Magnatas do Crime – Guy Ritchie e seu comeback enfadonho

Falando assim, nem parece que Guy Ritchie dirigiu Aladdin (2019), mas o fato que há quatro anos não vimos o cineasta surfar na sua onda favorita: a união da ação e comédia. Agarrando as origens, Magnatas do Crime (The Gentleman, 2019), gritava um divertido comeback, voltado para o submundo do crime britânico. Apesar do aparente frescor, o longa pode agradar aos fãs saudosos pelo estilo de outrora, mas também acaba sendo qualquer filme de ação desses que tenta ser maior do que é.

Sair do jogo não é uma tarefa fácil de executar, tanto que para o poderoso chefão do tráfico britânico Michael Pearson (Matthew McConaughey) abandonar o posto se mostra um passo arriscado quando percebe que para tomarem o seu lugar requer um preço alto, numa dança de sabotagem, sangue e quebra de confiança. Para aquecer, a película já abre com uma interrogação, o que serve de gancho principal para a narrativa: solucionar um mistério. Em uma função difícil, nos é ofertado um guia que não poderia ser pior, ou melhor dizendo, Fletcher (Hugh Grant), como um investigador boa pinta com todas as cartas na mão sobre o que diabos está acontecendo. 

Ter um mistério para estimular a façanha aqui poderia ser uma boa sacada, se em seguida o telespectador não fosse atingido por uma enxurrada de diálogos extensos e cansativos querendo ostentar um estilo apelativo para uma suposta genialidade frouxa e um humor que não atrai. Inclusive, o tom cômico se compromete sendo afiado e com doses de humor negro, porém passam a impressão de só está sendo forçado para ter um efeito a mais na narrativa, e termina não emplacado mesmo.

Enquanto o enigma segue, é possível apontar que a ideia aqui foi inteligente: a coisa toda funciona como uma carta de Ritchie a própria indústria cinematográfica anunciando que voltou com tudo. Ou seja, inserindo um pouco de metalinguagem, o diretor brincou com a própria retomada à mistura de gênero e estilo que conquistou cinéfilos ao trazer Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock Stock e Two Smoking Barrels, 1998) e Snatch: Porcos e Diamantes (Snatch, 2000). As viradas e inserções do roteiro para chacoalhar com as expectativas, eludindo os limites que poderia ir, beira um enfadonho exercício para esbanjar criatividade com reviravoltas. É assim que Hollywood gosta?

Antes mesmo do segundo ato já dá para perceber qual é o intuito aqui, o que poderia ter o efeito de conseguir ser empolgante, mas não, Ritchie parece subestimar a capacidade da audiência ao dar tantas voltas e cenas exageradas, uma injetada de adrenalina aqui e ali, personagens caricatos ostentando como são magnatas do crime, para no fim esticar com um terceiro ato que roda, roda e termina sendo óbvio.

Para quem tanto queria não ver Ritchie com blockbusters, ele voltou, exercitando um estilo de ação que não almeja entregar cenas grandiosas, movimentos coreografados de porradaria e balas, mas sangue e poderosos numa filmagem contida e em uma linguagem da trama complexa, personagens complexos e fim complexo que não tinha como prever de tão bolado… Só vendo, pois diante das idas e vindas o que The Gentlemen consegue é ser chato.