The Last of Us – E o sentimento que ele nos causa

 

Em junho de 2013, eu tive a oportunidade de jogar The Last of Us (2013). Eu já era um grande fã da Naughty Dog e sempre achei os jogos da produtora de altíssima qualidade. À época, eu havia terminado recentemente Uncharted 2: Among Thieves (2009), até então um dos melhores jogos que eu havia jogado na vida. Acompanhar a chegada de The Last of Us foi um prazer imenso, pois não sabíamos o que esperar. Todos os trailers e materiais de divulgação pareciam muito promissores. O fato é que, para mim, não importava muito, pois tratava-se de um jogo de uma das empresas que melhor faz jogos no mundo do entretenimento. Ao abrir o jogo pela primeira vez e desbravar todo aquele mundo novo fui tomado por um sentimento quase indescritível e é sobre ele que tentarei falar um pouco nesse texto.

Não me entendam mal, reviews e críticas sobre The Last of Us são facilmente encontradas na internet. Esse texto será um relato pessoal, sobre a experiência de ter jogado essa história e acompanhado esses personagens. Não sou fã de spoilers, tentarei ao máximo evitá-los, mas eventualmente algum poderá sair, então venha comigo, mas esteja avisado. Os primeiros 20 minutos de The Last of Us são um marco, não só na indústria dos jogos, mas no entretenimento e no mundo das artes no geral. Esse curto espaço de tempo é onde o jogo lhe fisga. É impossível não querer saber o que aconteceu com aqueles personagens e se solidarizar com a dor de Joel (protagonista do jogo) ao perder a filha diante de seus olhos, esse sentimento é potencializado quando o jogo corta e, do nada, salta 20 anos no futuro em um mundo que está completamente corrompido em uma espécie de talião, no qual apenas os mais fortes (seja fisicamente ou psicologicamente) sobrevivem. Apesar dos 20 anos a frente, o mundo ainda não conseguiu lidar com as cicatrizes deixadas pelo parasita oriundo de um fungo, no qual as pessoas perdem o controle de seus corpos e atacam as outras violentamente. Essa “doença” altamente contagiosa destruiu toda a estrutura social e política que conhecemos e transformou o mundo em uma arena. 

Sentimentos como gentileza e bondade não existem mais, as pessoas são obrigadas a trair e matar para sobreviver. Nesse ambiente hostil, a narrativa continua e somos apresentados a Ellie, a segunda protagonista do jogo, uma criança quase adolescente que por algum motivo é imune e pode ser a chave para encontrar a cura para essa doença. A partir daí, o jogo se transforma em uma aventura pessoal dos dois protagonistas. Eles viajam por esses ambientes hostis no qual precisam enfrentar inúmeras adversidades como os próprios infectados, caçadores, ou até mesmo o exército. É justamente a partir desse segmento que o jogo cresce ainda mais, pois os momentos de Joel e Ellie são de um primor narrativo pouco visto até então. Vejam bem, antes de The Last of Us existia sim jogos com parceiros mirins e que ajudavam na mecânica de jogabilidade e auxiliavam em combate, contudo o maior legado do jogo de 2013 da Naughty Dog foi fazer com que o jogador se aproximasse dos protagonistas. Criou-se várias linhas de diálogos entre eles em que eles discutem coisas do mundo real, ao mesmo tempo, que é perceptível a afeição entre ambos crescendo durante a narrativa, mesmo que a princípio Ellie seja uma projeção da filha morta de Joel. Essa fórmula de desenvolvimento de personagens foi usada em jogos futuros, God of War (2018) e Death Stranding (2019) são exemplos disso.

The Last of Us, contudo, não é apenas sobre isso. O maior elemento narrativo da história é o amor. Se vocês pararem para pensar, o jogo trata de uma grande história de amor. Um amor paternal que sobrevive 20 anos. Quando Joel se permite criar afeição por Ellie, ensiná-la a atirar, assobiar ou até mesmo coletar os gibis, vemos que mesmo diante das maiores adversidades o amor prevalece. O mesmo vale para Ellie que vê em Joel uma proteção e um carinho maior que das outras pessoas que ela teve contato e que só a via como mercadoria ou ferramenta. As relações interpessoais são bem estabelecidas e desenvolvidas, você quer a cada momento que os dois se deem bem, que eles escapem, que possam se firmar e viver suas vidas e mesmo quando o jogo avança e nós jogadores percebemos que não é assim e que não dá para ser minimamente feliz nesse mundo criado pelo jogo, nós torcemos para que tudo dê certo e que os dois fiquem bem. Para mim, como jogador, a experiência do jogo foi uma das mais marcantes da minha vida, costumo dizer que The Last of Us é o jogo da minha vida (ao lado de The Legend of Zelda: Ocarina of Time) por tudo que ele representa para mim. Após terminá-lo queria consumir novamente e apreciar essa obra de arte feita pela Naughty Dog. Tudo funciona muito bem e tem um efeito em mim que não sou capaz de explicar, apenas que me emociona e prova que mesmo nos dias de hoje ainda somos capazes de nos emocionar. 

The Last of Us é um jogo sobre perseverança no amor, mesmo que o mundo esteja tomado pela cólera das pessoas. Ao apostar em um bom desenvolvimento de personagem e em um refinamento na jogabilidade de seus jogos anteriores, a Naughty Dog entrega uma experiência completa e emocionante com várias cenas marcantes e com personagens eternizados no imaginário popular. Além do jogo principal, sua expansão “Left Behind” aposta também no desenvolvimento de Ellie, sua protagonista, além de tirar dúvidas sobre alguns acontecimentos na vida da personagem. Tudo isso regado a ótimas atuações do casting e a trilha sonora magnífica de Gustavo Santaolalla. Trata-se da obra-prima da Naughty Dog e de um dos jogos mais importantes de todos os tempos.

 

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Sobre o autor

Thiago Henrique Sena
Atual Vice-presidente da Aceccine. Bacharel em Cinema, formado em Letras e graduando de Ciências Sociais. Apaixonado por literatura, poesia, pintura, animes e mangás. Ama os filmes do Bruce Lee, do Martin Scorsese e do Sergio Leone e gosta de cinema latino-americano e asiático. Escreve sobre jogos, cinema, quadrinhos e animes. Considera The Last of Us e Ocarina of Time os melhores jogos já feitos e acredita que a vida seria muito melhor ao som de uma trilha sonora de Ennio Morricone ou de Nobuo Uematsu.