Toda Luz Que Não Podemos Ver – Conhecimento é a luz em meio às trevas da ignorância

O poder do conhecimento é algo inabalável, é a luz que ilumina o cérebro humano quando o primitivismo teima em sobrepor o progresso do mundo em se tornar um lugar melhor. A literatura é uma das portas que tornam o conhecimento algo fascinante e que nos estimula a conhecer mais do que nos é ensinado atingindo um grau universal que nos permite enxergar além da nossa sociedade.

Digo tudo isso, porque toda essa divagação é parte do que faz esta superprodução da Netflix, Toda Luz Que Não Podemos Ver (All The Light We Cannot See, 2023) algo tão interessante de assistir. Baseado no best seller de mesmo nome escrito por Anthony Doerr em 2014, conta a história de dois jovens, uma garota cega que vive escondida numa cidade francesa ocupada por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e um garoto alemão que está a serviço do exército que ocupa a mesma cidade.

A minissérie foi criada por Steven Knight, de Peaky Blinders: Sangue, Apostas e Navalhas (Peaky Blinders, 2013 – 2022), e todos episódios foram dirigidos por Shawn Levy, de Free Guy: Assumindo o Controle (Free Guy, 2021). Ambos também produzem esta narrativa que primariamente encanta pelo visual, o que talvez seja o grande chamativo deste épico de guerra salpicado de muito drama. Para quem leu o livro a expectativa provavelmente estava alta, mas para pessoas como eu que não leram e não tinha nenhuma referência sobre a história, o mistério pairava sobre a qualidade da minissérie.

Primeiramente devo dizer que a sensação de assistir a narrativa é de estranheza, muito por conta da decisão criativa de colocar todos os atores da produção falando inglês. Veja bem, não existe exatamente um problema, mas com certeza causa incomodo ver personagens franceses e alemães falando em inglês, desta forma perde-se aqui um pouco de profundidade, bem como a sensação de que realmente estamos acompanhando algo mais universal. Um mundo globalizado como o nosso de fácil acesso as pessoas fazem com que esta decisão não se justifique e diminua o impacto da obra.

Ainda assim, mesmo com esta conveniência da língua, a trama em si é bem desenvolvida, principalmente nos dois primeiros episódios onde conhecemos a história de Marie-Laure (Aria Mia Loberti), que desde pequena é criada pelo pai Daniel LeBlanc (Mark Ruffalo), que lhe guiou e ensinou a conhecer o mundo através do tato e dos ouvidos devido sua deficiência visual. Vemos aqui uma garota curiosa, inteligente e cheia de vida que encontra no rádio e na voz misteriosa de um professor a paixão pela literatura.

Por outro lado, temos Werner (Louis Hofmann), um garoto inteligente que junto com a irmã Jutta (Luna Wedler) viviam em um orfanato no interior da Alemanha. Ao descobrir a paixão pelo rádio e decifrar frequências para ouvir outras estações, acaba sendo recrutado pelo exército alemão para decifrar códigos durante a guerra. O roteiro aqui é bastante simples e acredito que isto é até proposital, como a história desenvolve esses dois personagens de lugares diferentes que potencialmente tem o destino ligado.

A forma como a trama é contada é bastante envolvente e estimula nossa curiosidade à medida que vamos conhecendo o passado e presente de Marie e Werner, a narrativa é intercalada entre flashbacks e o presente aumentando a tensão e o perigo à medida que vamos progredindo na história. 

Talvez o que mais encante em Toda Luz Que Não Podemos Ver é a forma como tudo soa poético em meio a dor e desespero da guerra. Tecnicamente somos agraciados com uma das mais belas fotografias do ano, com tomadas  lindas da cidade no interior da França e que mistura as paisagens magnificas internas e externas, mesmo com os horrores de uma guerra que não esconde suas atrocidades embaixo do tapete.

Tudo aqui funciona a contento, talvez falte sim um pouco de complexidade e profundidade em alguns personagens, mas os diálogos, as vezes expositivos demais, funcionam quando precisam transmitir algum tipo de emoção. O ritmo é bom e o elenco é bastante sólido, a começar pelas novatas Nell Sutton e Aria Mia Loberti, que fazem Marie respectivamente nas versões criança e adulta, ambas pessoas com deficiência visual e que aqui atuam de forma bastante contida, mas competente.

O ator Louis Hofmann conhecido pela série sensação Dark (2017 – 2020), entrega uma boa atuação no papel de Werner, com destaque para a cena de treinamento na academia militar nazista, simplesmente apavorante em muitos aspectos. O elenco coadjuvante tem como principal destaque Mark Ruffalo no papel de Daniel LeBlanc e Hugh Laurie no papel de Etienne LeBlanc, ambos têm boa atuação dando um suporte aos jovens protagonistas.  

Apesar do elenco segurar bem, a série ainda encontra problemas principalmente nos dois últimos episódios, onde a narrativa precisa se fechar e acaba acelerando muito tramas que precisavam de um tempo a mais para que o espectador sentisse o impacto de certas reviravoltas, principalmente quando as tropas estadunidenses invadem a cidade francesa numa ofensiva contra os alemães, o que nos faz pensar que o livro provavelmente deve ser mais detalhista nestes aspectos. 

No entanto, a maior qualidade de Toda Luz Que Não Podemos Ver é a forma como carrega uma mensagem forte em todo seu cerne, que inclusive cria dois paralelos em relação ao título, onde o conhecimento é a principal força motriz que move a história e cria possibilidade ao invés de limitação. Enquanto por um lado a jornada de Marie é pautada pela personagem que cresce em meio as diversidades e se torna peça chave para vitória dos aliados no cerco à cidade, por outro lado temos a luz do conhecimento sendo a fonte de inspiração para um garoto que não é absorvido pela doutrina nazista numa Alemanha totalmente alienada a um seguimento violento e sem escrúpulos.

É através desses pormenores que a minissérie se torna algo que vale a pena investir, se você for pelo apuro visual e pelo potencial drama, pode ser recompensado por uma narrativa que é bem contada, mas se quer algo mais complexo e melhor desenvolvido, a trama fica devendo por ter apenas quatro episódios (talvez seis seriam o ideal). No entanto, a mensagem e os personagens são tão interessantes, que é impossível não ficar curioso para saber o que acontece a seguir. Talvez este não seja o melhor trabalho de Shawn Levy na direção, mas em termos de ação, drama e adrenalina, a minissérie consegue oferecer um entretenimento honesto à sua audiência e de quebra entrega uma bela história de dois jovens que são unidos pelo conhecimento de uma forma inesperada que mudam o rumo de suas vidas para sempre.


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