6 filmes de terror que a crítica odiou, mas o público não

Ano após ano, é de praxe listarmos o que consumimos como melhor e pior no cinema. Para um gênero repleto de subcategorias, o terror detém várias propostas a explorar, se aliando com um ou outro gênero – como o terror psicológico, que une horror e drama para tratar de forma desconfortável fragilidades, traumas, medo, doenças, parâmetros sociais, etc.

Com isso, há inúmeros nichos que foram concebidos até esgotar a criatividade, tornando assim, o prazer de assistir um apreciar amargo. No meio disso, crítica e público ora concordam, ora não, afinal, a arte é subjetiva, ou seja, não existe um fato que defina absolutamente a obra – mesmo que haja pontos aos quais os dois lados concordem. Pensando nessa discordância, separei seis filmes em que os especialistas distribuíram desgosto ao terrorzinho, enquanto, nós amantes do jumpscare, só rendemos a amor e elogios. Agarra no seu clichê e vamos lá.


A Casa de Cera

(House of Wax, 2005)

Na onda de refilmagens dos clássicos do cineasta William Castle – o nome do homem até rima -, ninguém imaginava que a produtora Dark Castle (antes afiliada a Warner Bros., sendo agora parceira da Universal), criada exatamente com o intuito de reimaginar a filmografia de Castle, iria sair da margem de aceitação “do médio ao horrível”, para algo digno de cult graças a A Casa de Cera (House of Wax, 2005).

Uns apontam como remake, outros não, mas a questão é  que o longa de 2005 continha poucos detalhes que o ligava às produções de 1933, Os Crimes do Museu (Mystery of the Wax Museum), e a então refilmagem Museu de Cera (House of Wax, 1953), por conta do enredo que se afastava de ambos.

Dirigido pelo estreante espanhol Jaume collet-Serra, A Casa de Cera se apoiou nos clichês maçantes da década ao colocar jovens adultos como alvos de um assassino misterioso, porém, o filme conseguiu convencer com seus méritos – como o curioso trabalho na maquiagem. São inúmeras sequências que marcaram o longa pelo tom perturbador, apavorante e sanguinolento – e até fez Paris Hilton de coadjuvante genérica e sem graça, mas memorável pela cena exagerada e tensa da sua Paige sendo morta.

Com pasta de amendoim e cera, House of Wax estabelecia seu universo peculiar slasher, ao ganhar pontos pela criatividade e profundidade aterradora que nos deu, além do ritmo lento e trivialidades do meio teen horror. Ser indicado ao Framboesa de Ouro como pior remake ou sequência, só refletiu a péssima recepção da crítica, pois, não nada abalou o impacto de positividade gerado – se Pânico 4 (Scream 4, 2011) referenciou ao debute de Jaume, a crítica tem que tirar o chapéu mesmo.

A trama que trazia um grupo de amigos em busca do fim de semana banhado a curtição e um jogo de futebol, mas foram surpreendidos por cair numa cidade fantasma marcada pela história de um assassino, segue sendo querida pelos fãs, e para quem não se cansa, como eu, de relembrar o cenário caprichado da direção de arte, a atração se encontra na Netflix. Caçar, matar e exibir. Que slogan…


Garota Infernal

(Jennifer’s Body, 2009)

Stop there and let me correct it, i want to live a life from a new perspective… Hannah Montana (quem viu sabe!), Megan Fox, Panic at the Disco e possessão num mesmo filme, o que poderia dar errado? No segundo lugar dessa lista, Garota Infernal (Jennifer’s Body, 2009) é outro injustiçado que a crítica não soube reconhecer, mas não tem problema, adoramos essa parceria da Fox com Amanda Seyfried sobre amizade tóxica – e mais um pouco.

Experiente em dirigir mulheres no cinema, a cineasta Karyn Kusama começou com a dramática ação Boa de Briga (Girlfight, 2000) estrelado por Michelle Rodriguez, depois, conduziu Charlize Theron no péssimo Æon Flux (2005), e quatro anos mais tarde, voltou apostando no terror para então trazer mais personagens femininas à sua filmografia.

