Nada Ortodoxa – Saindo para o meu mundo

Um dos aspectos que pontua e gera curiosidade pela Netflix é o voltado às suas produções. Seja em formato de série ou filme, a streaming vermelha vem investindo em nichos que, cada vez mais, acertam com o público. Os longas de comédias românticas e as séries com premissa teen são exemplos da receita que se tornaram sucesso no catálogo. Recentemente, o novo buzz se fez pela minissérie Nada Ortodoxa (Unorthodox, 2020), de apenas quatro episódios, evocando emoção e delicadeza na adaptação do livro de Deborah Feldman.

Lançada no dia 26 de março, Unorthodox deu início a um novo passo da Netflix como a primeira série falada no idioma iídiche, e um projeto abordando a comunidade hassídica — conhecida por promover e viver de costumes rigorosos, à parte de outras diretrizes e crenças. Inspirada na obra Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots, acompanhamos Esther ‘Esty’ Shapiro (interpretada por Shira Haas, representando Deborah), uma jovem de 19 anos, ao fugir do casamento arranjado que consumou quando tinha apenas 17, para então traçar outros caminhos e realizar seus sonhos, abandonando a sociedade Satman, em Williamsburg, Brooklyn e partir para Berlim. 

Dividida numa narrativa simples e usual, porém certeira para o desenrolar da história, ao longo dos quatro capítulos seguimos a trajetória de Esty por duas óticas: passado, quando ainda pertencia à comunidade hassídica, e presente, durante os rumos tomados após a fuga. De antemão, a minissérie abre apresentando a personagem central e sua execução de se desvencilhar de um corpo que não se identifica: sufocada, desesperada, focada em seguir o plano. Em poucos minutos, o efeito imediato é o encanto para a atuação hipnotizante e tão expressiva de Shira, o que já garante a ânsia do que se sucederá para a jovem em busca da auto descoberta e dinamismo do próprio futuro — só no olhar de Esther, emana a sede de experimentar o novo.

Apesar da liberdade criativa alterar os eventos depois que Esty saiu de Williamsburg, é notável o cuidado da produção em criar um diálogo honesto do que queria passar através da história. A começar pelo relato de Deborah representado em Esther, o retrato da comunidade expressado no idioma, na música, nas roupas e rituais até chegar no ponto crucial da mensagem: o encontro da voz e liberdade feminina. Ter a produção conduzida em duas passagens possibilitou o entendimento ideal do que Esther fugira — considerando que o espectador, uma vez que mesmo acreditando no movimento que fazia parte, ela era tida como o quesito divergente, ainda assim, persistia na fé de que estaria completa, feliz, honrada e finalmente abraçada quando cumprisse o papel da mulher destinado no judaísmo ortodoxo.

Mesmo findado, o que Esty recebe com o passar do tempo depois de casada é cada vez mais pressão para responder às expectativas prepostas entre um homem e uma mulher: um filho. As coisas não funcionavam como o esperado até para Esther, que contava em se sentir melhor e menos indiferente ao que acreditava: para ela, não acontecia como para as outras mulheres da comunidade de engravidar no primeiro ano de casamento, e enquanto obtia o choque de lidar com pontos desconhecidos que enfrentaria em conhecer mais do próprio corpo, o marido Yanky Shapiro (Amit Rahav), acrescentava com a falta de compreensão, almejando apenas fazer o que as regras dos costumes diziam.

A vontade de Esty em largar tudo corresponde a uma pessoa que se vê presa numa caixa com furos, tendo que atender a tantas normas estabelecidas por uma sociedade, de como deve ser, andar, vestir e se portar, e dos furos, ver que tem uma luz, outros espaços impedidos de adentrar por ouvir que a regra é se contentar com os limites. Para alcançar o desejo de praticar no universo da música, Esther entendeu que teria de deixar a caixa, o casamento infeliz, a peruca, pressões postas, as normas. 

Delicadamente, a série escrita por Feldman, Daniel Handler, Alexa Karolinski e Anna Winger ganha um olhar único na direção de Maria Schrader compondo a transição de dentro para fora da redescoberta de Esty — seja na maneira de andar ou nas roupas que usa. E o que Shira faz dominando o medo e vontade da jovem em experimentar o desconhecido ganha uma força absurda e emocionante — a cena em que ela admira Berlim da janela do táxi, o mergulho na praia, são exemplos grandiosos que destacam a sensação e contrastes da personagem —, e elevam momentos tirados de séries teens para um contexto de superação e liberdade de alguém ousando para se conhecer além do temor.

Disposta de uma linguagem única na produção e talento do elenco — a ingenuidade de Yanky e vilania de Moishe (Jeff Wilbusch) realçam ainda mais a narrativa —, Nada Ortodoxa brilha por se centralizar em um modo de vida — e as passagens no cotidiano hassídico são pontos ricos aqui — e fuga dele que vai mexer com os espectadores. Mais que eficiente e capaz de emocionar com a delicadeza que se transmite, Unorthodox fala da liberdade de ter voz e poder explorar longe das amarras. Com um jeans e batom, Esty entra para o seu mundo.

Sobre o autor

Felipe Oliveira
Ama ouvir músicas, e especialmente, não cansa de ouvir Unkle Bob. Por mais que critique, é sempre atraído por filmes de terror massacrados. Sua capacidade de assistir a tanto conteúdo aleatório surpreende a ele mesmo, e ainda que tenha a procrastinação sempre por perto, talvez escrevendo seja o seu momento que mais se arrisca.