Joias Brutas – Adam Sandler, nunca critiquei

Até onde a sorte ajuda os desafortunados? Até onde a sorte ajuda as pessoas de má índole? E até onde a sorte entra e o azar começa? São perguntas importantes para começar a entender o novo indie thriller dos irmãos Benny e Josh Safdie, o surpreendente Joias Brutas (Uncut Gems, 2019), lançado no último dia 31 de janeiro na Netflix e estrelado por Adam Sandler em um papel no mínimo peculiar.

A história é focada em Howard Ratner (Adam Sandler), dono de uma joalheria em Nova York que, na verdade, serve como pano de fundo para seus trambiques e trapaças. Tudo começa quando Ratner faz um investimento e traz uma opala, joia que ele cogita valer uma grana, contrabandeada da Etiópia para realizar um leilão que possa lhe dar um bom dinheiro e livra-lo dos credores que insistem em bater a sua porta cobrando uma dívida que o mesmo adquiriu.

O enredo não é muito diferente do que os irmãos Safdie já fizeram em seu último filme, o excelente Bom Comportamento (Good Time, 2017) estrelado por Robert Pattinson. Aqui em “Joias Brutas”, que parece até se passar neste mesmo universo, vemos uma Nova York urbana, sombria, soturna e perigosa, capaz de abrigar os indivíduos mais estranhos e imprevisíveis que se possa imaginar. É nesta atmosfera que o enredo se desenvolve, focando na rotina de Ratner num primeiro momento, para que estejamos familiarizados com seu trabalho, com sua família, com sua amante e com seu estilo de vida de sempre tirar vantagens daqueles que ele julga mais vulneráveis e mais espertos.

O roteiro deste longa é imprevisível em muitos aspectos, mas talvez o mais interessante é trabalhar o esquema em como Ratner constrói toda uma tática de faturar em cima de sua nova joia adquirida, ao mesmo tempo que a narrativa insere um aspecto meio místico bastante proposital, porém inexplicável, que carrega todo enredo de uma forma digamos assim, sobrenatural. Lembra das perguntas que fiz no começo da crítica, o filme trabalha exatamente este equilíbrio entre sorte e azar que parece as vezes trabalhar a favor e contra o protagonista da trama, quase como uma força invisível que insiste em mostrar como essas duas incógnitas influenciam em vários aspectos da vida humana num constante movimento que parece as vezes impossível de controlar.

Ainda que tenha esse aspecto místico mencionado, “Joias Brutas” ainda volta para um certo realismo urbano representado pela figura de Ratner e seus esquemas ilícitos, mas tudo isso só funciona porque Adam Sandler consegue o feito de construir um personagem totalmente inusitado, escroto e complexo, extremamente diferente dos tipos que ator costuma encarnar. Por isso é importante dizer que, apesar de um certo humor cínico, o filme não tem Sandler fazendo nenhuma de suas sandices como na recente comédia, Mistério No Mediterrâneo (Murder Mystery, 2019), ou nas suas antigas comédias como Como Se Fosse A Primeira Vez (50 First Dates, 2004) ou Click (2006), aqui vemos uma faceta bem diferente e muito mais sóbria do ator que promete surpreender até mesmo aqueles que sempre torceram o nariz para as obras do mesmo.

Fica claro aqui que Ratner é o coração do filme, desta forma o primeiro ato se desenvolve em cima do esquema que o personagem constrói para dar um golpe em um astro do basquete (participação mais que especial de Kevin Garnett) através de um leilão de joias, porém as coisas começam a sair fora dos eixos quando os problemas pessoais do joalheiro começam a ser tornar uma dor de cabeça para o mesmo, que se envolve numa teia de confusões e desventuras potencializadas ainda mais pelo seu jeito grosseirão e arrogante de achar que sempre está um passo a frente daqueles de quem tirou vantagem ou prejudicou em algum momento.

A narrativa de “Joias Brutas” é algo diferente e talvez difícil de assimilar pelas constantes informações e pelo jeito coloquial presente nos diálogos dos personagens, que conversam alto e esbravejam como se estivessem numa reunião barulhenta de família, talvez isso afaste quem esteja procurando uma trama mais simples, o que não é o caso aqui. A cadência proposital do filme é para que o espectador tenha informações suficientes para questionar ou não a índole de Howard, que passa por maus bocados, mas parece sair das enrascadas por um fio, fazendo mais uma vez o público questionar se tudo aquilo era sorte ou azar mesmo, algo que as vezes esta atrelado a presença da opala, que parece trazer algum tipo de sorte para quem a esfrega.

Neste aspecto, a direção dos irmãos Safdie se torna quase como uma peça chave aqui, dando um ritmo a história que intercala momentos mais cadenciados com outros que tentam passar algum suspense sempre tentando deixar a narrativa de certa forma imprevisível. Outro aspecto positivo é a construção de seus personagens e apesar do Howard ser o centro da trama, alguns outros se destacam dentro desse enredo, destaque para a amante de Howard, a bela Julia De Fiore (Julia Fox se mostra um talento precoce e curioso) e a esposa do trambiqueiro vivida por Idina Menzel numa participação bastante consistente, o longa ainda conta com Lakeith Stanfield ainda que em um papel sem muita profundidade. 

 Em muitos aspectos e principalmente para quem gosta de um filme mais sombrio e com uma trama envolvente, “Joias Brutas” pode ser o longa ideal neste período, qualquer coisa a mais que eu disser pode soar como spoiler, quanto menos você souber sobre este filme, melhor e mais surpreendente ele será. A única informação importante é saber que Adam Sandler faz um dos melhores papéis de sua carreira num personagem que é constantemente bem trabalhado pela narrativa de tal forma que a segunda metade do filme se torna ainda mais excelente por conta desta trajetória estabelecida. O longa dirigido pelos irmãos Safdie é envolvente, não subestima o espectador e é inusitado como poucos filmes do gênero, não espere respostas fáceis, mas espere um thriller que brinca muito com aspectos da sorte e do azar, que podem levar um homem a glória ou a completa ruína em um piscar de olhos.