Roteirizado por Diablo Cody, criadora da maravilhosa United States of Tara (2009 – 2016), tudo no texto esbanjava irônicas sugestões ao terror com toques de comédia. Uma cidade de nome fictício Devil’s Kettle (demo), numa noite ao qual a famosa banda de rock Low Shoulder (mais demo) com jovens emos visitou a comunidade, e na passagem, sacrificam a bela Jennifer Check (Fox) ao demônio (mais coisa do demo) em nome da fama? Bizarro assim, a vencedora do Oscar pelo roteiro de Juno (2007), vinha com sua trama do mal.

Em contrapartida, o efeito de ser sacrificada, trouxe a Jennifer a necessidade de consumir carne humana para sobreviver, mas não de qualquer pessoa, apenas homens. Nesse sentido, ao contrário do que os materiais de divulgação vendiam – Fox como uma cheerleader sexy num filme de terror -, a trama devorava o público masculino ansioso para ver mais da mesma mulher que foi sexualizada em Transformers (2007), mas Garota Infernal não era só sobre  isso. Era um filme de terror para as mulheres, e se antes o público fiel do horror já prestigiava a película, os movimentos #metoo e Time’s Up elevaram o conceito além da narrativa adolescente batida e “fraco terror” que não agradaram a crítica na época, para o reconhecimento feminista que Kazuma e Cody pretendiam – agora sendo um horror movie cult e feminista.

O fato de Jennifer se alimentar de homens com comportamentos como assédio e condutas que eram relevadas como padrão pela sociedade, tinha uma crítica clara ali. E ao tempo que traçava essa ousada sacada, desenvolvia duas personagens complexas – de amor e ódio, ternura e acidez – que, de nada entregavam cenas sensuais, prontas para serem vistas como objetos em roupas que as tratassem de tal forma. Não. Garota Infernal foi dirigido e escrito por duas mulheres conscientes do que queriam tratar naquele momento.

Needy Lesnick (Seyfried) e Jennifer eram o típico contraste nerd vs. o popular de tantos clichês americanos – mas a nerd não invejava a mais gata da escola, eram amigas. Contudo, o longa não se apoiava em recortes genéricos para retratar isso. O foco era para elas, personagens principais da trama. Diálogos excêntricos e debochados, trilha sonora composta de bandas de rock indie – inclusive, a faixa da banda Hole, Jennifer’s Body, serviu de inspiração para a ideia de Cody, apesar de não compor a lista musical do filme -, caracterizaram o dinamismo teen que o longa precisava. E enquanto a produção criticava a tóxica cultura do patriarcado, apontava também o relacionamento abusivo que rondava a amizade de Needy e Jennifer.

Na verdade, era mais que amizade, ao menos para Needy. Tinha algo mais ali, quando ela deixava de ficar com seu namorado nada padrão de gostoso, Chip (Johnny Simmons) para estar com Jennifer. Mas o que recebia em troca, ao tentar demonstrar todo sentimento amoroso que sentia, era ser esnobada pela sua paixonite. E como o terror ainda tratava de possessão demoníaca, ter essa temática não serviu apenas para uma denúncia ao machismo, mas também, a contestações direcionadas a relações tóxicas, espalhas na contraposição da nerd e líder de torcida. Por meio da demonização (como alegoria), evidenciou-se para Needy o que ela não enxergava – nem através da substância preta que a cheerleader expulsava do seu corpo morto – em Jenmifer além do amor e afeto: a toxicidade dessa amizade amorosa zelada por uma pessoa.

E se as triunfantes atuações de Fox e Seyfried não foram suficientes numa trama em que os homens não tiveram vez, vale rever essa investida com os olhos que 2009 não permitia ter. 


O Iluminado

(The Shining, 1980)

O que o tempo não faz senão compensar? Como uma adaptação do livro homônimo de Stephen King, O Iluminado (The Shining, 1980) não foi tão apreciado pela crítica, da mesma forma, o próprio King não gostou das diferenças entre o resultado cinematográfico com o que havia escrito em 77.

