Boneco do Mal – Reviravoltas não tornam um filme bom

Sair do comodismo é uma ruptura que traz um efeito extremamente recompensador para quem o deixa, o qual se torna um desafio pô-lo em prática. No início de 2016, Boneco do Mal (The Boy) teve a ousadia de pegar aspectos triviais do terror, burlá-los para então entregar o que seria inovador e libertador para os clichês do gênero. Boneco maligno tapeando a protagonista enquanto arrasa com geral, até se dar conta de onde se meteu? A atração quis ir além disso, mas foi na própria teia de criatividade que se enrolou e estragou a oportunidade de ser de fato revolucionário.

Fugindo de um relacionamento abusivo, uma babá americana, Greta (Laura Cohen) aceita o emprego na casa de uma família inglesa para cuidar de um garoto de 8 anos. Porém, ela descobre que, na verdade, o tal garoto é um boneco de porcelana o qual substitui o jovem falecido. Cuidar de um boneco não é tão fácil quanto parece, pois, ao desobedecer as regras estabelecidas, Greta lida com eventos cada vez mais bizarros.

Que mal poderá acontecer se, por exemplo, violar a regra de não deixar o chamado Brahms sozinho? A maneira debochada com que Greta leva a complicada situação é a base para o que mais funciona no filme: a possível perda de sanidade da babá. No começo, a produção não se esforça muito para ser interessante ao apelar para o típico sexismo com um pretendente super educado para conseguir um encontro. Depois, cenas em corredores escuros segurando vela, enquanto a chuva com relâmpagos cai do lado de fora, a trilha sonora preparando terreno pro susto manjado… Daria pra falar bastante dos elementos batidos utilizados para invocar uma atmosfera aterrorizante, mas The Boy alcançou alguns méritos que lhe possibilitou esperanças.

A fotografia com tom cinza e frio serviu bem para composição de insegurança, devaneio e isolamento que Greta sentiu instaurar  aos poucos ao ver que algo a mais acontecia ali na casa, que só ela e o boneco (às vezes a visita do bom moço Malcolm, vivido por Rupert Evans) ficavam, como também, a cinematografia colaborou para o clima de morte que conota o local: só de olhar para o boneco, a forte caracterização dos traços foi o suficiente para transmitir a dúvida que fazia repensar além do quesito “é só a personificação de um menino morto”.

A culpa levou ao arrependimento, que levou para um senso de empatia de babá, e finalizou em um jogo psicológico para questionar o que poderia estar acontecendo: a coisa toda se tratava de uma sacada maneira de fazer Greta se perder no que não levou a sério no primeiro momento? Todas essas divergências vão por água abaixo quando se percebe que Boneco do Mal não quer mais seguir o caminho inteligente e ser o terror cabeça que prometia.

O desespero é tanto que William Brent Bell não disfarça que pensou na reviravolta como o feito perfeito para fechar a monstruosidade que é esse filme pra lá de atrevido. Mas The Boy precisava mesmo disso? Fazer o inverso que as propostas sobrenaturais aplicaram porém com algo mais “pé no chão”? No querer valorizar tanto, acabou desvalorizando o que pôde construir dentre os tropeços.

A condução para o último ato, o esperado ápice, chega a ser irônico por seguir por um meio calculado para dar um fim dramático depois da proposta tentar aos mancos não ser mais do mesmo. ALERTA DE SPOILERS: o desenho da cena é Greta perseguida pelo ex, o novo pretendente tentando ser herói, enquanto outro vilão revela o esforço para manter a moça aos seus caprichos. Quanto sufoco para esta mulher! FIM DOS SPOILERS.

Em suma, Boneco do Mal estava agradando ao não evitar os artifícios genéricos do terror, mas ainda assim, moldando uma narrativa que fazia da dúvida e da contradição sua força. Pena foi chegar no final chutando tudo, quebrando as paredes, para expor a ambição de querer ser mais do que pretendia. Do que adianta a reviravolta, se não foi pra ter coerência? A continuação do longa entrará em cartaz em breve com o retorno de William na direção, apenas para firmar o desespero de uma história que não tinha mais futuro.

Sobre o autor

Felipe Oliveira
Ama ouvir músicas, e especialmente, não cansa de ouvir Unkle Bob. Por mais que critique, é sempre atraído por filmes de terror massacrados. Sua capacidade de assistir a tanto conteúdo aleatório surpreende a ele mesmo, e ainda que tenha a procrastinação sempre por perto, talvez escrevendo seja o seu momento que mais se arrisca.