Doutor Sono – Lidando com os fantasmas do passado

Normalmente, já é suficientemente complicado fazer uma boa sequência aos olhos da crítica especializada e do público, principalmente se a obra que antecede é muito querida. Imagine então propor uma sequência direta a O Iluminado (The Shining, 1980), que, além de ser um dos filmes mais amados da história do cinema, é também dirigido por Stanley Kubrick, um diretor cuja genialidade dificilmente é colocada em cheque. Mesmo sendo também uma adaptação do livro de mesmo nome lançado em 2013, o desafio de Doutor Sono (Doctor Sleep, 2019), dirigido por Mike Flanagan, ainda é bastante ingrato. 

Tanto o livro de 77 quanto o filme de 80 foram marcantes dentro de suas searas, e Flanagan se preocupa em trabalhar com a influência dos dois ao mesmo tempo, em Doutor Sono Danny (Dan) Torrance (Ewan McGregor), ainda extremamente marcado pelo trauma que sofreu quando criança no Hotel Overlook, lutou para encontrar o mínimo de paz. Essa paz é destruída quando ele encontra Abra (Kyliegh Curran), uma adolescente corajosa com um dom parecido com o dele, conhecido como Brilho. Ao reconhecer instintivamente que Dan compartilha seu poder, Abra o procura, desesperada para que ele a ajude a enfrentar um misterioso grupo chamado Nó, que se alimentam do Brilho de inocentes visando a imortalidade. Ao formarem uma improvável aliança, Dan e Abra se envolvem em uma brutal batalha de vida ou morte com Rose (Rebecca Ferguson), a líder do grupo. A inocência de Abra e a maneira destemida que ela abraça seu Brilho fazem com que Dan use seus próprios poderes como nunca, enquanto enfrenta seus medos e desperta os fantasmas do passado.

Flanagan remete bastante ao filme de Kubrick, com músicas, enquadramentos, transições e até mesmo com cenas recriadas, mas não para recorrer a uma nostalgia barata como geralmente acontece nos filmes que retornam ao universo original e sim porque os acontecimentos do filme anterior são essenciais para a construção do personagem principal deste outro, aqui vivido de forma competente por Ewan McGregor que, aliás, encabeça um elenco que está igualmente incrível. Dan Torrance tenta lidar com seus traumas e fantasmas, literalmente, ao mesmo tempo que tenta vencer a si mesmo numa luta contra a raiva e o alcoolismo, os mesmos demônios que outrora atormentavam seu pai. Mas, ao mesmo tempo, consegue estabelecer um tom diferente de seu antecessor ao explorar um aspecto que não tinha sido aprofundado antes, a questão das pessoas especiais, que possuem Brilho. Aqui, adaptando o livro, Doutor Sono ganha um ar aventureiro, se distanciando do horror propriamente dito e mescla os dois muito bem num filme demorado com suas duas horas e trinta minutos de duração, mas que não deixa de ser tenso em quase momento nenhum. O grande destaque do longa, pessoalmente, vai para Abra Stone, tanto a personagem quanto o talento de sua intérprete, gostaria que houvesse alguma coisa que fosse mais focada nela, em uma história separada desta, uma série, um outro livro, um quadrinho. Fica aí o apelo, sr. King.

Entretanto, no terceiro ato a narrativa perde um pouco da sua potência e o que estava equilibrado aqui parece um pouco desbalanceado, é nesse ponto do longa que ele tem que lidar com as diferenças entre o filme de Kubrick e o livro de King, que possuem finais diferentes, sem esquecer do livro de 2013 que está adaptando, essa mistura acaba desfavorecendo o filme, mas não o bastante para torná-lo indigesto.

No fim, Doutor Sono sabe que não vai fazer jus ao material com que está trabalhando, então decide fazê-lo com respeito e cuidado para conseguir entregar uma sequência digna e o resulto é, no mínimo, surpreendente. Personagens carismáticos, direção segura e atuações competentes vão te deixar animado, apesar do que o nome do longa sugere.