Tudo o que Respira – Somos todos uma comunidade de ar

Salik Rehman, Mohammad Saud e Nadeem Shehzad dedicam toda a sua via a uma única missão: salvar pássaros. Especialmente milhafres – uma ave de rapina que lembra um pouco o nosso conhecido carcará -, que vivem em áreas urbanas e se agrupam em enormes bandos, se alimentando do lixo das cidades e de pequenos roedores. Os irmãos vivem em Nova Dehli, na Índia, uma das cidades mais poluídas do mundo, onde é necessário medir o nível de toxicidade do ar para saber se é saudável sair ou não. Uma cidade onde, por incrível que parece, sendo uma das mais demograficamente densas do mundo, ainda abriga várias espécies de animais de todos os tipos, desde insetos, ratos, sapos, cães e gatos, animais urbanos, mas também caprinos, suínos e bovinos e, claro, aves. Muitas delas, sobrevoando e se adaptando para sobreviverem ao ambiente que nós seres humanos modificamos com a desculpa de “bem-estar”, mas que só agrega mais capital a quem já o tem o bastante.

A cidade é uma boa representação destas selvas de concreto que a humanidade vem construindo por toda sua história e que crescem desenfreadamente, um retrato claro de uma desigualdade social, mas também de uma outra desigualdade: a ambiental. O documentário de Shaunak Sen acompanha estes três homens, observando-os realizar sua missão, resgatando e cuidando destas aves em uma espécie de clínica veterinária improvisada em um porão apertado e com pouquíssimos recursos para fazê-lo. Sem narração ou entrevistas, apenas os diálogos entre si e inserções de falas dos próprios, como um comentário sobre o que fazem e onde vivem. Entrecortados por imagens calmas e delicadas da “natureza” local, vamos aos poucos compreendendo a força deste filme.

Nos perguntamos, porque essas pessoas, que tinham um futuro como fisiculturistas pela frente, decidem largar tudo por uma missão que parece ao mesmo tempo tão banal e complexa, quanto trabalhosa? E em meio a questões pessoais, como o desejo de viajar para estudar um tempo fora ou angariar fundos para construir uma nova clínica, percebemos também que até mesmo os sonhos mais distantes dos três estão relacionados a esta missão que, eles sabem e nós também, não tem data para se concluir.

Porém, mais do que qualquer questão íntima, Tudo o que Respira (All That Breathes, 2022) nos faz refletir sobre como o individualismo e o egocentrismo humano afeta não só a nossa própria espécie, mas também todas as outras com quem compartilhamos o planeta. Parece uma constatação óbvia, mas muitas vezes esquecemos que não somos os donos da Terra, e mesmo em um momento em que nossas ações já estão nos mostrando consequências catastróficas no clima e no ar que respiramos, é em nós mesmos que pensamos quanto tentamos encontrar um maneira de contornar estes problemas, o que acarreta em “soluções” que só devem nos levar a adiar o fim. É comum ouvirmos que em caso de extinção humana o planeta continuará vivo e em alguns milhares de anos se recuperará do estrago. Mas a troco de quanto sofrimento? Quanto os nossos companheiros de outras espécies vão precisar se adaptar para que ocupemos mais e mais espaços e ainda mais, destruindo-os como se não houvesse amanhã? A questão é que haverá amanhã. Se não pra nós, ao menos pra eles.

Tudo o que Respira está disponível na HBO Max.


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