Brasil 70: A Saga do Tri – “A desesperança é um sentimento reacionário, então acreditem””

Apesar de crescer e viver, como quase todo brasileiro, cercado pela temática futebolística por todos os lados, nunca fui um grande entusiasta do esporte. Tenho minhas torcidas pelo Vasco e pelo Palmeiras, a quem devo a meu pai e avô, ambos fanáticos, e recentemente criei uma enorme simpatia pelo Fortaleza (é o Laion, não tem jeito), valorizando um time local; já tive até mesmo meus momentos jogando Winning Eleven no Playstation, muito mais pela diversão com os amigos do que qualquer outras coisa (jogava de Chelsea). Mas de quatro em quatro ano é sempre a mesma coisa, um espírito encarna em mim reunindo todo o fervor  de um país que respira futebol, e passo a acompanhar religiosamente as partidas, marcar tabelas, gritar a cada chute a gol e, claro, algo comum nos últimos anos, reclamar, reclamar muito! Claro que houveram algumas exceções, como em 2022, quando o contexto político me deixou amargo o bastante pra acabar não me importando com o evento – e acabou que aquele realmente não foi um ano bom pra nós no futebol, ainda que na política tenhamos derrotado uma batalha ferrenha contra o fascismo. Mas felizmente estou de volta com meu espírito de Canarinho Pistola, e talvez mais do que jamais estive antes, o que me levou a buscar conteúdos que aquecessem meu coração de torcedor. E tive a felicidade de encontrar a minissérie Brasil 70: A Saga do Tri (2026), produzida pela Netflix e criada por Naná Xavier e Rafael Dornellas.

O tricampeonato mundial brasileiro no México em 1970 sempre teve algo de místico para mim, tanto pela situação política do país à época, no auge da Ditadura Civil-Militar, em seu momento de maior repressão e violência, os chamados “Anos de Chumbo”, quanto pelo fato de aquela seleção ser considerada ainda hoje por muitos como a mais lendária que já tivemos, uma equipe em que praticamente cada jogador carregava o peso de ser um dos maiores craques da época em sua posição. Mas isso era tudo que eu sabia sobre aquela campeonato, o que me garantiu querer ainda mais assistir à minissérie.

O primeiro episódio já apresenta o clima de tensão que afligia os jogadores assim como todos os torcedores brasileiros, com foco em Pelé (Lucas Agrícola), que havia se contundido no campeonato de 1962 e não pôde participar efetivamente da conquista do bicampeonato, e que em 1966 na Inglaterra não conseguiu levar a seleção nem mesmo para a segunda fase da Copa (primeira e única vez que não passamos da fase de grupos). Mas Pelé ainda era o Rei do Futebol, e mesmo já não sendo aquele jovem de 17 anos que trouxe a taça para o Brasil pela primeira vez em 58, era o nome de maior destaque para o elenco que se formava para jogar no México, um peso que ia além dos campos e refletia também na política nacional. E este ponto foi o que mais me prendeu desde o episódio piloto: a série demonstrou que não passaria panos quentes no contexto político no Brasil, pelo contrário, mostraria como seria impossível contar a história dessa saga sem passar pelo que estava acontecendo no país naquele período.

E eis que somos apresentados ao personagem mais interessante dessa história, o jornalista-esportivo João Saldanha, interpretado magistralmente por Rodrigo Santoro. Saldanha, abertamente comunista num país que perseguia violentamente qualquer adepto desta ideologia, por um golpe do destino foi o escolhido para escalar e comandar a seleção daquele ano, o que aceitou como uma missão absoluta, e se dispôs a garantir que traria alegria ao povo brasileiro em meio a tanto sofrimento. Porém, João jamais deixa suas convicções de lado e sempre foi conhecido por não ter papas na língua (seu apelido era João Sem Medo), e logo na escalação já encontra empecilhos à sua liberdade de comando, sofrendo pressão do poderoso João Havelange (Nelson Baskeville), então presidente da CBD (orgão que antecedeu a atual CBF) e até mesmo do presidente ditador à época, general Médici.

Após eliminatórias complicadas, mas que trouxeram uma esperança para o torcedor brasileiro, o atrito de Saldanha com os mandachuva do futebol brasileiro acabou por tirá-lo do comando da seleção pouco antes do início da Copa, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo (Bruno Mazzeo), companheiro de seleção de Pelé nas copas de 58 e 62, com experiência treinando alguns dos principais times cariocas do Brasil. Zagallo carregaria o peso de substituir um técnico que já havia ganhado a confiança e a simpatia de boa parte do time durante as eliminatórias e que saiu por questões externas, e ainda teria a missão de reunificar a equipe após a crise gerada pela saída de Saldanha e nos tensos primeiros jogos no México. Felizmente, mesmo com sua demissão, João Saldanha permanece como personagem fundamental desta saga e vai à copa como comentarista nas narrações do lendário Eusébio Teixeira (Marcelo Adnet, uma excelente surpresa).

Neste intermeio somos apresentados a Rosa (Lara Tremouroux) e Léo (Felipe Frazão), um casal que vende seu Fusca e reúne todas as suas economias para se aventurar indo ao México assistir e torcer pela seleção brasileira. O casal trás momentos engraçadíssimos e estão ali para representar a fundamental figura do torcedor, criando também uma rápida identificação com o expectador. E claro, quem está assistindo a minissérie vai ter uma experiência como nunca antes se teve em produções sobre futebol, pois o capricho técnico nas sequências dos jogos em si estão nada menos que impressionantes. A direção abusa de ângulos impossíveis e jogadas de câmera que nos coloca praticamente dentro de campo com os jogadores, em planos de tirar o fôlego mesmo de quem não está acostumado a acompanhar futebol.

O roteiro consegue criar várias subtramas, envolvendo alguns dos principais nomes do elenco como o goleiro Félix (Hugo Haddad) e seu dilema familiar e pessoal, a família de Pelé, a firmeza de um jovem Tostão (Ravel Andrade), e o momento de superação de todos ao enfrentar o Uruguai, despertando o fantasma do Maracanazzo em 1950, mas que culmina com uma virada histórica da seleção brasileira com lances inesquecíveis de Pelé, Rivellino (Daniel Blanco), Clodoaldo (Lucas Corleone) e Jairzinho (Gui Ferraz). O elenco inteiro se destaca mesmo com tantos personagens, e momentos como os da concentração antes dos jogos ou de lazer no hotel, assim como no ônibus que levava a equipe aos estádios em que jogariam, sempre são ótimos respiros para as tensões das disputas em campo.

Brasil 70: A Saga do Tri acaba sendo um prato cheio para se animar e despertar o espírito de torcedor durante a Copa e de quebra ainda traz um subtexto histórico interessantíssimo, demonstrando como futebol tem uma relação direta com a política, ainda mais num país como o Brasil. É uma minissérie que deve tirar suspiros tanto de quem ama, quanto quem não liga muito pra futebol, seja entre as novas gerações, quanto dos que acompanharam na época o drama daquele tricampeonato.


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