Hoje, o filme dirigido por Stanley Kubrick – que lhe rendeu uma indicação ao Framboesa de Ouro -, o qual também roteirizou em parceria com Diane Johnson recebeu maior prestígio, de tal modo, a atuação de Shelley Duvall – indicada como pior atriz no Framboesa – ganhou uma ressalva compreensiva dada a situação em que sua personagem viveu.

Na trama, conhecemos Jack Torrance (Jack Nicholson), escritor e alcoólatra que recebe uma proposta como zelador do peculiar e isolado Hotel Overlook, em plena estadia de inverno, o que faz a esposa Wendy (Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd) o acompanharem. Após se instalarem, a rápida comodidade se transforma numa intensa degradação de sanidade quando uma tempestade toma conta da região, os confinando no dito hotel.

Disposta numa abordagem de terror psicológico e toques sobrenaturais, o longa se consagrou como um excelente exemplar de horror bem dirigido. Além disso, trouxe uma alegórica e sufocante condução da mente humana em decadência, junto ao isolamento evocado do local, e as nuances que ainda tratava de masculinidade tóxica e relacionamentos abusivos.

Conceber tal premissa, foi conturbado até nos sets de filmagens, coisa que a intérprete de Wendy vivenciou de forma desgastante – o diretor repetiu 127 tomadas a para atriz estar exatamente como ele queria -, para traduzir o terror que sua personagem passou no hotel (na cena específica da escada), na tentativa de sobreviver ao violento marido.

O rendimento é uma longa estadia e perturbadora, como suspense e terror. Sem essa credibilidade, não seria possível investir numa sequência depois de 40 anos com tanta expectativa dos fãs – tanto que Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019) referenciou muitas das técnicas usadas no longa de Kubrick.


O Grito

(The Grudge, 2004)

Sempre tem um que inicia o movimento, incita a fórmula ao nicho. Encabeçando os remakes hollywoodianos de filmes nipônicos, foi graças ao O Chamado (Ring, 2002) – e preguiça do público americano de assistir filmes legendados -, surfar na onda de prestígio que Ring: O Chamado (Ringu, 1998) – onde conseguiu ganhar mais duas sequências no tempo de dois anos, sendo assim, 99 e 2000 -, e trazer a sua versão estrelada por Naomi Watts como protagonista. O filme de Samara dirigido por Gore Verbinski somou um saldo tão positivo que fez uma continuação ser lançada, trazendo então, a confiança para outros filmes serem produzidos.

Chegamos em 2005, a vez de Kayako ganhar os holofotes. Inspirado na famosa franquia Ju-On, a versão americana pode não ter tido a mesma sorte se comparado aos elogios que a original recebeu, mas, O Grito (The Grudge, 2004), tinha ali no desenvolvimento o molde ideal que casava com os clichês do gênero. Na trama, a enfermeira e cuidadora de idosos Karen (Sarah Michelle Gellar), viaja para Tóquio a fim de trabalhar com Emma (Grace Zabriskie), não sabendo ela que a casa em que a senhora residia foi palco de um crime hediondo que acendeu uma maldição – precisa dizer qual?

Aí, claro, graças a curiosidade estúpida de investigar coisas estranhas que acontecem em locais bizarros, a jovem vai se afundando ainda mais no mistério que o local esconde, tudo para marcar sua alma. Ter o rosto da consagrada Buffy e melhores coadjuvantes nos filminhos slashers, a também eterna Daphne pode ter sido um dos motivos – com certeza foi – que fez de O Grito tão chamativo, já que seus colegas remakes de filmes japoneses não tinham conquistado a crítica além do efeito mediano, e com o longa em questão, não foi diferente, mesmo com o diretor Takashi Shimizu. Porém, a boa bilheteria possibilitou mais duas sequências – uma em 2006 e outra em 2009.

