
Quando a Globo anunciou a produção da novelinha com cara de minissérie Guerreiros do Sol (2025), a expectativa era bastante alta pela ambição da produção, o elenco envolvido e os produtores por trás do projeto, liderado por Rogério Gomes. Representar o cangaço sem cair no estereotipo regional parecia uma tarefa complicada, até a produção estrear no ano passado no Globoplay.
Parte 1 – Amor, sangue e luta de irmãos por justiça em meio ao coronelismo
A trama de Guerreiros do Sol é sobre luta por uma vida melhor e sobre sobrevivência em um sertão que se passa entre as décadas de 1920 e 1930, livremente inspirada nas histórias de Lampião e Maria Bonita, dentre outras famosas histórias do cangaço. A narrativa é focada no romance entre a sonhadora Rosa (Isabela Cruz) e o destemido Josué (Thomás Aquino), porém numa época dominada pelo coronelismo e casamentos arranjados, a humilde moça é forçada a se casar com o poderoso coronel Elói (José de Abreu), viúvo rico da cidade de Santa Cruz.

Tendo como base este triângulo amoroso que a narrativa criada por George Moura e Sergio Goldenberg toma fôlego para mostrar a vida dura no sertão nordestino e a luta de classes travada pelos sertanejos numa terra árida onde a miséria atinge os mais humildes e o poder fica concentrado na mão daqueles que tem dinheiro e influência política.
Além do romance de Rosa e Josué, a trama também gira em torno da rivalidade entre a família de Josué com seus pais e seus quatro irmãos, Arduíno (Irandhir Santos), Milagre (Ítalo Martins), Sabiá (Vitor Sampaio), e o seminarista Bida (Rodrigo Lelis), contra o fazendeiro Elói e seu ganancioso filho Idálio (Daniel Oliveira) acompanhado de sua esposa Jânia (Alinne Moraes).
A minissérie (ou novela, você decide), começa num ritmo bastante interessante, principalmente porque em termos de produção tudo chama atenção. Da fotografia com aspecto bastante apurado privilegiando as belas paisagens áridas do sertão com uma vasta gama de cores, passando pelas ótimas atuações, ambientação impecável e chegando na ótima trilha sonora.
A história estabelece também a disputa pela hegemonia entre polícia local e cangaço, com o bando liderado pelo temido Miguel Ignácio (Alexandre Nero). A verdade é que Guerreiros do Sol é um produto que empolga bastante no início e consegue deixar o telespectador bastante envolvido a até a primeira reviravolta da trama.

Parte 2 – Ascenção do Rei do Cangaço e o surgimento de um assassino sanguinário
A segunda metade da história, que se passa entre os capítulos 13 e 34, mostra a narrativa que ainda tem o romance de Rosa e Josué como palco, mas eleva a trama com surgimento de uma rivalidade dos irmãos Josué e Arduíno, mostrando a trajetória em que vão seguindo caminhos diferentes antes de se tornarem duas forças oposta, que acentua as disputas entre polícia e cangaço numa linha que não pontua heróis e vilões, mas também um lado mais cinza, onde todos são capazes de violência extrema para exercer suas vontades.
A série não economiza na violência gráfica e não poupa o expectador do choque narrativo de mostrar o quanto o período foi sangrento, com decapitações, esquartejamentos a rodo de uma forma bastante crível e que mostrava que na disputa por poder sangue inocente sempre era derramado no meio do caminho.
A ascensão de Josué como rei do cangaço deixa a trama mais dinâmica e interessante, principalmente por conta de Arduíno seguir o caminho antagônico para parar o irmão. Enquanto Josué lutava para dar mais dignidade ao povo do sertão, Arduino justificativa os ataques do cangaço para ganhar mais poder político e militar e deixar um rastro de violência por onde passava para pegar o irmão.
Esteja preparado, existem sequências que chegam a embrulhar o estômago, principalmente por enfatizar que em meio a toda esta “escrotidão”, fica claro que a violência misógina é a pior delas, com mulheres sendo mutiladas e mortas, as vezes por pura carnificina e as vezes por simplesmente existirem.
Em Guerreiros do Sol, várias temáticas tomam forma, por isso a narrativa é tão rica em fazer o expectador se indignar, mas também refletir. A trama política toma conta da segunda metade, desacelera a história, mas destaca bons personagens como Jânia e Valiana (Nathalia Dill), que aqui têm mais destaque, mostrando um ponto forte da série na forma como valoriza seu núcleo feminino. Outros destaques aqui vão para a importância do voto, direitos das mulheres, luta de classe, pobreza no sertão, dentre outros temas relevantes.

