Noites em Claro – Uma realidade mais terrível que a ficção

Em um país no qual o assassinato de pessoas racializadas é institucionalizado, o que é mais aterrorizante, uma noite à luz de velas sendo assombrando por algo que se insinua no escuro, ou o som constante das sirenes da polícia? 

Mesmo eu, como pessoa branca, sei exatamente qual a resposta correta. O medo que as forças policiais inspiram é muito mais assustador que qualquer ser sobrenatural que possa vir a existir. E Noites em Claro (2023), mesmo em sua econômica duração de curta-metragem, trabalha perfeitamente o quão apavorante é, principalmente para um jovem preto e pobre que vive sozinho, ter que lidar com a presença constante de uma força de segurança que faz exatamente o oposto do que deveria fazer, que é proteger.

Ao trazer a história de Carlos (Éricles Carmo), um jovem entregador de comida que passou recentemente a morar sozinho em uma comunidade de periferia, o diretor Elvis Alves faz – a partir de um roteiro próprio em parceira com Celina Ximenes – um retrato breve e bastante incisivo de como é a realidade de quem vive a tensão permanente de ser julgado pela cor de sua pele. Ao buscar contar sua história numa chave de terror, ele potencializa o quão apavorante é essa existência e acaba por se inserir em uma vertente de horror social muito em evidência nos últimos anos. Acredito ser importante entender que buscar contar uma história de crítica social, que ressalte os problemas vividos por uma minoria (seja ela qual for), através das regras e signos de gêneros tão marcados como o terror (ou a comédia) ajuda a retirar desses gêneros o caráter de mero entretenimento, assim como pode dar um alcance maior à discussão proposta pelos realizadores. É algo realizado com perfeição pelo maior expoente atual do horror de crítica social, Jordan Peele, uma perceptível influência aqui, ainda que eu veja que Noites em Claro se aproxima mais de A Lenda de Candyman (Candyman, 2021), tanto visualmente como narrativamente, com as questões de periferia e violência policial que Nia DaCosta trouxe ao seu filme.

Assim como Candyman, aqui, a insistência dos personagens brancos em verem Carlos – e, por consequência, outras pessoas pretas – como o outro, o diferente, é algo muito mais assustador que a entidade com mãos ensanguentadas que surge para o protagonista em determinado momento. A sombra da polícia, seja ela um contorno por trás de uma cortina ou as onipresentes luzes das sirenes, apavora muito mais que a rede que se balança sozinha. São formas de mostrar que o horror, quando vem de uma relação íntima com a realidade, consegue ser muito mais imersivo para o espectador que espíritos e demônios frutos de maquiagem e efeitos visuais.

Ainda que seja um projeto de baixíssimo orçamento, realizado como trabalho de conclusão de curso, o filme mostra excelência na parte técnica, destacando-se a fotografia que equilibra com perfeição claro e escuro, além de utilizar a cor vermelha como elemento de violência e desestabilização. Destaque também para a atuação de Éricles Carmo, que constrói seu personagem de forma tão sincera que nos faz torcer pelo seu sucesso e, ao mesmo tempo, temer por tudo que o mundo pode fazer de ruim com ele.

Noites em Claro, devido a sua curta duração, não propõe aprofundar a discussão que apresenta. Isso, porém, em nada depõe contra o filme. O mais importante, ele já fez: insistir para que entendamos o horror diário e permanente que pessoas pretas vivem, apenas por serem quem são.


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