MIB: Homens de Preto – Internacional – Expandindo os horizontes do Universo

Em 1997 éramos apresentados a uma das melhores duplas do cinema, Jay e Kay, interpretados respectivamente por Will Smith e Tommy Lee Jones, na adaptação para as telonas dos quadrinhos criados em 1991 por Lowell Cunningham, sobre uma agência secreta responsável por manter o “diálogo” entre a Terra e os seres extraterrestres que porventura estejam de passagem por aqui. Dirigido por Barry Sonnenfeld, MIB: Homens de Preto (Men in Black, 1997) marcou a passagem da minha infância para a adolescência como um dos ícones daquela geração, se utilizando de uma ideia simples, que era a estadia secreta de alienígenas controlada pela agência, referências aos famosos filmes de duplas policiais (Máquina Mortífera, Bad Boys, etc.) e do carisma e entrosamento dos dois protagonistas, o filme fez um sucesso estrondoso, naturalmente dando abertura para mais duas sequências, em 2002 e 2012, com os atores reprisando seus papéis e ambas também dirigidas por Sonnenfeld.

Apesar de os três filmes fazerem bons usos das regras deste universo onde a migração alienígena necessita de uma agência controladora no nosso planetinha azul, com direito até a viagem no tempo, é fato que ainda existia muito a ser explorado, tanto sobre o funcionamento da MIB, como das várias raças extraterrestres e seus motivos para perambularem em solo terráqueo. Além do mais, mesmo que sejamos apegados à dupla J e K, sempre tivemos uma curiosidade de vermos outros agentes trabalhando nesta importante missão. Pelo menos, eu tinha.

Até que foi anunciado, deixando um total de zero pessoas surpresas, um novo filme da franquia, mas não mais como continuação dos três anteriores, dessa vez mais como um spin off, com novos personagens, vivendo novas aventuras e, o mais interessante, saindo do principal alvo de ataques alienígenas do planeta segundo Hollywood, os Estados Unidos. MIB: Homens de Preto – Internacional (Men in Black: International, 2019) tem exatamente a proposta de expandir os horizontes desta realidade, apresentando uma outra agência MIB, localizada na Inglaterra, e levando os protagonistas para vários lugares pelo mundo para resolver mais um caso que põe a humanidade em risco de extinção. A direção, desta vez, ficou a cargo de F. Gary Gray, de filmes como Sexta-Feira em Apuros (Friday, 1995), Straight Outta Compton: a História do N.W.A (Straight Outta Compton, 2015) e Velozes e Furiosos 8 (The Fate of the Furious, 2017), e a nova dupla é interpretada por Chris Hemsworth e Tessa Thompson, que já haviam demonstrado uma boa interação ao contracenarem em Thor: Ragnarok (2017).

A premissa deste novo filme me pareceu, inicialmente, interessante. A jovem Molly (Mandeiya Flory) testemunha de longe seus pais terem suas memórias apagadas por um estranho aparelho utilizado por dois homens vestindo ternos pretos e logo em seguida se depara com uma pequena criatura azul claramente de outro planeta. Prontamente e com muita calma, a garotinha ajuda o bichinho a escapar pela sua janela em segurança, mas estes eventos acompanhariam toda a vida de Molly que cresce obcecada por aqueles misteriosos homens e aquela criaturinha peluda. Antes de tudo sabemos ainda que a menininha tem uma grande propensão à curiosidade ao dormir agarrada com um exemplar de Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking. Agora crescida, Molly (Tessa Thompson) está completamente decidida a, não só descobrir exatamente quem eram aqueles homens de terno, como a fazer parte desta organização, que, a essa altura, ela já tem uma ideia do que se trata.

Por outro lado, somos apresentados ao Agente H (Chris Hemsworth), famoso e aclamado por ter salvado o mundo de uma espécie de raça ou organização alienígena conhecida como A Colmeia, juntamente com seu então parceiro, o veterano Agente T (Liam Neeson). Canastrão e super esnobe, H parece se apoiar em sua fama e na guarda de seu ex-parceiro para manter sua reputação de agente exemplar, quase um arremedo de James Bond desta realidade. Obviamente que Molly se tornaria, invariavelmente, Agente M e seria obrigada a fazer dupla com H, criando a dicotomia entre a novata super nerd e empolgada com o novo serviço e o veterano boa praça e bonitão meio desligado, brincando com variações da dupla da trilogia anterior.

No entanto, por alguns motivos, este novo filme, por mais que se esforce, parece não conseguir o brilho de seus antecessores. Parece sempre que há algo faltando. Talvez expandir e desmistificar demais o funcionamento das agências possa ter tirado uma das graças da franquia, que era exatamente o mistério que encobria seu funcionamento. Outra coisa que parece não ter funcionado muito bem foi a tentativa de emular um tradicional filme de espião, e as viagens a vários lugares, como Nápoles, Paris e o deserto do Saara, acabam parecendo muito forçadas, tendo sido talvez de melhor  proveito se a trama se limitasse ao território britânico e as peculiaridades da agência inglesa em relação à norte-americana, mesmo que isso soe muito um Kingsman às avessas. Além do mais o uso dos clichês do gênero acabam sendo mal colocados, fazendo com que a trama se torne muito previsível quando uma surpresa maior por parte dos expectadores pudesse ser uma força no filme.

Além disso, por mais que os dois protagonistas tenham potencial, o timming de algumas piadas não caiu tão bem, e é impossível não fazermos uma comparação (possivelmente injusta) com a dinâmica incrível entre Will Smitth e Tommy Lee Jones nos filmes anteriores. Os alienígenas e suas características bizarras, outra forte marca da franquia, não foram tão satisfatórios e memoráveis, com algumas poucas exceções. E o pequeno ajudante que acompanha a dupla após meados da película, apesar de trazer alguns momentos engraçadinhos, acaba se tornando forçado demais, quase como um personagem de desenho animado dos estúdios Hanna Barbera, eventualmente cansando o espectador, sem contar que sua presença na trama não faz quase nenhuma diferença além do alívio cômico em si (saudades Frank).

É claro que este filme foi um teste arriscado, sair um pouco da zona de conforto da dupla tradicional e criar novas possibilidades para este rico universo, e é muito certo (correndo o risco de errar feio) que tenhamos uma ou mais continuações que deem prosseguimento a este longa. Nos resta apenas torcer para que os responsáveis identifiquem os erros e os acertos desta primeira tentativa e sejam mais felizes em uma próxima.