A Vizinha Perfeita – A podridão de uma sociedade decadente

O documentário é uma das linguagens do cinema que mais me fascina. Isso porque, na maioria das produções do tipo, ao utilizar imagens que capturam uma dita realidade, muitas vezes o resultado que encontramos na tela ao assisti-las, editadas, montadas e com uma trilha de fundo, nos transportam não para um cotidiano que estamos acostumados, ou com algo que vemos com nossos próprios olhos, mas sim para uma espécie de realismo fantástico, que nos surpreende e nos emociona de várias maneiras. Mas mesmo com tudo isso, enquanto lidamos com todos esses sentimentos, é inevitável que reflitamos sobre o grau de realidade do que estamos vendo.

Ao assistir A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor, 2025), eu tive muita, mas muita dificuldade mesmo, em lidar com esses sentimentos, e mais ainda, em aceitar minha própria consciência daquela realidade. O filme, dirigido por Geeta Gandbhir e lançado pela Netflix, utiliza em sua maioria câmeras corporais de policiais e de segurança para nos contar sobre uma vizinhança na Flórida, EUA, onde várias famílias moram em casas alugadas e, consequentemente, onde muitas crianças brincam na rua. Em uma dessas casas vive a solitária Susan Lorincz, uma senhora branca de idade relativamente avançada, que se incomoda a todo instante com o movimento das crianças na rua e em volta de sua casa. Susan liga corriqueiramente para a polícia local e, sempre que os policiais chegam, a senhora “denuncia” tudo o que está acontecendo: crianças gritado, correndo, jogando futebol, andando de bicicleta… crianças sendo crianças. Óbvio que o tom das acusações é sempre muito exagerado e dramático, com Susan alegando que se sente ameaçada ou que as crianças tem algum tipo de marcação com ela.

O fato é que, mesmo com os policiais tentando fazer minimamente sua parte, tentando apaziguar os ânimos de ambas as partes, e até pedindo para os pais das crianças evitarem que ela brinquem próximo à casa da vizinha incomodada, o que por si já é bastante absurdo, a situação vai se tornando cada vez mais tensa e insustentável. Susan chega a trocar ameaças com as crianças e até a filmá-las brincando na rua, e enquanto acompanhamos sabemos quase que exatamente qual será o desfecho da tragédia anunciada. E essa expectativa, praticamente uma certeza, é uma das coisas que mais assusta no filme. Pois parece óbvio que uma senhora estadunidense branca e conservadora implicando com crianças e famílias majoritariamente negras iria acabar em desastre, como se este tipo de fato já tivesse sido naturalizado pela sociedade, como se aceitássemos que é assim mesmo que as coisas são, pois sabemos que este tipo de situação já aconteceu e ainda irá acontecer várias e várias vezes, especialmente naquele país.

Óbvio que a violência, o preconceito, o racismo, não são peculiaridades exclusivas dos Estados unidos da América, mas é um fato consumado que a sociedade estadunidense tem cultivado estes problemas como nenhuma outra no mundo, de uma forma bastante particular, especialmente quando falamos da autointitulada maior democracia do mundo (assim como maior economia e maior força militar, sobre essas duas não há dúvida). Percebemos o quanto o país está apodrecido ao ouvirmos as notícias quase diárias sobre atentados em escolas e universidades, ou sobre episódios de práticas neonazistas que remetem à antigas e ainda muito vivas seitas de supremacistas brancos espalhados pelo país. E nem vou aqui começar a falar sobre a violência de Estado perpetrada pelo atual líder autoritário de ultra direita do país, Donald Trump, aos imigrantes, pessoas de ascendência não branca, membros da comunidade LGBTQIA+, entre outras minorias, tanto fisicamente, quanto institucionalmente.

O caso de Susan Lorincz e dos vários crimes que ela comete nos parecer algo corriqueiro é sintomático de toda uma construção cultural baseada em uma suposta liberdade que o capitalismo liberal estadunidense prega desde praticamente sua independência. Uma “liberdade” que, ao ser apropriada e distorcida por pessoas já privilegiadas desta sociedade (especialmente brancos, cristãos, de classe alta e homens, mas nem sempre) por todos esses anos, torna possível a narrativa de que cada indivíduo deve cuidar do que é seu independente do que for. E quando alguma minoria, associada ao “outro”, ao “alienígena”, ao “diferente” tem a audácia de tentar chegar ao mesmo patamar de liberdade e privilégio é como se esta suposta liberdade estivesse ameaçada. E é inacreditável como a própria lei, amparada na arcaica Constituição daquele país, dá inúmeros suportes para que esta narrativa seja respaldada.

Mesmo com a eventual prisão de Susan ao fim do documentário não há uma gota sequer de sentimento de justiça em nossos corações, já que a condenação daquela mulher não vai mudar aparentemente em nada a decadência daquela sociedade, basta lembrar o curta-documentário que também foi indicado ao Oscar ano passado Incident (2023), que usa das mesmas fontes de imagens (câmeras policiais e de segurança) para nos contar sobre um acontecimento similar ao que acompanhamos aqui e que também me pareceu algo horrivelmente tão comum. E como já mencionei antes, este não é um problema exclusivo dos estadunidenses, já que aqui mesmo no Brasil temos nossas próprias versões de Susans, de neonazis, de supremacistas e até de Trumps, com suas devidas peculiaridades brasileiras, basta abrir o jornal de hoje que iremos nos assustar com algum caso. E se não nos assustarmos, se não tivermos ódio e uma tristeza profunda, aí é que a humanidade está perdida mesmo.


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