Final Fantasy VII Remake – Nunca um Final Fantasy foi tão grandioso

Crescer nos anos 90 e ainda mais jogando RPGs japoneses e não ter ouvido falar em Final Fantasy é impossível. Até menos aqui, nas terras brasileiros, onde os jogos tinham tantas dificuldades comerciais para serem lançados e a maioria era feita de maneira não oficial ou como é mais conhecida: piratona. Sendo assim, você, eu e qualquer outra pessoa que tenha jogado Final Fantasy VII (1997) durante esse período não tínhamos a noção do quanto esse jogo era grandioso, a ponto de furar barreiras geográficas e oficiais. O sétimo jogo da antiga Squaresoft e atual Square Enix pode ser considerado como o maior difusor do gênero e da franquia no ocidente. Claro que o jogo contava com enormes qualidades, sua história, jogabilidade, personagens etc, mas sem dúvidas o maior trunfo para seu sucesso foram seus fãs. Não vou mentir, Final Fantasy VII não é meu favorito da série, mas certamente foi um dos que mais joguei e me marcou.

Final Fantasy VII Remake (2020) vinha sendo especulado na indústria há muitos anos, o sonho de ver um dos jogos mais amados de todos os tempos com um poderio gráfico melhor começou a ser cultivado em 2006 quando a Square lançou um trailer demo do jogo mostrando o poderio gráfico do PlayStation 3 . Desde então as mentes daqueles que um dia já jogaram o clássico de 1997 desejavam ansiosamente pelo seu remake. Essa confirmação demoraria ainda a chegar, apenas na E3 de 2015, cerca de 9 anos depois do trailer demo, ele foi confirmado. Cerca de 5 anos após sua confirmação, no dia 10 de abril de 2020, finalmente Final Fantasy VII Remake foi lançado e os fãs puderam concretizar esse desejo tão antigo. A pergunta que fica é: o jogo vale a pena?


Sendo bem direto, a resposta é sim. O jogo vale muito a pena. O que não significa dizer que seja perfeito ou isento de críticas. Esse texto tentará ser o mais justo possível com o novo jogo e apontar o que não são necessariamente defeitos, mas que em algum momento surgiu como um incômodo durante as quase 60 horas de gameplay. Algumas coisas são “chover no molhado” quando se trata de qualquer Final Fantasy: a música e a história. A música segue o padrão, a trilha original composta por Nobue Uematsu é retrabalhada, muito mais por trazer elementos e qualidade tecnológicos que não podiam ser inseridas na mídia de 1997, músicas novas também compostas para o novo jogo e, pasmem, todas elas são envolventes e cativantes. São quase um personagem a parte e todas as vezes que alguma música de ação toca, seja o clássico tema de batalha “Those Who Fighter” ou a temida “One Winged Angel”, música tema do vilão Sephiroth, a trilha sonora é capaz de emocionar desde o primeiro segundo do jogo até o final dos créditos. 

Falar da história sem dar spoilers é complicado, mas vou assumir essa missão. O primeiro ponto relacionado a narrativa é a caracterização de seus personagens. Todos os protagonistas, bem como os antagonistas e NPCs do jogo foram remodelados. A personalidade de alguns também foi alterada, todas essas mudanças fazem sentido, e não há um ponto de crítica aqui. Até porque o jogo original, por conta da limitação da época, sugeria muita coisa, comportamentos e atitudes por exemplo, agora tudo isso é desenvolvido, e muito bem desenvolvido. Assim, como é previsível diante dessas alterações a história também se modificou, certos personagens que não tinham muitas ações ou falas no jogo clássico ganham um background muito bem trabalhado e explicado. Eu realmente fiquei surpreso com o quanto aprofundaram certos temas e pessoas. Acho que isso foi necessário tendo em vista a expansão do jogo. Esse primeiro jogo de Final Fantasy VII Remake comporta apenas a primeira cidade do jogo clássico. Ou seja, um segmento do jogo que durava cerca de 5 horas passou para quase 60 (totalizando 100% do jogo), evidentemente que o jogo novo aprofunda certas questões que o antigo não fez. 

