Doctor Who: 11ª Temporada – Resistência e representatividade

Nas trinta e sete temporadas de Doctor Who lançadas durante os últimos cinquenta e cinco anos, fomos apresentados a inúmeros lugares e personagens que nos deliciaram, causaram raiva (Daleks, who?) e nos levaram a aventuras que jamais sonharíamos. Sem contar o personagem principal que todos nós amamos. Doctor? Não, tô falando da Tardis haha. A nova temporada além de episódios maravilhosos como estamos acostumados a assistir, veio cheia de representatividade, de mensagens de empoderamento e de que a luta por mais dura que seja, sempre vale à pena se o que nos motiva for nossa liberdade e nosso direito de sermos iguais.
Doctor Who é uma série bastante antiga, mas sempre se mostrou à frente do seu tempo. Sendo assim, nada mais natural que a série continuar evoluindo. Toda vez que há regeneração, os espectadores passam pelo período de adaptação, já que o novo Doctor tem, não somente o físico, mas toda uma personalidade diferente do anterior. Na nova temporada fomos apresentados ao 13° doctor e ela é uma MULHER.
Na era de empoderamento feminino que estamos vivendo, esse é um fato muito importante, trazendo a representatividade que as mulheres, fãs da série, precisavam. O doctor é conhecido por ser o mais inteligente, o mais esperto, aquele que sempre resolve todos os problemas. Por que não uma mulher representar esse papel?
A série também acertou na escolha da atriz e na forma como a apresentaram. O deslumbre e as questões sobre se acostumar com o novo corpo e a confusão sobre sua nova personalidade era esperado, assim como em todas as reencarnações, sendo também bastante útil para que os novos espectadores se identificassem com a personagem. A personagem é bem resolvida, tem um espírito jovem e construiu sua própria chave sônica (mulher é um negócio muito foda mesmo). Apesar de termos visto muito do 10°, 11° e 12° logo após a regeneração, Jodie Whittaker entregou uma ótima doutora. Acho que podemos esperar uma grande evolução da personagem nas próximas temporadas.
Nessa nova temporada temos não um, nem dois, mas TRÊS companions (o 1° e 5 ° Doctors na série clássica também tiveram três). São eles Graham (Bradley Walsh), Yasmin (Mandip Gill) e Ryan (Tosin Cole). Parece muita gente para acompanhar nossa “Time Lady” na Tardis, mas como sabemos, ela é maior por dentro. Os três são carismáticos e possuem personalidades distintas, mas além disso, o ponto mais importante neles é novamente a representatividade. Temos um idoso, uma paquistanesa e um negro.
Quando Peter Capaldi foi escalado para viver o 12° Doctor houve muita polêmica, pois alguns diziam que ele era muito velho para o papel. Porém, Capaldi entregou um Doctor memorável que os fãs não irão esquecer. Graham também é velho, e no início, por também ser companion do “time Tardis”, pode ter causado algum estranhamento para alguns, mas a cada episódio, ele mostrou que a idade é apenas um número. Seu personagem é forte, empático, corajoso e engraçado. Graham é um personagem que prova que pessoas idosas também são capazes de ter uma vida amorosa, de se aventurarem e de viverem novas experiências. A idade não os limita, o preconceito sim.
Yasmin, ou Yaz, é uma jovem inteligente e sagaz que trabalha como policial. Nada de muito incomum não fosse o fato de Yaz ser muçulmana com ascendência paquistanesa. Sabemos o estigma que pessoas muçulmanas carregam pelo simples fato de serem muçulmanas e, assim, serem associadas ao terrorismo. O destaque aqui é não somente terem colocado alguém muçulmano nos personagens principais, mas também terem dado a esse personagem uma profissão ligada à segurança da população.
