Vidro – Fim de uma trilogia que ninguém pediu, mas certamente um filme Shyamalan



M. Night Shyamalan é um cineasta único. Embora tenha conquistado a fama de ser o diretor e roteirista dos plot-twists, este não é o principal elemento de suas obras, e muitas das frustrações de um público que costuma o criticar pode vir justamente dessa expectativa mal colocada. Shyamalan tem uma visão singular e os projetos de sua autoria costumam refletir o modo que ele vê a realidade em que vivemos. Mesmo que envolva fantasmas, alienígenas ou pessoas com habilidades extraordinárias, tais artifícios nunca são o foco da mensagem de seus filmes. Todavia, embora tais mensagens tragam ao público possibilidades de discussões sem fim, às vezes o real significado daquilo que Shyamalan quer transmitir com seu filme fica guardado apenas na cabeça do diretor. E talvez esse seja o caso com Vidro (Glass, 2019).
Depois do sucesso absoluto de O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), Shyamalan trouxe em 2000 o seu próprio “filme de herói” com Corpo Fechado (Umbreakable), estrelando Bruce Willis e Samuel L. Jackson. Na época, filmes baseados em personagens de quadrinhos ainda não haviam se tornado a sensação do cinema, embora, curiosamente, X-Men: O Filme (X-Men) tenha estreado neste mesmo ano. O cineasta queria divulgar o filme como sendo algo tirado de uma história em quadrinho, o que foi rejeitado pela Disney, por parecer algo de nicho (irônico, não?). Corpo Fechado acabou sendo uma boa surpresa e guardado por muitos como um dos melhores filmes de heróis já feitos. Ele permaneceu único por muitos anos, citado como “um dos bons filmes de Shyamalan”, que acabou se tornando um cineasta criticado mais tarde por escolhas um tanto estranhas (embora não sei por que haveriam de criticar alguém que roteirizou “O Pequeno Stuart Little”), com filmes como Fim dos Tempos (The Happening, 2008) e aquela adaptação bizarra de “A Lenda de Aang”, O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010).

Shyamalan nunca havia feito sequências e porque deveria fazer? Mas ele, de fato, é um cineasta único. Dezesseis anos após Corpo Fechado, chegava aos cinemas Fragmentado (Split, 2016), o segundo filme depois do “retorno” do cineasta, que voltava às graças do público um ano antes com A Visita (The Visit, 2015) e trazia agora um dito thriller psicológico estrelado por James McAvoy, interpretando um homem com 23 personalidades diferentes dentro do mesmo corpo, enquanto uma nova personalidade estava próxima de surgir. Intrigante, eletrizante. Mas dessa vez o maior twist seria o de que, na verdade ,Fragmentado seria a sequência que ninguém pediu, e ninguém esperava, de Corpo Fechado. E Vidro acaba sendo o terceiro filme de uma trilogia que não deveria existir como tal.
Dezenove anos depois, Bruce Willis e Samuel L. Jackson estão de volta como David Dunn e Elijah Price, respectivamente, assim como Spencer Treat Clark volta como o filho de David, e Charlayne Woodard retorna como a mãe de Elijah. Quase duas décadas depois, os mesmos atores voltaram para seus papéis, passando esquisitamente uma sensação de que o filme é um “Boyhood” com mutantes. James McAvoy retorna como Kevin Wendell Crumb, e suas 24 personalidades, e Anya Taylor-Joy também volta a interpretar Casey Cooke, mas Vidro traz uma nova personagem, a Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), que trata pessoas que acham que fazem parte de uma história em quadrinhos. Na trama do filme, A Besta continua fazendo mais vítimas, e Dunn busca impedir que mais mortes aconteçam. Mas ambos acabam indo parar na mesma instituição que Elijah Price, o Senhor Vidro, está preso, e sua mente afiada não pode ser subestimada.

É curioso tentar entender quais expectativas rodeavam este filme. Assumidamente uma sequência e um filme de heróis e vilões de quadrinhos, Vidro deve fazer jus a Corpo Fechado? A Fragmentado? Deve fazer jus à fama de Shyamalan e ter algum plot twist inimaginável? Ou vários deles? Em 2000, filmes baseados em quadrinhos podiam ser novidade, mas agora, com Marvel e DC na balança, o que Vidro traz de diferente? Exatamente aquilo que é a real marca de Shyamalan: a discussão.

Em Corpo Fechado, David Dunn não quer acreditar que tem qualquer tipo de poder especial, porque, em filmes, uma habilidade especial, que te destaca no meio da multidão, pode ser emocionante, mas como bem aprendemos com os queridos mutantes de X-Men, o mundo não aceita o que é diferente. A própria personagem de Sarah Paulson representa essa descrença, apresentando explicações plausíveis para eventos aparentemente sobrenaturais, e oferecendo tratamento para a “crença” de que realmente existem pessoas com poderes especiais. Em Fragmentado, as personalidades de Kevin surgiram para protegê-lo do abuso de sua mãe, o sofrimento lhe fez alguém especial, e a mensagem que o Senhor Vidro reforça em seu filme é justamente essa.

No entanto, Vidro acaba se tornando vítima de uma falta de personalidade, ou melhor, da falta de clareza sobre o que o filme é, em sua essência. Tecnicamente, tudo está lá, com o jogo de cores entre os personagens principais, o toque Shyamalan, além da própria marca dos filmes de heróis, com suas histórias de origens, sidekicks e vilões. Mas, ao atingir seu ápice, o filme se torna bastante confuso sobre a mensagem que passa, e embora tenha certeza que tudo está perfeitamente claro na mente do cineasta, o público pode, não apenas sofrer com suas próprias expectativas – algo que se tornou inevitável ao ver um filme de Shyamalan -, mas também com uma certa pretensão de um filme que é a conclusão de uma trilogia que na realidade não deveria existir.
Corpo Fechado funciona muito bem com os opostos David Dunn e Elijah Price, e Fragmentado pode até ser visto como o filme do Kevin, se a aparição de Bruce Willis for considerada apenas como um cameo para os fãs. Vidro acaba sendo uma sequência de personagens que não deviam se encontrar, e que por serem tão importantes em seus próprios mundos, acabam minando os dos outros. A produção é um filme Shyamalan, mas infelizmente cairá no lado ruim do cineasta, que sofrerá com todo tipo de comentário de que “ele não é mais o mesmo”. Mas isso é um engano, ele nunca mudou. Ele é único, para bem ou para o mal.