Com a crítica dividida, o público preferiu manter a parte assustadora da produção e melhorar a experiência e recepção do longa – tanto que em qualquer versão que surja, dar play não parece inviável.


Lenda Urbana

(Urban Legend, 1998)

Sendo mais um da era do renascimento do slasher pós Pânico (Scream, 1996), Lenda Urbana (Urban Legend, 1998) despontou apenas dois anos depois do subgênero atrair a credibilidade do público novamente. É curioso notar como a indústria é rápida em se aplicar a fórmula em nome do lucro, e com Lenda Urbana deu certo, pois a crítica dispensar o conceito rendeu mais duas sequências ainda mais rejeitadas.

O ponto crucial em filmes como Lenda Urbana e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, 1997) vieram conscientes dos clichês que o longa de Wes Craven destrinchou utilizando da metalinguagem, e investiram em narrativas mais rebuscadas e empenhadas, mas ainda ligados a fórmula da era de ouro do slasher. Em suma, já que a dramatização do terror que trazia um assassino mascarado executando um plano em cima de vítimas específicas estava no papo de novo, nada impedia repetir justamente o que foi criticado para conquistar um novo público – e conseguiu.

Se a crítica não estava mais a fim dos jumpscare e tramas executando o modelo, mergulhado em absurdos se no final o slasher estivesse presente, a audiência se entregou de cabeça para ver mais perseguições e o enigma por trás das motivações da vilania. Nisso, Lenda Urbana fez como Eu Sei o que Vocês Fizeram… e abriu portas para que novos talentos – brancos – chamassem atenção por protagonizarem tramas teen de terror.

Movido na criatividade, o slasher da vez trazia um assassino que matava suas vítimas inspirados em lendas urbanas locais. Mas então, era real mesmo ou lenda? Essa não passou no Domingo Legal – mas voltou ao catálogo da Netflix.


Sexta-Feira 13

(Friday the 13th, 1980)

A lista chega ao fim com um clássico – se bem que todos desta lista podem ser, dado a subjetividade da experiência. Parece que assim como a atriz Betsy Palmer não gostou nadinha de Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980), a crítica a apoiou no hate, mas público também tem voz.

Mesmo não sendo o primeiro no subgênero, muitos consideram Michael Myers e seu Halloween: Noite do Terror (Halloween, 1978) como o cabeça, e de modo parecido, uns votam em Jason Voorhees no líder da categoria matadora. Cada qual com seu ícone, mas se Myers é o bicho-papão de Haddonfield, Jason é dos acampamentos de verão.

Dos cincos filmes citados aqui, esse foi o mais esculhambado pela crítica duramente: do roteiro ao péssimo desenvolvimento dos personagens, pontuando também a ausência de domínio e engajamento inteligente para o filme. Diferente do vizinho Myers, a trama de Jason tornava o próprio cast adolescente causador de suas respectivas mortes – já pensou a internet problematizar o slasher que é cancelado e absolvido vez e outra?

Mesmo com uma interessante subversão feminina, a crítica não perdoou. O que mais tarde, nas releituras, a alusão ao slasher agindo por conta da fornicação, foi apontado como um aspecto característico, sendo assim, a nudez, sexo, bebedeira, presentes em tantos filmes, faziam cada vez mais parte da perspectiva do subgênero, se tornando atração principal que a audiência queria ver.

A bilheteria encheu o olho gordo dos produtores, motivando outras várias sequências para a inevitável decadência – e a crítica ganhando os mimos para odiar -, onde cada continuação  de Sexta-Feira 13 (após o terceiro) prometia ser o último, e a gente se perguntava: quais os novos furos e qual será o pior? Exato, o público passou a concordar com a crítica já que os roteiristas esqueceram da coerência – mas o lucro nunca era pouco.

Engraçado que esse misto de ódio e sucesso acabou criando outro nicho no meio da categoria, o slasher camp, e o irônico é que muitos superaram o Jason – Betsy mais que certa.


Sentiu falta de mais algum clássico que a crítica não soube reconhecer? Conta pra gente nos comentários.