Parte 3 – A força das mulheres do sertão no despertar de um futuro melhor
Se a segunda metade da série é uma disputa de gato e rato de pura testosterona, a reta final, que se passa entre os capítulos 35 e 45, traz os ventos da mudança após um gancho que fez da minissérie uma das mais empolgante da atualidade, afinal ninguém estava a salvo.
É nesta pegada que Guerreiros do Sol acaba diminuindo seu ritmo, que por diversas vezes não tem pressa de contar uma boa história, com diálogos ricos e cenas que aproveitam o melhor do seu elenco cheio de estrelas que acabam por se destacar no decorrer de toda a série.
A atuação de Isabela Cruz no papel de Rosa é estupenda, como uma força da natureza, a atriz segura bem como protagonista, sotaque na medida e uma química excelente com Thomas Aquino, que é outro grande destaque no papel de Josué, numa atuação que mistura fúria e honra na busca por justiça.
Outro destaque vai para excelente Alice Carvalho no papel de irmã de Rosa, Otília, que vive um romance com Jânia em outra atuação impecável de Alinne Moraes, que se torna a força política de Santa Cruz na reta final da trama. Outros destaques vão para Marcélia Cartaxo, Dani Barros (grata surpresa), Nathalia Dill, José de Abreu, Daniel de Oliveira, Alexandre Nero, Theresa Fonseca, Larissa Goes, Pedro Wagner, Vitor Sampaio e Ítalo Martins.

Porém, de todos citados, Irhandir Santos no papel do temível Arduíno é o grande destaque e um dos grandes vilões que já surgiram na teledramaturgia brasileira, o ator simplesmente desaparece na pele de um personagem cruel, frio e extremamente perigoso que vira uma sarna para Josué e seu bando, trazendo várias baixas durante as viradas de capítulos fazendo o expectador morrer de ódio por um vilão implacável que não dá trégua.
O grande trunfo de Guerreiros de Sol é saber conduzir essa narrativa e mostrar que o futuro do cangaço está nas mãos das mulheres e no senso de mudança da sociedade. Ao mesmo tempo que o roteiro mostra que o conservadorismo e a ignorância geram guerra, caos e violência sem fim, o liberalismo cercado pela diversidade de gênero é a solução para um futuro mais justo e com mais paz.
É simplesmente incrível como o foco nas personagens femininas traz um frescor para uma produção que fecha de forma redondinha com um final magnífico e a certeza de ser não só a melhor produção nacional de 2025, mas também a de ter se tornado uma das produções mais comentadas quando de sua estreia na TV aberta no último dia 22/04 com capítulos reduzidos, num total de 41, ao invés dos 45 originais exibidos no Globoplay, o que deixou a história mais enxuta, mas não mesmo empolgante, pois vale cada segundo.
VEJA TAMBÉM
DNA do Crime: 1° Temporada – Um thriller de ação nacional cheio de adrenalina e clichês
Entre Irmãs – A tentativa de um épico nordestino

Engenheiro Eletricista de profissão, amante de cinema e séries em tempo integral, escrevendo criticas e resenhas por gosto. Fã de Star Wars, Senhor dos Anéis, Homem Aranha, Pantera Negra e tudo que seja bom envolvendo cultura pop. As vezes positivista demais, isso pode irritar iniciantes os que não o conhecem.