Jardim dos Desejos – Poda e renascimento

O cineasta veterano Paul Schrader ganhou destaque nos anos 70 quando foi responsável pelo grande clássico de Martim Scorsese, Taxi Driver (1976), que os levou a uma nova parceria anos depois em Touro Indomável (Raging Bull, 1980). Naquele mesmo ano Schrader faria o filme que o daria destaque não só como roteirista, mas também como diretor, Gigolô Americano (American Gigolo, 1980). Em seus últimos trabalhos, tanto na direção quanto no roteiro, o cineasta tem voltado a apostar em algo que se tornou uma de suas principais características, protagonistas complexos, com passado misterioso e personalidades difíceis de decifrar em um primeiro momento, mas que vai se revelando pouco a pouco conforme o caminhar da narrativa e que levam a profundas reflexões existenciais e/ou sobre a sociedade em que vivemos (ou, muitas vezes, a sociedade estadunidense moderna). Foi assim com o excelente Fé Corrompida (First Reformed, 2017), com o interessante O Contador de Cartas (The Card Counter, 2021) e também com o recente Jardim dos Desejos (Master Gardener, 2022).

Neste último Paul Schrader nos apresenta a Narvel Roth (Joel Edgerton), um jardineiro experiente que lidera uma equipe que trabalha no enorme jardim de uma renomada, rica e solitária viúva, Norma Haverhill (Sigourney Weaver), que preza imensamente pelas flores ali cultivadas, já que costuma promover leilões beneficentes destas periodicamente. A vida pacata de Narvel começa a mudar quando a Sra. Haverhill o solicita como instrutor de jardinagem de sua jovem sobrinha neta recém orfã, para que a mesma não tome os rumos trágicos dos pais, envolvidos em drogas e outros atos criminosos. Maya (Quintessa Swindell) é uma jovem de uns 20 e poucos anos que inicialmente parece não se importar muito com o estágio, mas seu interesse cresce conforme se aproxima mais de seu misterioso mestre de jardinagem.

Logo na primeira metade do longa um dos segredos de Narvel nos é revelado. Primeiro quando, em uma cena, o vemos despir a camisa, o que mostra que seu peito e costas estão cobertos de tatuagens de símbolos e palavras alusivas ao nazismo. Depois, acompanhamos alguns rápidos flashbacks e entendemos aos poucos que o agora jardineiro é um ex-neonazista que decide em um certo momento colaborar com a polícia entregando todo o seu grupo, o que o coloca no programa de proteção à testemunhas, e o afasta de toda sua vida pregressa. Ou seja, a vida de Narvel que conhecemos no filme é seu recomeço, e aqui fica clara as metáforas do roteiro entre a jornada do protagonista e a evolução de uma semente, feia e rústica, até se tornar uma bela e colorida flor.

Entretanto, assim como qualquer flor, a nova vida de Narvel é bastante delicada e mesmo com todo seu metodismo e dedicação, sempre anotando em seu caderninho suas descobertas sobre o universo da botânica, o surgimento de uma espécie de erva daninha pode prejudicar tudo o que foi construído. Mas talvez Maya não seja exatamente sua destruição, mas alguma espécie de inseto polinizador, por quem Narvel acaba ganhando um inesperado interesse e que pode levá-lo a evoluir ainda mais.

O tema trazido por Schrader é bastante complexo. Será possível acreditar na redenção de alguém que vivia com tanto ódio em sua alma? O benefício da dúvida e do arrependimento deve ser sempre uma opção ou há um limite para o perdão? E tudo fica ainda mais difícil pelo fato de Maya ser uma garota negra, a colocando como um alvo de quem Narvel foi em seu passado criminoso. Schrader inteligentemente não faz do filme exatamente uma defesa do protagonista, colocando mais nas mãos e no olhar do espectador o julgamento, o que torna o filme um tanto quanto, e propositalmente, desconfortável. O cineasta opta por uma direção tranquila e lenta, diálogos objetivos e muitas cores na ambientação, embora com pouco contraste. Tudo isso deixa todas as situações ainda mais aflitivas, nos colocando na difícil posição de não esperar onde tudo aquilo irá levar, e a trilha de Devonté Hynes, calma e ao mesmo tempo tensa em outros momentos, é essencial para construir esse ambiente. A personagem de Sigourney Weaver (sempre incrível) é ainda um ponto de estresse da narrativa, com toda sua excentricidade e sua estranha relação com seu jardineiro, e o pouco que vamos supondo de seu passado a coloca como um perigo iminente.

Mais uma vez Paul Schrader mostra suas qualidades como diretor e exímio roteirista, trabalhando de forma sutil temas muito difíceis, e muitas vezes até tabu, em nossa sociedade. Em Jardim dos Desejos o cineasta nos faz refletir sobre perdão e renascimento, e mesmo com algumas escolhas que podem soar estranhas em um primeiro momento fica clara a intenção do cineasta em colocar em cheque questões que parecem já bastante estabelecidas em nossa mente, essa crença no futuro que Narvel aponta em relação às flores, como se pudéssemos controlar tudo o que está por vir.

O filme estreou com bastante atraso nos cinemas do Brasil, mas finalmente encontrou sua distribuição pela Pandora Filmes e está em cartaz em algumas poucas salas.


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