César, O Imperador

 

Na Roma antiga, Júlio César foi um governante traído e assassinado por seus senadores, sua morte acabou gerando um grande caos e um período conturbado na sociedade, na política e na economia da cidade. Essa história é usada como metáfora para construir o mote do filme Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014), continuação de  Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011) que dá início ao reboot/remake de uma das maiores sagas de ficção científica do cinema. Diferentemente do filme de 1968, em que um astronauta acidentalmente viaja no tempo para um futuro em que a terra e os homens são dominados por macacos, nesta nova versão temos uma contextualização maior com o mundo em que vivemos atualmente.

 

No filme de 2011, os macacos ganham vida através de um soro/gás que é utilizado para combater o mal de Alzheimer, a substância que é testada em chimpanzés resulta em uma solução provisória para a doença, mas concede aos símios uma capacidade de raciocínio e uma inteligência equivalente e, em certos casos, como o do protagonista, superior. César, filho do primeiro símio que recebe o tratamento, é o resultado disso, ele lidera uma rebelião dos macacos, não contra os humanos, mas em prol da liberdade e do direto de viver na selva. Outra consequência do medicamento é o desenvolvimento de uma doença, um vírus que dizima a raça humana e que deixa o gancho necessário para a narrativa do segundo filme.
A continuação de 2014 trata-se de um mundo com cenário pós-apocalíptico. Cronologicamente, passaram-se 10 anos do primeiro filme, já temos a sociedade dos macacos solidificada e César com sua família: um chimpanzé mais velho e outro que acabara de nascer. Se no primeiro filme podemos adotar, como moral, o uso de animais para estudos científicos (o quanto isso pode ser cruel), no segundo a temática subjetiva é a falta de recursos e o caminho (sem volta) que nosso mundo está tomando. Nele, os homens não têm energia e vivem refugiados em um prédio no centro da cidade de São Francisco, Estados Unidos. É justamente a falta de recursos que levam os humanos à floresta em busca de reativar uma usina de energia. Nesse meio, César é traído por um de seus macacos de confiança que inicia uma guerra contra os homens remanescentes. Justamente como na Roma antiga, após o “assassinato” de César um período conturbado se instaura na sociedade dos macacos.
A tecnologia usada no primeiro filme continua impressionando neste. A captura de movimentos que constrói a reação dos macacos (sobretudo César, vivido novamente por Andy Serkis) transmite as nuances necessárias nas feições, por vezes os macacos se saem melhor que os humanos nesse quesito. É impossível não se apegar ao macaco César que, ao mesmo tempo, é líder e generoso, tentando ao máximo proteger sua espécie e família. Em momento nenhum o filme torna-se monótono e o clímax é muito bem desenvolvido. É um aprofundamento da primeira história e ao mesmo tempo um rompimento de vez com o cânone já desenvolvido na franquia de filmes anteriores. A origem e O confronto solidificam uma nova saga de filmes que em nada deve à original e que se distância da mesma, de maneira satisfatória. Feito raro na indústria cinematográfica.
César tem o perfil do Imperador e nos leva a acreditar facilmente em sua luta. É um filme belíssimo para se ver e rever.

Sobre o autor

Thiago Henrique Sena
Atual Vice-presidente da Aceccine. Bacharel em Cinema, formado em Letras e graduando de Ciências Sociais. Apaixonado por literatura, poesia, pintura, animes e mangás. Ama os filmes do Bruce Lee, do Martin Scorsese e do Sergio Leone e gosta de cinema latino-americano e asiático. Escreve sobre jogos, cinema, quadrinhos e animes. Considera The Last of Us e Ocarina of Time os melhores jogos já feitos e acredita que a vida seria muito melhor ao som de uma trilha sonora de Ennio Morricone ou de Nobuo Uematsu.