O Escândalo – Existe uma abordagem certa para se contar uma história?

Na sua filmografia com trabalhos como roteirista e produtor, boa parte das películas que Jay Roach dirigiu foram voltadas para o gênero de comédia e, especificamente em 2015 e 2016, com os dramas Trumbo – Lista Negra (Trumbo, 2015) e Até o Fim (All the Way, 2016) respectivamente, que o filmmaker apostou em histórias de cunho político e biográficas. No seu mais recente projeto, Roach ficou com a responsabilidade de levar o polêmico caso envolvendo o falecido Roger Ailes, editor chefe da Fox News que renunciou seu cargo após ser acusado de assédio sexual por diversas mulheres. O escândalo está escancarado desde o título do filme, mas O Escândalo (Bombshell, 2019) não conseguiu transmitir o impacto sem evitar uma abordagem genérica e apática para essa história.

O enredo é esse: um longa que acompanha as denúncias de assédio sexual cometidas contra um editor chefe famoso pelo conservadorismo e por ser consultor político de presidentes como Richard Nixon e George H.W. Bush, e também dar apoio como conselheiro na campanha de Donald Trump. Nas telonas, John Lithgow foi o artista escolhido para interpretar o polêmico CEO da Fox nos eventos que culminaram sua saída do canal. Já para o papel de Gretchen Carlson (a jornalista que entrou com um processo contra o produtor) Nicole Kidman foi escalada. Para dar vida a Megyn Kelly, a apresentadora conhecida por confrontar o atual presidente do EUA num debate entre candidatos à nomeação republicana, Roach fez mais uma excelente seleção para o elenco trazendo Charlize Theron.

Para completar com um trio feminino, Margot Robbie foi escalada para um papel fictício dentro da trama, como Kayla Pospisil. É importante ressaltar que a produção de Bombshell atrai ainda mais relevância por retratar um caso de denúncia um ano antes em que o #metoo e Time’s Up receberam notoriedade. “Essa é uma dramatização inspirada em eventos reais” um texto inicial adverte. Logo nos primeiros minutos Roach nos deixa a par do estilo de filmagem que optou para seu longa: como uma tomada nos bastidores, damos um passeio nos escritórios, corredores e sets que sediam o estúdio da Fox News, ao mesmo tempo que somos apresentados ao trio principal. 

Não demora muito para ser perceptível que investir em zooms constantes nos rostos dos personagens para dar ênfase nesse tom “cru” de abordagem, não combina muito com o seguimento em que a própria narrativa vai tomando. Primeiro o embate de Megyn e Trump surge depois da leve apresentação aos estúdios, e sem nenhuma introdução, partimos para tentativa de processo de Carlson, e nesse mesmo tempo, entendemos que Kayla quer ter o seu grande momento no canal.

Ora, se o papel de Kayla é o único fictício na trama, começa a se mostrar um problema quando obtém um foco maior até mesmo que o arco de Carlson. Na verdade, parece que Roach se apoiou na ideia de que o caso da denúncia já é conhecido, assim como as mulheres que não se calaram, nisso aposta numa fórmula — ter a denúncia, investigação e saída de Roger sem explorar com profundidade a Fox tóxica criada pelo CEO — e torna a figura de Kayla a responsável por exemplificar os atos de assédios que aconteciam na emissora e resume Carlson como a mulher que deu o primeiro passo e Megyn como a segunda pessoa que também se pronunciou dentre muitas outras vítimas.

Nesse trajeto, após tantas informações, plots em excesso, quando então O Escândalo tenta adentrar o tema ao qual se inspirou com mais seriedade, é inegável que as escolhas narrativas de Roach influenciaram de forma negativa para a história que estava contando, a ponto de quase se perder na mensagem. A partir daí, é quando o  filme começa a ganhar um ritmo mais empolgante e interessante ao encontrar um ponto para executar os efeitos após o processo de Carlson: o choque para lidar com uma pessoa temida como Roger, ou melhor, o perrengue que foi ter credibilidade para ganhar o caso.

Em um certo momento, a personagem de Margot reflete o assédio sexual no trabalho, em algumas de suas palavras: “O que eu fiz? O que eu disse? O que vesti? O que não percebi? Dirão que estou atrás de dinheiro? Serei definida por isso pelo resto de minha vida?” Mas a impressão que fica depois que todas essas indagações são expostas e o telespectador pensa sobre o que está assistindo, é que Roach não assumiu de fato um ponto de vista feminino para narrar. Tivemos três mulheres centrais para a história, mas sem que fossem exploradas de maneira que ganhassem relevância. Das duas figuras reais da história, Magyn foi a mais afetada por ter boa parte de seu arco definido pelo episódio com Trump, e Carlson é resumida a pequenos exemplos de sua luta contra a emissora conservadora e sexista que fazia parte.

Em contrapartida aos sucessivos erros do filme roteirizado por Charles Randolph, de A Grande Aposta (The Big Short, 2015), o trio principal se mostrou poderoso em suas atuações — o que rendeu indicação de Melhor Atriz para Charlize e de coadjuvante para Robbie. E o trabalho de maquiagem — que também abocanhou uma indicação — e caracterização de Gretchen e Magyn estão impressionantes: só em apenas dois momentos eu consegui enxergar o rosto normal da Charlize, ao menos um vislumbre, pois em todas as suas cenas os talentos de Vivian Baker e Kazurio Tsuji fazem você não desviar os olhos do resultado incrível que é.

No geral, em sua direção convencional, Roach não conseguiu imprimir com exatidão os eventos que culminaram na polêmica de Roger Ailes: com excessos de personagens e representações espalhadas, não pôde encontrar o ponto chave para determinar sua abordagem da história. Charlize até falou em entrevista sobre não ver problemas sobre um homem dirigir tal relato acerca das mulheres uma vez que outra pessoa não pensou em comandar, e portanto que seja do jeito certo, mas o que seria de O Escândalo se uma mulher estivesse a frente? Possibilitaria um posicionamento em que o público pudesse se identificar?