Homem-Aranha: Longe de Casa – Grandes franquias, grandes responsabilidades

Columbia Pictures – Marvel Studios – Pascal Pictures / Reprodução

Confesso que quando Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) estreou, eu precisei me acostumar com essa nova versão de Peter Parker, mais inocente e atrelado aos Vingadores e Tony Stark do que eu achava interessante. Não que eu tenha desgostado do filme por causa disso, muito pelo contrário, as homenagens ao cinema de John Hughes e as modernizações na mitologia do herói me conquistaram até com certa facilidade, era só esse Peter que não me soava nada familiar e ainda me fazia torcer um pouco o nariz. Entretanto, essa birra não durou muito. No ano seguinte, eu já estava chorando pateticamente como qualquer outra pessoa quando ele desapareceu em Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, 2018) e comemorei loucamente quando retornou em Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame, 2019). Foi um longo caminho para chegar até aqui, em Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home), completamente apegada ao personagem.

Caminho esse mais do que necessário, porque é graças ao fato de que realmente vivemos e acompanhamos esses dez anos de franquia do universo compartilhado da Marvel nos cinemas que sentimos o fardo e a pressão da expectativa em cima do Homem-Aranha, não só do personagem, mas o filme também. Este novo longa não tem só o dever de ser tão bom ou melhor quanto seu anterior, como qualquer sequência já tem. Ele também precisa ser um bom fechamento para a Saga do Infinito, funcionando quase como uma espécie de epílogo, mostrando as consequências do maior evento cinematográfico da década e, ao mesmo tempo, apontar para novas direções nessa jornada. E faz tudo isso muito bem.

Columbia Pictures – Marvel Studios – Pascal Pictures / Reprodução

Inteligentemente, essas pressões se materializam dentro da própria história. As mesmas expectativas são colocadas nos ombros do jovem Peter Parker (Tom Holland), que não se sente capaz de ocupar o lugar vazio deixado por Tony Stark/RDJr. Estaria ele pronto para corresponder as esperanças de todos ao mesmo tempo (dentro e fora da película)? Fica mais fácil de entender as decisões de Peter no filme, que deseja apenas poder tirar um tempo para si mesmo, curtir uma viagem de campo com seus amigos e, se tudo der certo, conquistar o coração de sua colega de turma, MJ (Zendaya).

Tal qual o próprio Peter, o filme tenta escapar das suas responsabilidades na metade do primeiro ato, assume um tom de comédia adolescente, leve, inocente e descompromissado. Focado na necessidade de Peter, ele quer seguir seu plano para conseguir se declarar para a garota que gosta. Até ser convocado por Nick Fury (Samuel L. Jackson), apresentado a um novo herói e um novo desafio, criaturas elementais gigantescas e muito perigosas, vindas de um universo alternativo. É quando as coisas mudam completamente que o filme ganha fôlego e outros ares, entretanto sem perder muito dos elementos que já estava trabalhando. A ausência e o sacrifício de Tony Stark são sentidos o tempo todo, pairando durante toda a narrativa como artifício para amadurecer o personagem. Embora fosse exatamente essa relação com Tony Stark que não me agradava lá no começo, aqui já entendo e gosto muito mais desse Peter Parker que, ao que tudo indica, seguirá os passos de seu mentor. Outro destaque é o modo maduro com que o filme trata de assuntos absolutamente atuais, mostrando um roteiro moderno e perspicaz, cuja adaptação atualizada continua muito acertada. Aliás, talvez essa seja a maior surpresa da trama e pode acabar pegando os fãs mais ávidos do aracnídeo desprevenidos, que se dirigirem aos cinema meio incrédulos, achando que será tudo muito previsível.

Columbia Pictures – Marvel Studios – Pascal Pictures / Reprodução

No fim das contas, Homem-Aranha: Longe de Casa é um filme divertido e bem resolvido que se prova não só muito competente ao que se propõe a fazer como também extremamente necessário para a continuidade do universo cinematográfico da Marvel, tanto por conta do desenvolvimento de Peter quanto por suas duas cenas pós-créditos excelentes. Mas, é necessário ressaltar que a história pode sim desagradar a muitos fãs do personagem, principalmente os que anseiam um filme mais independente do herói. Esse Homem-Aranha, infelizmente nós ainda não vimos na Marvel. É possível, todavia, que esse momento esteja cada vez mais perto.