Transversais – Ouvir é um ato de amor

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Como professor, uma das “lições” que mais costumo reforçar aos meus alunos é sobre o ato de ouvir. Ouvir nos permite conhecer melhor, aprender novas concepções, descobrir diferentes pontos de vista, entender algo que muitas vezes achamos que não precisávamos. Ouvir é sobretudo um ato de respeito. E o documentário é uma linguagem audiovisual que nos dá a oportunidade de ouvir. Lembro da primeira vez que me deparei e me surpreendi com um filme de Eduardo Coutinho, a forma respeitosa e leve com que o cineasta lidava com seus personagens, os tratando não como uma curiosidade ou alguém de quem se precisa tirar alguma informação, mas como pessoas, e como tais, merecedoras de serem ouvidas.

Transversais (2021), documentário de Émerson Maranhão, é um filme que muito gentilmente nos dá essa oportunidade. Nele ouvimos uma parte importante da vida de cinco pessoas, contada por elas mesmas. Caio José, Mara Beatriz, Erikah Alcântara, Caio Lemos e Samila Aires. Cada uma delas com sua particularidade, sua individualidade, diferentes sonhos e vivências. Pessoas que merecem ser ouvidas, mas que, no recorte do filme, têm algo de especial em comum, o fato de serem pessoas transgêneros (e no caso de Mara, mãe de uma menina trans, a Lara), e levando-se em conta o país e a época em que vivemos, temos uma necessidade particular de ouvir principalmente essas pessoas. Não à toa Transversais foi um dos projetos vetados em 2019 pelo atual ocupante da cadeira presidencial entre vários de um programa de apoio da Ancine (Agência Nacional do Cinema) à obras com temática LGBTQIA+.

Felizmente, mas não sem muitas dificuldades, o filme chega às salas de cinema após ser exibido em importantes festivais de cinema do país, além de algumas indicações à premiações, e apesar do fungo presidencial e seus asseclas e apoiadores, contrários à todo avanço que ponha fim à qualquer tipo de preconceito neste país, teremos a oportunidade de ouvir vozes que são constantemente e violentamente silenciadas. E é com extrema delicadeza e atenção que a câmera de Émerson Maranhão observa essas pessoas. Contando sim, suas histórias de lutas, de dores, de sobrevivência, mas também histórias de vitórias, de alegrias, de reconhecimento. Afinal, além das jornadas árduas, que tradicionalmente vemos em filmes sobre minorias, e que são, claro, indispensáveis, faz-se necessário que possamos conhecer também histórias felizes, que nos dão uma esperança de que todas estas batalhas estão, mesmo que forçosamente, nos levando a algum lugar.

E é especialmente gostoso ouvir, além dos cinco protagonistas do filme, também as pessoas que os cercam. Pessoas que, seja após um longo processo, seja de forma mais natural, reconhecem que não há maior ato de amor do que acolher uma pessoa como ela é. Desta forma Transversais é mais um fundamental passo para que mais e mais pessoas possam aprender a ouvir. E ouvir histórias de vitórias, de sucessos, mostrar que é possível, que há esperança, é dar força para que continuemos, e que podemos cada vez mais ouvir relatos de vivências e não apenas de sobrevivências.


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