3 Faces – Poesia e resistência

Reprodução

O cineasta iraniano Jafar Panahi está oficialmente proibido de realizar filmes em seu país desde 2010, durante o período de 20 anos. Contudo, ele dirigiu e atuou em quatro longas: Isto Não É Um Filme (In Film Nist, 2011), Cortinas Fechadas (Pardé, 2013), Táxi Teerã (Taxi, 2015) e, agora, 3 Faces (Se Rokh, 2018). Seu mais recente trabalho reforça a questão do pensar cinema e o quão isto está associado ao cotidiano, tema comum ao cinema contemporâneo iraniano.
O filme tem como sinopse: Behnaz Jafari e Jafar Panahi viajam para o interior do país em busca da jovem atriz que pede ajuda para poder atuar e enfrentar sua família conservadora. Trabalhando no limite entre ficção e documentário Panahi entrega um filme sólido sobre várias questões caras ao povo de seu país e de interesse para o desenvolvimento de um cinema independente. Primeiro aspecto e talvez o mais evidente seja o conservadorismo do país, principalmente relacionado às mulheres que são vítimas de um regime político e uma sociedade abertamente machista. O conservadorismo é trabalhado em outros filmes do diretor como Fora do jogo (Offside, 2006) e Táxi Teerã, mas é a primeira vez que o diretor volta seu olhar para a população do interior de seu país. O foco não é a grande cidade, e sim a vida dos vilarejos mais afastados em um composição campo-rupestre. Nesse aspecto o filme se aproxima muito de outras obras do cinema iraniano, como os filmes de Abbas Kiarostami especialmente a Trilogia do Koker.

Reprodução

O segundo ponto interessante para o desenvolvimento do texto e do pensamento sobre o filme é justamente essa aproximação com o cinema do Kiarostami. Além de voltar o olhar para o interior do país, Panahi utiliza de um recurso muito recorrente na obra de seu amigo e conterrâneo, a metalinguagem. É o cinema falando sobre cinema e com os atores interpretando a si. Inclusive uma fala do filme me chamou muita atenção, em uma conversa no telefone entre Jafar e sua mãe, ela fica preocupada com o filho, pois acredita que essa viagem de última hora seja para realização de um filme. Essa preocupação pode ser entendida como uma preocupação real já que Panahi está impedido de realizar filmes, mas também como o cinema é algo que pode ser perigoso e que requer cuidados ao ser produzido. Outras coisas aproximam mais o cinema desses dois diretores, em termos espaciais o filme passa boa parte de sua minutagem dentro do carro, portanto dentro do quadro haviam outros quadros, questões relacionadas a pensamento de personagens e até claras referências ao cinema de Kiarostami recriando alguns planos que são bem parecidos e icônicos em seus filmes. Não sei ao certo se essa aproximação por parte de Panahi foi proposital ou se almejava uma homenagem ao amigo morto em 2016, mas em minha cabeça prefiro acreditar que sim, pois é tudo feito de uma maneira bem bonita e poética.
O terceiro ponto que o filme ressalta é o distanciamento entre a classe artística (podendo ir além do cinema) com a população. Ao serem colocados lado a lado, cineasta, atriz e população, fica claro que o entendimento não acontece. Não falam a mesma língua em um sentido não literal da expressão. Isso reforça um padrão que acontece no mundo todo, inclusive no cinema brasileiro e cearense. O filme não se aproxima da sociedade, realizadores e produtores que se aproxima com o intuito apenas de rodar o filme e depois vão embora. Infelizmente, esse afastamento está presente e o filme de Panahi traz justamente uma reflexão sobre isso. É necessário criar essa ponte entre o artista e povo, sem envolver uma noção de exploração.

Reprodução

Nos aspectos técnicos o filme é um primor visual, com planos tão lindos e tão bem compostos que eu sinceramente não sei como eles foram gravados. Há uma sequência inteira dentro do carro (logo no início do filme) que demonstra o total controle de fotografia e mise-en-scene da direção. É uma sequência dessas que deve ser mostrada nas escolas de cinema. A montagem do filme é sugestiva e aliada a um bom roteiro (vencedor de melhor roteiro no Festival de Cannes junto com Lazzaro Felice) geram uma linguagem poética e não expositiva.
3 Faces é um filme importante. Seja pela sua força e resistência por ser feito mesmo na ilegalidade, ou pela questões sociais tratadas: o conservadorismo e a distância entre a arte e o povo. Para além, é um filme poético e saudosista que pode ser interpretado como uma bela homenagem ao cinema do Irã e de um dos seus maiores realizadores, Abbas Kiarostami.