Anatomia do Caos – O retrato de uma tragédia anunciada (e planejada)

Ainda lembro quando, em meados de 2020 para 2021, ouvi pela primeira vez o termo “necropolítica”. O conceito foi criado e desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe em 2003, e tem forte relação com a ideia de “biopoder” de Michel Foucault, mas só chegou ao meu conhecimento no contexto brasileiro e mundial da Pandemia de COVID-19 através de algum dos vários podcasts que ouvia à época.

Resumindo grosso modo, pelo próprio Mbembe:

(…) a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder.

Ou seja, é uma característica da conjuntura capitalista onde os poderes estabelecidos (mesmo que democraticamente) têm o controle sobre o nível de exposição que as pessoas sob seu governo estarão expostas e situações de violências e negligências as mais variadas possíveis.

Dito isto, creio que, para quem viveu e minimamente acompanhou o desenrolar das medidas tomadas — e das que deixaram de ser tomadas — pelo então governo de Jair Messias Bolsonaro durante o surto de SARS-CoV-2 que atingiu todo o planeta, bem como suas consequências imediatas e posteriores — entre elas, o assustador número de mais de 700 mil mortos em decorrência da doença —, é compreensível o destaque que o conceito de Mbembe ganhou naquele momento.

Em meio à avalanche de acusações de outros crime cometidos por Jair e seu séquito, que vão desde tentativa de golpe de Estado a peculato e lavagem de dinheiro no caso das famosas joias, passando até mesmo por fraude ao falsificar cartões de vacina, o ex-presidente se tornou atualmente presidiário, condenado, após longo julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e 3 meses de prisão e multa. Entretanto, mesmo com incontáveis evidências coletadas e investigação minuciosa realizada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em boa parte do ano de 2021, que resultou em um relatório de mais de 1000 páginas, os crimes de Jair Bolsonaro no tocante à tragédia orquestrada por seu governo durante a pandemia permanecem impunes e o relatório arquivado em alguma gaveta obscura da Procuradoria Geral da República (PGR).

E é sobre esta tragédia e o desenrolar da CPI que o documentário de Dandara Ferreira se debruça. Anatomia do Caos (2026) nos leva em uma viagem amarga ao passado recente do país fazendo um resumo dos principais momentos da Comissão, intercalando com entrevistas e falas de alguns de seus principais membros, como Omar Aziz (presidente da CPI), Randolfe Rodrigues (vice-presidente), Renan Calheiros (relator), entre outros. Ao mesmo tempo utiliza imagens de reportagens e jornais da época, passando por vários dos mais terríveis momentos que o país atravessou naqueles anos, como o colapso do sistema de saúde em vários Estados ou a crise de falta de oxigênio nos hospitais em Manaus, completando com as inúmeras e detestáveis falas e pronunciamentos do então presidente Bolsonaro, não apenas criando uma narrativa que reduzisse a gravidade da crise sanitária como incentivando que a população aderisse a um tratamento comprovadamente ineficaz com o uso de fármacos que nenhuma relação tinham com a COVID em si, além de dissimuladamente dificultar a compra de vacinas e até mesmo desestimular a aplicação das mesmas.

Ainda que seja bastante limitado e muitas vezes até raso em sua abordagem, o documentário é efetivo no que parece ser sua principal intenção: relembrar e informar à população brasileira (e ao resto do mundo) as agruras causadas por um grupo perverso de pessoas que estavam ocupando cargos de enorme poder no país em um de seus momentos mais delicados, tudo isso com o objetivo de manter este poder em suas mãos, através da construção de uma falsa narrativa (que envolvia também um complexo controle através das mídias sociais), e de lucrar com tudo o que estava acontecendo.

Anatomia do Caos apenas resvala na superfície do enorme iceberg que foram aqueles anos tenebrosos, mas é um recorte fundamental de registros audiovisuais de uma História recente do Brasil, que nos ajuda a compreender como suas consequências nos trouxeram até o momento presente. É um alerta do que jamais podemos esquecer, já que como em todo trauma, varrer para baixo do tapete nunca é um bom caminho, pois ele estará sempre nos assombrando, mas sim desenterrá-lo, por mais doloroso que seja, para que saibamos lidar com ele e, consequentemente, não deixar impunes os criminosos responsáveis por tanto mal.


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