Adoráveis Mulheres – Nossas histórias importam

Esta é a sétima vez que o clássico Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, é adaptado para as telas, isso sem contar as versões para os palcos. Muitos nomes já passaram por essa história e provavelmente ainda passarão. Portanto, o desafio de Greta Gerwig com este filme era bastante claro: Como deixar sua marca, como se destacar em meio à tantas outras abordagens? Após uma estreia bem-sucedida na direção com Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017), como provar que ela é capaz de trabalhar com orçamentos maiores e projetos mais audaciosos?

E a resposta é: fazer deste filme não só uma adaptação sobre a história dessas quatro irmãs, mas também uma história que ressoa nas nossas discussões atuais, no papel da mulher na sociedade de ontem, de hoje e de amanhã, principalmente da mulher enquanto autora, donas das suas próprias narrativas, como a própria Greta, como a própria Louisa May Alcott, autora como as irmãs March sonham em ser, cada uma em suas áreas de interesse, escrita, atuação, pintura e música. Isto, é claro, sem desrespeitar o material original. Não é uma tarefa nada fácil, mas Gerwig consegue.

No filme, As irmãs Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh) amadurecem na virada da adolescência para a vida adulta enquanto os Estados Unidos atravessam a Guerra Civil. Com personalidades completamente diferentes, elas enfrentam os desafios de crescer unidas pelo amor que nutrem umas pelas outras em meio às turbulências da vida.

A montagem fluída e a direção segura são fortes características do filme, mas é o roteiro afiado e o desenvolvimento das personagens que me chama mais atenção, um belíssimo e equilibrado coming-of-age que, apesar de ter quatro mulheres muito diferentes entre si, consegue valorizar cada uma delas em suas singularidades dentro do longa, mesmo que Jo seja a real protagonista do filme, seu jeito de ser mulher, contra o casamento, avessa à feminilidade, não é colocado nem como inferior muito menos como superior em relação às irmãs, seus sonhos e suas vidas são diferentes sim, mas todas são válidas e merecem ter suas histórias contadas, pelos olhos de uma mulher, principalmente. Quando, em certo ponto da trama, há uma conversa trivial entre elas sobre isso o filme realmente salta para fora da tela e me atravessa a alma de um jeito que eu realmente não estava esperando, assim como aconteceu com Lady Bird, Greta fez de novo, me arrebatou de novo.

E é preciso ser dito, a verdadeira força desse filme está em seu elenco, a dinâmica entre eles, o modo como você se sente próximo a ele, como se você mesma tivesse compartilhado de momentos alegres na infância com aquelas personagens. Com destaque mais que especial para a surpreendente Florence Pugh que não só mostrou todos os lados de sua personagem, como nos convenceu em todos eles, transformando Amy na personagem mais cativante da história, mesmo sendo coadjuvante nos créditos. Além de Pugh, Timothée Chalamet e Saoirse Ronan estão consistentes e continuam entregando o ótimo trabalho que se espera deles, Laura Dern e Mery Streep brincam diante das câmeras, mesmo que apareçam pouco, brilham sempre que estão sendo enquadradas. Já Eliza Scanlen, que vive a pequena Beth, consegue ter um registro poderoso de performance através do sutil que exige a timidez e introspecção da personagem. Emma Watson, infelizmente, parece meio perdida no meio de tantos destaques. Talvez a culpa seja do próprio arco da romântica Meg, a irmã mais velha, que deixou a desejar em ritmo e espaço dentro da projeção, sendo o único ponto realmente negativo do filme para mim.

De todo modo, Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019) é, sem dúvida, uma ótima pedida ao cinema. É divertido e emocionante na medida certa. É bem escrito, bem dirigido, bem adaptado e muito bem atualizado para o nosso tempo. É o tipo de filme que nos deixa com um pequeno sorriso escondido no canto dos lábios após a sessão, é como voltar para casa depois de muito tempo longe e ser recebido com um abraço, te faz bem.