Resident Evil 3 – E o que falta para os remakes darem certo

Ano passado mediante a febre do remake do Resident Evil 2 (2019), eu esbravejei que ele tratava-se de um jogo quase perfeito. De fato, minha opinião em relação ao jogo do ano passado pouco mudou. Ele continua beirando a perfeição diante de meus olhos, mesmo sabendo que a história havia sido simplificada em relação ao jogo de 1998, contudo a atmosfera e o respeito pelo jogo antigo prevaleceram em minha análise passada. Com o anúncio já evidente de Resident Evil 3 Remake (2020), a expectativa de jogar novamente um jogo que marcou minha infância, mas dessa vez com gráficos realistas e toda sua jogabilidade remodelada, prevaleceu durante todo o período pré-jogo. Contudo, quanto mais alto a expectativa, maior a queda quando não dá certo. 

Esse é o caso de Resident Evil 3 Remake, de antemão, não vou chover no molhado e falar sobre os gráficos, está evidente nos trailers que o jogo é bonito. Outro ponto de destaque é a trilha sonora, que mescla elementos do jogo clássico de 1999 e este. O desenvolvimento de certos personagens e suas personalidades também pode ser visto como um elogio, por exemplo, o Carlos no jogo antigo era muito chato, suas atitudes e falas eram muito ruins, já na versão de 2020, o personagem ganhou uma remodelagem e passou até mesmo ter mais importância dentro da história. 

O primeiro ponto de desânimo é o tempo de campanha, em minha primeira jogada terminei com aproximadamente 5h de campanha, um tempo razoável considerando a franquia Resident Evil. Contudo, ao jogar novamente, esse tempo cai para aproximadamente 1h ou 1h e pouco, portanto o jogo é curtíssimo em termos de narrativa, tudo é muito apressado. Outra característica dos jogos de Resident Evil e que ajuda a aumentar esse tempo de campanha é o fator replay. Para fazer 100% do jogo eu obtive algo próximo das 20h, ou seja, joguei novamente pelo menos uns 7 vezes. Isso é para quem busca 100%, para quem quer conhecer somente a história o jogo torna-se muito curto, incabível a Capcom cobrar tão caro em um jogo que pode ser terminado em menos de 2h.

Atrelado ao tempo de campanha, fica minha reclamação o quão broxante foi não poder explorar Raccoon City. Não esperava algo do nível de GTA, mas gostaria de poder andar mais pela cidade, explorar pontos conhecidos dos jogos clássicos de 1998 e 1999, e ver tudo remodelado nesses gráficos lindíssimos. A história do jogo original, que já era bastante curta, foi capada aqui. Diversos pontos da cidade foram retirados ou aparecem como easter eggs seja em folhetos ou em fala de personagens, retiram inimigos, mudaram alguns pontos essenciais da história. Não que fosse esperado um jogo igual a versão de 1999, mas que pelo menos as alterações fizessem sentido.

Resident Evil 3 Remake que tinha tudo para dar certo e ser um pontapé para a Capcom seguir fazendo seus jogos, acabou se tornando um jogo que mais parece uma DLC de Resident Evil 2 Remake. Aliás, teria sido muito mais honesto, por exemplo, terem lançado os dois jogos juntos em um pack chamado Resident Evil – Raccoon City Stories. O que falta para esses remakes da Capcom darem certo? Acredito que a ideia de simplificar uma história que é simples deveria ser mudada. Com o avanço das tecnologias e a possibilidade de criar jogos lindos e imersivos, o caminho seria pegar a história clássica e retrabalhar ela, desenvolvê-la, é uma oportunidade desperdiçada em um jogo que mais parece um caça-níquel para pegar o fã.

Observando tudo isso, não seria um absurdo dizer que o jogo original, aquele do ano de 1999, limitado em processamento gráfico e sonoro, tinha uma história muito mais audaciosa e engajada, sem medo de arriscar a Capcom fez história nos anos 90 com a franquia Resident Evil. Hoje, porém, ela parece muito mais confortável sobre a sombra de proteção dos fãs que vivem do passado e que têm preguiça de olhar para o futuro. Tudo que nos resta é lamentar a oportunidade perdida: uma pena.

Sobre o autor

Thiago Henrique Sena
Atual Vice-presidente da Aceccine. Bacharel em Cinema, formado em Letras e graduando de Ciências Sociais. Apaixonado por literatura, poesia, pintura, animes e mangás. Ama os filmes do Bruce Lee, do Martin Scorsese e do Sergio Leone e gosta de cinema latino-americano e asiático. Escreve sobre jogos, cinema, quadrinhos e animes. Considera The Last of Us e Ocarina of Time os melhores jogos já feitos e acredita que a vida seria muito melhor ao som de uma trilha sonora de Ennio Morricone ou de Nobuo Uematsu.