Voo 168: A Tragédia da Aratanha – Memórias e perdas

Fortaleza, 08 de Junho de 1982.

02h52min

  • Você consegue ver que tem uns morrotes aí na frente?
  • Quê? Tem o quê?
  • Uns morrotes.

02h53min

[BUZINA DE ALERTA DE ALTITUDE]

[SOM DE IMPACTO]

[GRITO]

[FIM DO ÁUDIO]

São com os últimos áudios do Boeing 727-200A PP-SRK de propriedade da empresa VASP que se inicia o documentário Voo 168: Tragédia da Aratanha (2022), que aborda o maior acidente aéreo cearense e um dos quatro mais trágicos na história da aviação brasileira.

O voo vinha do Aeroporto de Congonhas/SP, com escala no Rio de Janeiro, contendo 137 pessoas, sendo 128 passageiros e 9 tripulantes. Já boa parte dos passageiros eram promissores nomes do comércio e indústria cearense que retornavam da 27a Feira Internacional da Indústria Têxtil, em SP.

Assinam a direção do primeiro longa do O Povo, Arthur Gadelha, Cinthia Medeiros e Demitri Túlio, que iniciam a visão do documentário através da ótica jornalística da casa. Jornalistas e profissionais da imprensa que foram encarregados na época de cobrir a árdua matéria são desafiados através de seus relatos a relembrarem os horrores da chegada na Serra de Pacatuba até o final da operação. A apuração do fato se mistura com a emoção devastadora a cada fala diante da tela. Com sutileza é feita a transição para as demais visões: a iniciativa do Corpo de Bombeiros num cenário sem nenhum sobrevivente, os moradores e o voluntariado para recolher os restos mortais para serem levados de helicóptero. E por fim o testemunho dos familiares e amigos sobre a perda dos vitimados.

Neste último, é difícil desvincular o acidente sem abordar nomes como o diretor de teatro Bezerra Mattos (este que rende o momento mais poético e epitáfico do documentário), o empresário Luiz Luciano Acioly e o icônico Edson Queiroz, dono do gigantesco grupo empresarial que leva seu nome.

O filme trata as camadas do acidente com muito respeito, escolhendo as imagens do acervo histórico-jornalístico sem nenhum sensacionalismo. Entre as fuselagens e árvores arrancadas o único sangue que encontramos é através das palavras de recordações que tentam alçar um voo que derrapa no trajeto melancólico. Entre corpos desfigurados, talvez a memória seja o mais doloroso a ser identificado.

Ao adentrar no final, pode-se indagar pela falta de uma informação mais técnica a respeito das causas do acidente, como abordagem de profissionais da torre de controle ou peritos, como os que assinam o relatório final da Cenipa pelo Serviço de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos emitido pelo Ministério da Aeronáutica após dois meses de apuração. Mas a intenção do documentário não é decolar sobre as causas dos que se foram, mas pousar sobre as consequências da catástrofe através dos que ficaram.

Após quarenta anos, as consequências são lembranças como uma turbina, onde musgos e ferrugens disputam espaço. E em cada poltrona antes ali, espaços até hoje jamais preenchidos.

[O documentário encontra-se disponível na plataforma do O Povo +]


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