos retratados.

Olivia Wide, a atriz que fez sua estreia como diretora com o divertido Fora de Série (Booksmart, 2019), assina a direção e produção do longa. Sua direção deixa muito a desejar, o longa é bastante confuso, Olivia não consegue deixar claro o que queria. No roteiro temos Katie Silberman, que trabalhou anteriormente com Wilde em Booksmart com muita harmonia, e entra para reescrever o roteiro com uma premissa de muito potencial, mas que falhou em construir alguns de seus personagens principais e atingir seu potencial. John Powell, que produziu trilhas para filmes como Sr. e Sra. Smith (Mr. & Mrs. Smith, 2005) e diversas animações como Happy Feet: o Pinguim (Happy Feet, 2006), A Era do Gelo (Ice Age, 2002) e a trilogia Como Treinar Seu Dragão, se reinventa ao ingressar no suspense. A trilha de Não Se Preocupe, Querida traz um contraste entre graves e agudos, com chiados e distorções unidos em sons caóticos e inquietantes, mas seu trabalho vai por água abaixo ao ser mal utilizado em diversas cenas.  No elenco temos Florence Pugh, Harry Styles, Chris Pine, a diretora Olivia Wilde e Kiki Layne, entre outros. 

Harry encara seu primeiro protagonista no papel de Jack Chambers, esposo de Alice, papel que originalmente seria de Shia Labeouf. Sua atuação é fraca e não acompanha sua colega de tela, mas para ser justa, não havia muito o que fazer com um personagem mal escrito como Jack. Ele desempenha um papel fundamental na narrativa, mas durante quase todo o longa se mantém passivo e raso perante o que Alice está passando. Chris Pine perdeu uma grande chance com seu personagem Frank, o fundador do Projeto Victoria. Com um dos poucos personagens bem construídos em suas mãos, Paine poderia ter entregado momentos de tensão com seus diálogos densos com Alice. Jack devia ter um ar ameaçador, elegante e sedutor, mas com a apatia na atuação de Pine acabou se tornando uma reprodução fraca do marcante Jay Gatsby de O Grande Gatsby (livro adaptado ao cinema em 1949, 1974 e 2013). 

O maior triunfo do filme está no núcleo feminino do elenco, especialmente nas atuações de Florence Pugh e Gemma Chan. Pugh está esplêndida como Alice Chambers, compreendendo a personagem e entregando uma performance cheia de nuances onde o sorriso frívolo perde, gradualmente, o lugar para um ar de alerta e urgência. Alice não se sujeita às tentativas de manipulação e vai até às últimas consequências para expor a verdade. Gemma Chan tem um papel mais tácito, mas seus poucos momentos em tela são certeiros. Shelley, a esposa de Frank, ganha uma elegância e um ar de autoridade quase sobrehumana ao ser interpretada por Chan com direito a um dos poucos, senão o único, momento surpreendente da trama. 

Kiki Layne teve que saltar de paraquedas na produção que já estava bem avançada e isso ficou bastante aparente no produto final. Margaret seria interpretada por Dakota Johnson que deixou a produção por divergência de agenda e Kiki assumiu seu papel. Isso resultou em uma Layne perdida e mal direcionada que não funciona tanto como a peça que leva Alice a questionar a estrutura em que vive. Wilde seria a protagonista de sua obra, mas durante as gravações optou por trocar de personagem com Florence Pugh e encarnou a amargurada Bunny. A amiga mais próxima de Alice, que defende com unhas e dentes o sistema estabelecido em Victory e tenta manter as outras mulheres na alienação. Sua atuação é satisfatória, mas só em uma sequência no ato final, com Florence, ela consegue estabelecer a intensidade que Bunny pedia.

No fim, Não Se Preocupe, Querida tenta ser mais sério e complexo do que realmente consegue ser. Tudo soa planejado demais, como se estivesse tentando seguir uma cartilha para se estabelecer como um clássico contemporâneo do terror psicológico. Essa falta de naturalidade chega a ser incoerente para Olivia e Katie que criaram juntas um filme tão espontâneo e cômico Booksmart em 2019.


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