Crítica | The Last of Us – 1×02: Infected

Depois de uma estreia que literalmente parou a internet, The Last of Us (2023 -) retorna em seu segundo episódio com uma difícil missão: manter o nível de qualidade que foi apresentado no piloto e continuar alimentando as expectativas de um público cada vez mais sedento com o que pode vir por aí. Aqui, Craig Mazin e Neil Druckmann (que também é criador e diretor do jogo homônimo) entregam sutileza, emoção e sequências de muito suspense, capazes de fazer o espectador prender a respiração e ficar totalmente alerta no sofá de casa.

Este texto contém spoilers. Continue lendo por sua conta em risco.

Durante seu corrido café-da-manhã do episódio anterior, a família Miller comenta despreocupadamente uma notícia transmitida via rádio a respeito de um tumulto contínuo em Jakarta (Indonésia), alheios de que aquele acontecimento era muito mais alarmante do que aparentava.

No prólogo que abre este episódio, temos a oportunidade de acompanhar o que de fato aconteceu em Jakarta do ponto de vista de uma especialista em fungos, a micologista Dra. Ibu Ratna (Christine Hakim), que é surpreendida por militares e levada para avaliar uma situação inesperada. Descobrimos junto com ela em uma sequência sufocante que a contaminação começou numa fábrica de farinha e grãos – o substrato perfeito, de acordo com a doutora – e que no momento em que os militares procuraram por sua ajuda o número de pessoas infectadas já estava fora do controle. A única solução viável encontrada por ela para tentar parar a contaminação foi o extermínio do maior número de pessoas possíveis daquela área, bombardear a cidade. Logo em seguida, ela se volta para o que mais importa no pouco tempo que lhe resta, estar com a sua família.

Essa sequência se conecta de maneira sutil com o episódio anterior quando paramos para notar que Joel (Pedro Pascal), Sarah (Nico Parker) e Tommy (Gabriel Luna) não consomem nenhum alimento composto por trigo naquele dia, Sarah não consegue fazer as panquecas que queria para o aniversário de Joel porque ele não havia comprado a farinha, eles negam os biscoitos que os vizinhos oferecem, que inclusive é usado para alimentar a senhorinha com demência que ataca Sarah mais tarde, Joel não leva o bolo de aniversário que havia prometido. Enfim, o diabo está nos detalhes.

De todo modo, após este prólogo reencontramos Joel, Tess (Anna Torv) e Ellie (Bella Ramsey) na manhã do dia seguinte depois que o trio escapou da zona de quarentena de Boston e seguiu caminho para o ponto de encontro dos Vagalumes. Ellie acorda sob a mira de Joel e Tess, sendo colocada contra a parede por eles para explicar porque ela parece ser tão importante, afinal de contas. Ellie é imune e poderá ajudar na procura por uma cura ou uma vacina para a infecção. Aqui, as dinâmicas ficam muito claras, enquanto Ellie come seu sanduíche e Joel e Tess, carne seca, Tess tem esperança de que isso possa, de fato, mudar toda aquela situação. Joel já ouviu essa promessa algumas vezes e acredita que o melhor a se fazer é voltar para a zona de quarentena e encontrar outra maneira de conseguir a bateria que precisam.

Tess convence Joel a continuar a missão, amenizando um pouco, mas não o suficiente a meu ver, do que foi feito no episódio anterior, quando o protagonismo que a personagem de Tess tem no jogo durante toda a transação com Robert e os Vagalumes foi realocado na série para as mãos de Joel. Então eles seguem viagem por entre uma cidade destruída. A direção deste episódio é de Neil Druckmann e alguns enquadramentos seguiram a lógica do episódio anterior, enquadrando Ellie, a esperança, a solução para aquela realidade caótica, em fachos de luz e Joel, um homem em pedaços, sendo enquadrado entre os prédios em ruínas. É bonita, mas a câmera que acompanha o rosto desses personagens e que às vezes está por cima de seus ombros, exatamente como é o ponto de vista dos jogos, não deixa de ser também muito angustiante. O que se consolida um pouco mais a frente.

Antes, aprendemos a principal diferença entre os infectados do jogo e os da série, além é claro da ausência dos esporos, os zumbis na série de The Last of Us compartilham uma espécie de consciência. O trio avista um verdadeiro amontoado de infectados, todos juntos reagindo à luz do sol, alguns estão deitados da mesma forma que Ellie estava no começo da sequência, em posição fetal. Inclusive, a abertura, que anteriormente tinha me soado pouco criativa, agora parece mais conectada – sem trocadilhos – ao tema central da trama. Não que não fizesse todo o sentido antes, só ressoa melhor agora que sabemos que os infectados da série funcionam quase que como uma comunidade. Ou talvez eu tenha só me acostumado com a abertura mesmo. Acontece.

Durante a brilhante sequência do museu, um momento em que a direção e a fotografia usam e abusam da baixa luminosidade do ambiente e de efeitos desfocados da câmera, aliados à maquiagem de efeitos especiais impecável de Barrie Gower adaptam perfeitamente a sensação aterrorizante de enfrentar a ameaça dos estaladores no jogo, Ellie e Joel cooperam pela primeira vez, sem poder trocar nenhuma palavra e enquanto se esgueiram pelos móveis dos recintos. Não por acaso, temos o primeiro diálogo positivo entre eles logo após essa sequência, e Joel olha de relance para seu relógio quebrado mais uma vez, parece ser o início de uma mudança na dinâmica que estava estabelecida entre eles até aquele momento.

Até que eles chegam ao ponto de encontro, e os vagalumes não estão lá. De repente, Tess parece muito mais desesperada do que antes e o motivo é exposto, ela foi mordida no museu. E, apesar desses momentos finais serem ligeiramente diferentes de como acontecem no jogo, o essencial ainda está ali, Tess vai ficar para trás para ganhar tempo para Joel e Ellie, porque para ela sua história acaba ali e o que mais importa agora é manter Ellie viva e se agarrar à esperança de que ela pode ser sim a resposta que os Vagalumes procuram, a salvação para tudo aquilo. E ela diz para um atordoado Joel uma frase que com certeza vai ecoar muito nos próximos episódios, “salve o que puder salvar”.

E o beijo? Confesso que, de primeira, o momento em que o infectado beija Tess não me agradou muito. Mas, depois de rever o episódio e ver e ouvir várias opiniões a respeito, concluo que com certeza foi uma maneira muito mais inovadora e interessante do que simplesmente acabar com uma tomada cheia de terror e violência, sem deixar, contudo, de ser uma cena que nos desconcerta e nos angustia. É com toda certeza uma despedida agridoce e abrupta para uma personagem que tinha muito potencial, exatamente como tinha que ser, porque traduz perfeitamente a sensação de perdê-la no jogo também, e, no fim das contas, não é exatamente isso que uma boa adaptação precisa fazer? Enfim, terminamos este episódio assim como sua última tomada, meio perdidos, cheios de adrenalina e precisando urgentemente, continuar.

E domingo que vem, tem mais. Ainda bem!


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