Os Fabelmans – A arte de fazer sonhar

Eu lembro do momento exato em que me apaixonei pelo cinema. Meu pai estava me ensinando como usar uma fita VHS virgem para gravar um filme que passaria na TV utilizando nosso videocassete. Ele fazia isso com tanta frequência que tinha um armário inteiro cheio de fitas gravadas com uns três filmes em média e ainda sobrava espaço pra um ou outro Globo Repórter sobre natureza que ele adorava. O filme que íamos gravar era Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993), e o máximo de informações que eu tinha sobre ele à época era que tinha dinossauros na história. Meu pai me explicou como tapa o buraquinho da fita com um adesivo (pesquisem jovens) e como apertar os dois botões de REC ao mesmo tempo pra gravar, lembrando sempre de ficar atento para apertar STOP nos intervalos comerciais e depois voltar a gravar quando o filme voltasse. Todo esse processo já me deixava animadíssimo, mas o que realmente me fascinou foram os tais dinossauros. Naquele tempo era praticamente o máximo do filme que eu conseguia aproveitar, já que não devia ter mais de 10 anos. Só que aquela fita iria me acompanhar por toda minha infância e pude ver e rever várias e várias vezes aquela obra. Aproveitar cada segundo, cada música tocada, cada expressão dos atores, cada diálogo, cada rugido de tiranossauro rex. Jurassic Park provavelmente é o filme que mais vezes assisti em toda minha vida e nunca cansei de revisitá-lo. Foi com ele que aprendi que tudo aquilo que estava vendo e ouvindo foi resultado de um esforço de várias pessoas para me contar a história mais maravilhosa já contada, capaz de inundar minha mente e minhas memórias para sempre. Foi com ele que descobri que o cinema era a arte de realizar sonhos.

Não à toa Spielberg acabou sendo meu grande ídolo da adolescência. Antes de descobrir outros cinemas, outras formas de contar histórias e sonhos, foi ele quem me fez viver as mais variadas emoções e visitar inúmeras possibilidades de percebê-las. O diretor me mostrou que a forma como se conta uma história através do audiovisual tem um poder imenso nas mentes e corações dos espectadores.

E foi por tudo isso que Os Fabelmans (The Fabelmans, 2022) foi tão especial pra mim. Pensado propositalmente como uma autobiografia um pouco fantasiosa do cineasta, o filme é claramente uma carta de amor à arte, mas também um retrato da gênese de tudo que o cinema de Spielberg representa. Sammy Fabelman é um jovem que cresce em uma típica família do Arizona pós Segunda Guerra Mundial. Típica apenas na superfície, já que os Fabelmans tinham suas peculiaridades, especialmente o pai, Burt (Paul Dano), um engenheiro de computadores em uma época que isso era quase ficção científica, e a mãe, Mitzi (Michelle Williams) uma excêntrica pianista amadora que precisou desistir da carreira para se dedicar à família. O diretor enfatiza bem desde o início que o filme seria sobre a relação entre esses três, mesmo que tivéssemos ainda a presença de três irmãs, duas avós e um amigo do pai que era considerado um tio. Spielberg se detêm nas experiências que fizeram Sam se apaixonar gradativamente pelo cinema, principalmente por produzi-lo, algo incentivado pelo pai como um hobby “científico” e pela mãe como o despertar do lado artístico do filho.

E fora isso, os conflitos familiares, os descobrimentos da adolescência, o filme não apela pra nada muito grandioso. O que me fez em certo momento me perguntar se caso não fosse autobiográfico de um dos diretores mais famosos de Hollywood o filme funcionaria. Minha opinião é de que sim, ainda assim seria um belo filme, sensível na medida, sem cair em muitos clichês e quando cai é de forma inteligente, e principalmente, muito bem feito em todos os sentidos. Acho que o filme nunca se propôs a ser a obra prima do diretor e diferente de algumas outras cine-autobiografias, não se torna pedante ou autocentrada demais, trazendo até mesmo uma certa modéstia ao tratar de seu “talento”.

Além das questões técnicas impecáveis já esperadas seria impossível o filme funcionar sem a competência do trio principal de atores. Paul Dano e Michelle Williams foram escolhas incrivelmente acertadas para representar um casal que, mesmo com todas as suas divergências e choques, nutrem entre si e os filhos um expressivo afeto. Burt com suas teimosias e rigidez, mas nunca deixando de ser amoroso e dedicado, e Mitzi com seu temperamento afável e explosões de insensatez, mas sempre leve e sonhadora. Mas é preciso notar o destaque do jovem Gabriel LaBelle como Sammy Fabelman, que carrega bem a responsabilidade do protagonismo.

Os Fabelmans pode não ser “a” obra prima de Steven Spielberg, e acho que nunca se pretendeu a ser, mas certamente é um filme que o diretor precisava fazer a essa altura de sua longeva carreira. Talvez não tenha o impacto que teve para mim em quem não tenha uma relação pessoal tão forte com o cinema do diretor, e até mesmo no meu caso não chegou nem perto de destronar Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988), mas tem seu simbolismo marcado como carta de amor de Spielberg, não só para o cinema, mas para todos que de um jeito ou de outro amam essa arte dos sonhos.


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