Ryan é um jovem negro que mora com a avó. Ele tem dispraxia, um transtorno motor desenvolvido durante a infância que faz com que ele tenha problemas de equilíbrio e na coordenação motora. Logo no primeiro episódio vemos como a dispraxia prejudica a vida de Ryan, mas também vemos sua força de vontade em ser mais forte que sua dificuldade. Ter um personagem com um problema de saúde, que muitas vezes o impede de desenvolver suas atividades normalmente, se aventurando com o grupo de igual pra igual, prova para quem também tem limitações, que tudo é possível.
Ryan, como dito anteriormente, é negro e sabemos que até hoje os negros sofrem com todo tipo de preconceito. No episódio “Rosa” (S11E03), Ryan percebe mais profundamente as questões envolvendo a cor de sua pele. O personagem conhecia a história contada no episódio pois aprendeu na escola, mas ele pôde vivenciar todo o preconceito que existia naquela época com a população negra. O que ficou claro é que a diferença de antes para hoje, é que agora a tolerância com o preconceito vem diminuindo e existem leis que protegem as vítimas. Já tivemos o Mickey, a Martha e o Bill como campanions e os três também eram negros, mas ter um companion negro hoje, faz toda diferença na luta pela igualdade.
O episódio “Rosa”, mencionado acima, traz a temática da segregação racial nos Estados Unidos e nos mostra como Rosa Parks (Vinette Robinson), uma costureira negra norte-americana, se tornou o símbolo do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Como a história nos conta, no estado do Alabama, em meados dos anos 40-50, o transporte público era legalmente segregado e, caso houvesse uma pessoa branca de pé, os negros eram obrigados por lei a ceder seus lugares. Em 1° de dezembro de 1955, Rosa se recusou a ceder o seu lugar para uma pessoa branca, sendo então, presa. A prisão de Rosa deveria ter “servido de exemplo” para toda a população negra, mas em vez disso, deu força para que eles lutassem por seus direitos de igualdade.
Nesse episódio um alienígena tenta impedir que Rosa pegue o ônibus e assim, a segregação racial continue. Esse personagem representa todas as pessoas que apoiam a segregação não só dos negros, mas de todas as minorias. O episódio trata da luta contra o racismo que se estende até hoje, mas também toca em assuntos como xenofobia, já que Yaz, apesar de ser paquistanesa, é chamada de latina muitas vezes e juntamente com Ryan, é impedida de comer em restaurantes e de se hospedar em um hotel. Já no caso da doutora e de Graham, fica claro a questão do chamado privilégio branco, já que os dois podem andar livremente pela cidade e nada é negado a eles.
A gestão atual que comanda os Estados Unidos tem o mesmo pensamento das leis de décadas atrás, demonstrando a superioridade masculina e branca frente às minorias. No Brasil também vivemos um tempo caótico em que estão querendo calar nossas vozes e implementar a violência. “Rosa” consegue ao mesmo tempo nos deixar com um nó na garganta, também consegue nos dar esperança e força para seguir lutando. Um episódio singelo, mas muito forte e marcante, que reforça toda a nossa luta pelo empoderamento feminino e pelas causas LGBTQ+, a igualdade racial e de gênero, a luta pela liberdade de sermos quem somos.
O ato de rebeldia de Rosa Parks no episódio é embalado pela música Rise Up de Andra Day, e como diz a letra “all we need is hope, and for that we have each other. We will rise” (Tudo o que precisamos é esperança e para isso temos uns aos outros. Nós iremos nos levantar.). Essa é a mensagem principal, unidos somos resistência e ninguém será capaz de nos calar.

—-

Wladya Vasconcelos
Formada em jornalismo; gosta de filmes, música e livros, mas ama mesmo é comer, embora odeie bife de fígado. Escuta “Do I Wanna Know?” todo dia e não entende quem não gosta dessa banda maravilhosa. Não demonstra muito afeto de forma física, prefere provar seu amor cozinhando pros amigos. Esposa do Alexander Skarsgard embora ele mantenha em segredo.