A Ilha da Fantasia – Quando entreter não é uma ilusão

De tantos efeitos que um reboot ou remake pode ter, talvez o mais positivo seja de atualizar uma obra para um novo público. As Panteras (Charlie’s Angels, 2019), Power Rangers (2017), e nas telinhas, temos o exemplo da série Scream (2015 -), inspirada na franquia de filmes slashers dirigida por Wes Craven, Pânico (Scream, 1996 – 2011). Popular entre o final da década 70 e meados de 80, o programa televisivo Ilha da Fantasia (Fantasy Island, 1977 – 1984) prestigiava a tarde de muitos telespectadores na trama que trazia os icônicos Sr. Roarke (Ricardo Montalban) e Tattoo (Hervé Villechaize) comandando uma ilha que realiza os desejos de seus convidados, mas claro, desejar requer um preço. Agora foi a vez do cinema contar com sua versão desta ilha, que diante da breguice e tosquice conseguiu não ser um fiasco. 

Seguindo a lógica da série, o filme dirigido por Jeff Wadlow trouxe o misterioso Sr. Roarke (Michael Peña) como o anfitrião da chamada Ilha da Fantasia, um lugar exótico o qual concede a chance de realizar as fantasias de seus convidados. Quer ver alguém que faleceu há muito tempo? Mudar uma situação constrangedora ou perder o bv? Não se preocupe, a ilha dá conta, mas tudo complica quando eles percebem que lutar pela sobrevivência vai além do que ter anseios concretizados.

Chegar no final desta produção e concluir que apesar dos tropeços você pôde encará-la como um bom passatempo, se torna uma surpresa perante a estrutura pobre e pretensiosa que o filme exala desde a cena de abertura. Começamos com uma breve passagem para provocar acerca do universo em que a história se passa: trilha sonora tensa, um filtro azulado, pouca iluminação e alguém em perigo; o problema é que a coisa toda é algo que já cansamos de ver inúmeras vezes, mas ainda apostam fundo para que nos perguntemos do que se trata tal mistério.

Ter essa impulsionada trivial não foi nada se comparada a apresentação ao elenco principal chegando a ilha depois de selecionados para realizar sua fantasias: os irmãos J.D (Ryan Hansen) e Brax (Jimmy O. Yang), a millennial Melanie (Lucy Hale), a intrépida Gwen (Maggie Q) e o simpático Patrick (Austin Stowell) postos em tentativas de jogar um cinismo ali, frases prontas aqui, um pouco de humor acolá, resultando no geral o choque de personalidades distintas forçando para causar alguma empolgação a audiência. 

É tanta perda de tempo idealizando características supérfluas  nos personagens que fica brusco quando a narrativa se preocupa em entrar no mistério que promete, fazendo o nome que encabeça o lugar valer a pena. A repercussão é referente a um filme Sessão da Tarde em que o mocinho e a mocinha têm seu sonho americano estragado e precisam lutar contra o tempo para resolver todo o enigma, salvar o dia e a todos. Para uma produção da Blumhouse que vendeu uma experiência mirabolante e aterrorizante para quem se atravesse a  desejar, A Ilha da Fantasia mais se resume a um suspense psicológico de aventura sombria que faz o público torcer pra um final que o grupo do Mistério S.A resolveria fácil. 

O maior plot twist não é o que a narrativa insere para tornar a película grandiosa, e sim do telespectador que não esperava passar do segundo ato com a atenção fisgada querendo saber até onde iria o mistério por trás de tudo que estava vendo. Assim, A Ilha da Fantasia ganha o título, não por burlar o terror para quem queria, mas por se apoiar a um arquétipo eficiente de enigmas, falsas pistas e reviravoltas, utilizando da fórmula da melhor forma possível.

A quem o marketing conseguiu enganar, ao chegar na ilha vai se deparar com uma fantasia diferente do que imaginou. E se foi sem cogitar ter as expectativas superadas, vai sair com a convicção de que topou uma viagem repleta de outros momentos de filmes vistos por aí, e que, de algum jeito, deu certo. Mesmo funcionando como um prelúdio e homenagem ponte ao seu material original, a mensagem é clara: não viveremos uma vida perfeita nem sem arrependimentos, portanto não há fantasias que possam mudar isso. Então, sigamos.