Nós – O inferno são os outros

O lançamento de Corra! (Get Out!, 2017) foi um verdadeiro fenômeno da sua época. O filme pegou as pessoas totalmente de surpresa com sua originalidade e, porque não dizer, irreverência. Foi indicado a quatro Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção, mas acabou vencendo a categoria de Melhor Roteiro Original. Além de, claro, voltar os olhares do mundo inteiro para o jovem e estreante Jordan Peele. Depois do sucesso, obviamente que haveria todo um burburinho em volta de seu próximo projeto. Dito e feito, Nós (Us, 2019) causou interesse instantâneo no público. O mundo inteiro queria ver se Peele conseguiria se superar.

Nós se passa nos dias de hoje, no litoral da Califórnia, e é estrelado por Lupita Nyong’o, que aqui mostra todo o seu incrível potencial, no papel de Adelaide Wilson, mulher que retorna para a sua casa de praia da infância com o marido Gabe (Winston Duke) e os dois filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) para passar férias de verão. Adelaide carrega um trauma de infância que nunca foi completamente esclarecido e quando uma série de estranhas coincidências começam a acontecer, ela se vê paranoica e convencida de que algo ruim vai atingir a sua família.

Aqui, Jordan Peele repete o feito de produzir, escrever e dirigir. A história contada em Nós já estava sendo desenvolvida antes mesmo de Corra! ser finalizado e desde então já prometia ser mais aterrorizante e universal. E ele consegue fazer isso tudo, ao mesmo tempo que firma uma assinatura, um estilo muito próprio de brincar com os gêneros dentro de um filme só. O riso, o horror, a beleza dos enquadramentos de câmera, a trilha (assinada por Michael Abels, que também fez Corra!), tudo é colocado de maneira equilibrada, sem que um momento se destaque mais, atrapalhando os outros. O resultado é um filme que te carrega inteiramente, cria seu próprio mundo, suas próprias regras e joga com o seu emocional o tempo inteiro.

O que mais me surpreende nesse filme – além da atuação da Lupita que merece todo o reconhecimento possível, assim como Toni Collette também mereceu em Hereditário (Hereditary, 2018) (quer você goste do final ou não) e foi injustamente esnobada pelas premiações – é a sutileza com que ele lida com vários temas, embora esteja trabalhando com uma premissa muito antiga e conhecida; o medo dos duplos, sósias, doppelgangers, etc. A premissa é trabalhada durante todo o filme, inclusive através da direção de arte, que brinca com padrões, sombras e duplas, desde o material gráfico promocional do filme, como aquele primeiro cartaz que foi liberado que lembrava um teste de rorschach, até a própria arma da antagonista, em evidência nos outros cartazes do longa, uma tesoura dourada, a tesoura que é um objeto formado por dois lados iguais, espelhados.

Mas, pode ir muito mais além do que isso, com espaço para muitas interpretações. Por exemplo, em dado momento do filme Jason, o caçula da família, aponta os dedos para o pai e diz “quando apontamos o dedo para alguém, três outros dedos apontam de volta pra gente” e no fim, sinto que o filme fala um pouco sobre isso também, não há nada mais aterrorizante do que não ter ninguém em quem colocar a culpa dos seus vícios e erros a não ser você mesmo. Pensar que você é seu maior obstáculo é difícil porque parece um problema sem solução. Ninguém quer assumir seus defeitos, suas falhas. Apontar e culpar o outro sempre é mais fácil, tornar o outro a face do inimigo e atacar com todas as forças. Mas o que fazer quando o inimigo tem o nosso próprio rosto?