O Farol – Nossa mente é tão traiçoeira quanto o mar

Em 2015 o, até então estreante, diretor Robert Eggers nos entregaria um dos filmes mais incríveis daquele ano, que se tornaria um dos meus filmes preferidos da vida, o folk horror A Bruxa (The Witch), com uma ambientação impecável dos Estados Unidos no século XVII, e elementos da religiosidade e do paganismo que os colonos daquele país trouxeram consigo, Eggers construiu um novo clássico do gênero, despontando ali como uma das grandes promessas do horror e deixando muita gente (eu incluso, claro) na expectativa para seu próximo longa.

E eis que seu segundo filme surge com algum alarde em 2019, chamando atenção dos críticos no Festival de Cannes daquele ano, onde levou o prêmio nesta categoria, com destaque em sua nova aposta no gênero que o colocou em evidência anos antes. Em O Farol (The Lighthouse) o diretor segue novamente para um horror de época e com o minimalismo que fez de seu primeiro filme tão primoroso. Toda a narrativa se desenvolve em uma pequena ilhota onde se encontra o Farol do título e na interação de dois personagens que chegam ali para cuidar da manutenção do lugar.

O filme já inicia chamando atenção para suas escolhas de fotografia pouco usuais, mas que se mostram completamente funcionais durante todo o longa: primeiro um aspect ratio (proporção de tela) de 1.91:1, o que significa um limite de tela mais quadriculado, contribuindo para a sensação de claustrofobia e, consequentemente, angústia que tão importantes serão para o clima desejado; e segundo, um preto e branco extremamente contrastado, lembrando muitas vezes os filmes do Expressionismo Alemão, o que muito possivelmente tenha a intenção de parecer, mas não se reduz a isso. O diretor de fotografia Jarin Blaschke, que já havia estado com Egger em seu filme anterior, utiliza as sombras e a luz que a falta de cores exerce como um forte elemento dentro da narrativa, seja nas sequências noturnas, dentro das instalações e com apenas lampiões como foco de iluminação, o que coloca os limites do quadro em uma penumbra assombrosa, seja nas externas iluminadas pela manhã, quando o cenário nos faz lembrar aqueles retratos antigos muitas vezes assustadores.

Além disso o filme se beneficia imensamente de um acertado desenho sonoro que, por várias vezes, mescla a trilha musical original com os ruídos do lugar, como a barulhenta e insistente sirene que ouvimos desde o início ou o ensurdecedor crepitar do fogo na caldeira que alimenta a máquina giratória do farol, e é claro que não podemos esquecer do irritante grasnar das gaivotas que naturalmente infestam o local. E perceba como todos esses sons, e até outros que não mencionei aqui, além de ajudarem a dar o tom da loucura que o filme vai pouco a pouco nos levando a acompanhar, são também elementos narrativos importantes e que tem funções pontuais na história.

Williem Dafoe and Robert Pattinson in director Robert Eggers THE LIGHTHOUSE. Credit : A24 Pictures

Mas é mesmo na relação entre os dois personagens que o filme se debruça ao criar toda essa ambientação. O velho e rabugento faroleiro Thomas Wake (Willem Dafoe, genial), e seu novo aprendiz, o jovem e taciturno Ephraim Winslow (Robert Pattinson). Não é apenas o simples isolamento e convívio que fazem os dois criarem um estranho vínculo, isto também, mas existe algo de misterioso nos dois personagens, em seu passado, nas historias duvidosas que contam e até na forma que se comportam, que faz com que essa relação se torne tão interessante para nós desde o início. É curioso notar como os dois nunca são completamente apresentados a nós de fato como personagens, sabemos pouco deles e é ao irem se conhecendo que nós como espectadores também vamos os conhecendo, e assim como um sempre parece estar escondendo algo do outro, o sentimento que temos é que pouco sabemos ou saberemos sobre os dois homens e que segredos estão sendo mantidos para conosco.

Com uma montagem que preza pela gradual aceleração do ritmo, percebemos o quanto Ephraim vai crescendo em angústia, assim como em curiosidade pelo mistério que Thomas guarda tão ferozmente no topo do farol, e vai levando o tom da narrativa cada vez mais para algo fantasioso, que nunca sabemos bem se é real ou sua mente ficando mais e mais perturbada. William Defoe está em uma daquelas interpretações que, depois de vermos, nos parece uma escolha de elenco perfeita, não existindo nenhum ator melhor para o papel, jogando toda a verborragia do personagem que, com as palavras certas, parecem soar muitas vezes quase como uma violenta poesia, e a expressão de Defoe nestes monólogos é perturbadora, muito mais pela sutileza com que muda de humor, parecendo muitas vezes até engraçado, do que por algum excesso ou exagero. Pattinson, com um personagem mais silencioso, demonstra enorme destreza em sua atuação, nos apresentando alguém que está a beira de chegar ao seu limite mental, se contendo quando precisa se conter, mas também explodindo quando precisa explodir.

Eggers conseguiu, com apenas dois longas no currículo, se provar realmente um dos grandes diretores de horror de todos os tempos, arquitetando um estilo próprio e profundamente eficaz no que se propõe. “O Farol” é um filme lindo e horrível, que nos deixa com uma sensação confusa entre querer admirar novamente a beleza do que acabamos de ver, e nunca mais voltar àquele inferno em forma de ilha de onde finalmente conseguimos sair. Ou não.