A jogabilidade e ambientação são excelentes. Enquanto a primeira parece ser a composição perfeita de ação mais estratégia por turnos, fazendo com que as lutas tornem-se bem mais dinâmicas sem abrir mão das decisões por turnos, isso traz uma lista de possibilidades quase infinitas quando se trata de elaborar um jeito de derrotar algum inimigo ou passar por algum chefe difícil; a segunda é a realização de todo fã do jogo clássico: ver Midgard esplendorosa em sua nova versão, é indescritível ver todos os detalhes que os desenvolvedores tiveram, recriando cenários clássicos e ao mesmo tempo trazendo muitas coisas novas: é lindo. 

Contudo, nem tudo são flores, Aerith que me perdoe, mas o jogo possui alguns problemas. O primeiro e mais evidente são as texturas gráficas. Sim, o jogo é lindo, porém às vezes é mal otimizado. É comum ao entrar em uma área nova ou se mover com muita velocidade entre as ruas de Midgard, notar o cenário renderizando em tempo real, saindo de um borrão horroroso até chegar no gráfico que o jogo considera o real. Isso aconteceu várias vezes durante a jogatina, com uma frequência ainda maior em lugares abertos e durante o dia no jogo. Não é algo que vá prejudicar diretamente a jogabilidade, mas deixa a experiência um pouco mais ruim, muito mais pela constância do que pelo problema em si. O segundo ponto que gera problemas é no quesito exploração. Ok, confesso que talvez o problema esteja comigo e com minha expectativa. Eu esperava explorar Midgard em um nível parecido com GTA. Que nós pudéssemos nos locomover pelos diversos setores, interagir com vários NPCs, usar veículos etc. Não é isso que acontece aqui, a exploração falha em diversos momentos, o jogo é bastante linear nesse sentido, chegando a ter uma parede invisível que impede o jogador de avançar a determinada área, além de sempre indicar no mapa o ponto onde o personagem deve ir. Como a expectativa era alta, ao me deparar com essas limitações, confesso que fiquei um pouco decepcionado. 

Continuando, mais dois pontos me incomodaram um pouco: as missões secundárias, agora o jogo conta com diversas missões paralelas para fazer com que ganhemos dinheiro e experiência, o problema é que, além de poucas, elas são bem repetitivas e chatas. Vou dar um exemplo: em um determinado setor de Midgard, nós temos que encontrar gatinhos perdidos pela cidade, em outro setor, nós temos que encontrar crianças de um orfanato, em um terceiro lugar, nós temos que encontrar Chocobos perdidos. Percebem? A mesma mecânica de missão sendo reaproveitada pelo menos três vezes no jogo. Isso foi só um exemplo, fazer as missões secundárias é um teste para a paciência, infelizmente. Por fim, o último ponto que tenho a criticar é a constante quebra de ritmo que o jogo dá, explico: se você jogou o clássico, sabe que em determinados momentos o jogo ganha um ar de urgência: é preciso fazer algo rapidamente antes que dê algum problema gigante, o novo jogo tem esses momentos de urgência, mas eles são constantemente quebrados por ações repetitivas, como enfrentar um inimigo difícil de matar três vezes seguidas ou até mesmo novos segmentos inteiros de história que são inseridos em momentos cruciais para o jogo, chega a ser bastante broxante jogar essas partes enquanto você espera chegar na parte realmente interessante. 

Final Fantasy VII Remake é um jogo grandioso e, como seu antecessor, não perfeito. Isso não diminui o prazer de jogá-lo, principalmente se você jogou o clássico de 1997. Suas imperfeições são deixadas de lado quando você testemunha uma das maiores histórias já contadas em um jogo de videogame. Ao terminar o jogo, ficamos com a sensação de que essa história só está começando (e de fato está) e na falta de uma continuação eminente, o jeito é rejogar e descobrir coisas novas, buscar suas conquistas ou apenas apreciar a trilha sonora enquanto derrotamos um monstro. Nunca um jogo de Final Fantasy foi tão grandioso. 


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Sobre o autor

Thiago Henrique Sena
Atual Vice-presidente da Aceccine. Bacharel em Cinema, formado em Letras e graduando de Ciências Sociais. Apaixonado por literatura, poesia, pintura, animes e mangás. Ama os filmes do Bruce Lee, do Martin Scorsese e do Sergio Leone e gosta de cinema latino-americano e asiático. Escreve sobre jogos, cinema, quadrinhos e animes. Considera The Last of Us e Ocarina of Time os melhores jogos já feitos e acredita que a vida seria muito melhor ao som de uma trilha sonora de Ennio Morricone ou de Nobuo Uematsu.